Autor
de sucessos jovens como “Top
Model” e “Vamp”, Antônio
Calmon voltou
ao seu universo típico com “Três
Irmãs”, que chega ao fim nesta sexta-feira, 04/10. A trama das 19h,
com uma história que gira em torno do mundo do surfe, começou com promissores
33 pontos no ibope – acima dos 32 de sua antecessora, “Beleza Pura” – mas
não teve a mesma repercussão que obras anteriores do autor. Calmon viu os
índices de audiência caírem para uma média de 27 pontos, em seguida para a
faixa dos 24, e recebeu algumas bordoadas da crítica, mas se diz satisfeito com
o resultado.
A
história, que tinha toques de consciência ecológica, foi chamada de ingênua,
apesar do elenco digno do horário nobre, encabeçado por Cláudia
Abreu, Giovanna
Antonelli e Carolina
Dieckmann –
as três irmãs do título. Na entrevista abaixo, o novelista, que preferiu
responder às perguntas por e-mail, defende sua criação e diz que Giovanna e sua
atrapalhada Alma foram um grande acerto. Segundo ele, “poucas
obras foram tão ousadas na linguagem, no humor, na inversão dos clichês, na
manipulação do folhetim, na metalinguagem, nas soluções digitais”. Antes de
tomar sua forma final, centrada na história de três irmãs com personalidades
bem diferentes com o pano de fundo da fictícia Praia Azul, a obra de Calmon
havia sido originalmente concebida para o horário das 18h. Seria uma novela de
época, que acabou substituída por “Negócio
da China”, de Miguel Falabella. Com a
mudança para o horário das 19h, a história ganhou o surfe como tema, já
explorado pelo autor em “Top
Model” e “Corpo Dourado” e na
revolucionária série “Armação Ilimitada”. A
escalação também teve mudanças no decorrer da trama, com a saída de Graziella
Moretto, afastada devido à gravidez, e a entrada em cena de Emanuelle
Araújo e Erik
Marmo.
P:
Qual é o seu balanço da novela?
ANTONIO CALMON: “‘Três Irmãs’ é inovação
do começo ao fim. Poucas novelas ambientadas no presente tiveram um desenho de
produção próprio tão marcado, uma imagem tão cuidada, tão harmônica e luminosa,
com tanta unidade visual, não apenas nas belíssimas cenas do mar e do surfe,
mas em cada cenário, em cada externa. Raras novelas das sete contaram com
elenco tão extraordinário. Assim como raros produtos audiovisuais nacionais
abordaram tão diretamente problemas urgentes tais como a destruição da
natureza, a união explícita de política e crime, a corrupção de valores das
nossas ‘elites’, a indignação cada vez maior da sociedade, o surgimento de
lideranças realmente populares, a denúncia da miséria e dos males sociais, dos
graves problemas de saúde pública, o alerta para os cuidados íntimos femininos
(notadamente com a gravidez), a realidade da convivência cotidiana com doenças
sérias, os preconceitos contra uma minoria (sem ideologizá-la nem idealizá-la),
os traumas da adolescência (assunto que se renova a cada ano), enfim, a lista é
interminável. Tudo com as limitações e a linguagem cabíveis no horário. Ao
mesmo tempo, poucas obras foram tão ousadas na linguagem, no humor, na inversão
dos clichês, na manipulação do folhetim, na metalinguagem, nas soluções
digitais. E não apenas como gratuitos fogos de artifício, mas com o objetivo de
alargar os horizontes da linguagem da teledramaturgia, com a marca da visão
pop-sofisticada deste autor, graças à liberdade de criação que o SBT nos dá.”
P:
Houve algum personagem ou trama que caiu no gosto do público que você não
imaginava que fosse render tanto?
AC: “Uma aposta que
funcionou muito bem foi a escalação da Giovanna Antonelli para um papel cômico.
Ela agradou como a Alma.”
P:
Como equilibrar a importância dos personagens e administrar egos numa novela
com tantos nomes estelares?
AC: “O fato de termos
seis protagonistas (três homens e três mulheres) já ajuda bastante a equilibrar
as histórias. Além disso, outros personagens importantes influíam na trama de
todos os protagonistas, ou seja, estavam presentes em diversas cenas. Acho
também que a direção do Dennis Carvalho, que é um grande agregador de talentos,
contribuiu muito para um excelente clima no set.”
P:
A novela emplacou bem entre o público infantil. Já era sua intenção ou isso te
surpreendeu? Você é um autor que escreve pensando no seu público-alvo
específico? Aliás, você consegue vislumbrar que público é esse das 19h?
AC: “Já imaginava que a
novela teria apelo com o público infantil. Sempre encontro Brasil afora
gerações e gerações que amaram e ainda amam ‘Top Model’, ‘Vamp’, ‘Um Anjo Caiu
do Céu’, ‘O Beijo do Vampiro’, minhas novelas prediletas, entre as quais agora
incluo esta. Estou certo de que muitas crianças, jovens e pessoas de
mentalidade jovem também jamais esquecerão ‘Três Irmãs’. Nossos personagens,
nossas cenas de humor, amor, aventura e drama os marcarão e influenciarão para
sempre. Juntamente com os valores éticos, morais e políticos que minha geração
herdou e que me cabe passar adiante.”
P:
A novela não teve a audiência de novelas suas anteriores nem de “Beleza Pura”,
que não raro chegava aos 30 pontos. De fato, “Três Irmãs” é a pior audiência do
horário das 19h em toda sua existência. Você se decepcionou com os índices?
AC: “Sempre queremos o
melhor para a nossa novela. Acho que a cobrança pessoal é muito maior do que a
cobrança externa. De qualquer forma, fiquei satisfeito com o resultado da
novela como um todo, acho que foi alegre e recebi diversos elogios.”
P:
A entrada de atores como Erik Marmo e Emanuelle Araújo foi uma tentativa de
alavancar o ibope?
AC: “Emanuelle entrou
para formar um triângulo com Alma e Gregg, pois queríamos apimentar a trama do
casal. Já o personagem do Erik Marmo entrou para ajudar a solucionar os crimes
de Caramirim.”
P:
Muito se fala em crise de audiência das novelas, que estariam perdendo espaço
para outras mídias. Estamos a caminho de uma nova era para os folhetins?
AC: “A novela tem e
sempre terá o seu espaço na vida dos telespectadores brasileiros.”
P:
Já tem uma nova sinopse na mão? Ou argumento? Tem vontade de fazer algo
radicalmente diferente do que já fez? E o cinema, é algo hoje definitivamente
fora dos seus projetos?
AC: “Ainda não pensei no
meu próximo projeto, mas posso adiantar que tenho vontade de fazer mais uma
novela com vampiros, completaria uma trilogia iniciada com ‘Vamp’. Nesse
momento, também não tenho projetos em cinema.”