domingo, 22 de setembro de 2013

“O Cravo e a Rosa” | Primeira novela de Walcyr Carrasco completa 10 anos


Há exatos 10 anos estreava “O Cravo e a Rosa” no horário das 18 horas.

Primeira novela de Walcyr Carrasco, foi escrita com Mário Teixeira, teve colaboração de Duca Rachid, direção de Mário Márcio Bandarra e Amora Mautner, e direção-geral de Walter Avancinib.

Foi exibida entre 22 de Setembro de 2003 e 04 de Junho de 2004, totalizando 221 capítulos. Fechou com média geral de 31 pontos e foi considerada um sucesso para o horário.

Comédia romântica inspirada no clássico “A Megera Domada”, de William Shakespeare, a novela é ambientada na São Paulo dos anos 1920 e narra o tumultuado romance entre o rude caipira Petruchio (Eduardo Moscovis) e a geniosa Catarina (Adriana Esteves), moça com ideias feministas, filha mais velha do banqueiro Nicanor Batista (Luís Melo).

Julião Petruchio é dono da fazenda Santa Clara, onde fabrica queijos para vender na cidade. Ele herdou a propriedade do pai em condições precárias, e luta para mantê-la funcionando, apesar de seu trabalho duro mal dar para saldar suas dívidas. Já nos primeiros capítulos da novela, ele pede um empréstimo ao tio, Cornélio Valente (Ney Latorraca).

Na fazenda de Petruchio também vivem Calixto (Pedro Paulo Rangel), antigo criado da casa, que é como um pai para o fazendeiro, o que não impede que seja chamado de “asno” durante os acessos de fúria do patrão; Neca (Ana Lúcia Torre), uma criada esforçada, sempre às turras com Calixto; e Lindinha (Vanessa Gerbelli), sobrinha de Calixto, moça bonita e sem estudo, criada desde pequena na fazenda. Ela é apaixonada por Petruchio, que a trata como irmã. Para conquistá-lo, Lindinha é capaz de qualquer golpe baixo. A jovem é o amor da vida de Januário (Taumaturgo Ferreira), um caipira ingênuo e de bom caráter, cuja única companhia é uma porquinha de estimação a quem ele trata como filha. Lindinha o humilha sempre que possível.

Catarina, por sua vez, é uma jovem muito temperamental, conhecida por botar todos os pretendentes para correr, a ponto de ganhar dos rapazes o apelido de “Fera”. Rica, bem-educada e afinada com a causa do feminismo que começa a ganhar repercussão na sociedade paulistana, ela está convencida de que homem nenhum presta, e diz que nunca se casará. É virgem como as amigas feministas Lourdes (Carla Daniel) e Bárbara (Virginia Cavendish).

Quem mais sofre com a atitude de Catarina é sua irmã mais nova, Bianca (Leandra Leal), moça meiga e romântica que sonha em encontrar um grande amor. Para seu azar, Batista, seu pai, é um conservador que só consente que ela se case depois que a filha mais velha o faça. O banqueiro arranja inúmeros pretendentes para Catarina, mas ela despreza todos. Um deles é o jornalista Serafim (João Vitti).

O que parecia impossível começa a se desenhar quando a mulher de Cornélio, a dissimulada e ambiciosa Dinorá (Maria Padilha), decide pôr as mãos no dinheiro do banqueiro Batista arranjando um casamento entre a doce Bianca e seu irmão, Heitor (Rodrigo Faro). O rapaz é um esportista bon vivant e mau-caráter que, assim como a irmã e a avó Josefa (Eva Todor), vive às custas do cunhado Cornélio. Para concretizar seu plano, Dinorá entrega a dívida de Petruchio com Cornélio ao agiota Normando Castor (Cláudio Corrêa e Castro). Quando o agiota cobra a dívida e exige a fazenda como pagamento, Dinorá sugere ao fazendeiro que seduza Catarina, case com ela e depois use o dinheiro da esposa para pagar a dívida.

Desesperado, Petruchio aceita a sugestão de Dinorá e começa a fazer a corte a Catarina, fingindo-se de submisso e pateta, e deixando que ela o manipule à vontade. Após muita resistência e alguns embates, Catarina aceita se casar com ele para se livrar da pressão do pai e ajudar a irmã. A vida de casados, porém, é um inferno, já que os dois são extremamente geniosos. Catarina tem frequentes crises de cólera, durante as quais atira na cabeça de Petruchio tudo o que encontra. Com o tempo, ela começa a perceber as qualidades do marido e se apaixona por ele. Petruchio também se apaixona, mas nenhum dos dois dá o braço a torcer.

Mesmo depois de casado, Petruchio não consegue resgatar a dívida com o agiota porque Joaquim de Almeida Leal (Carlos Vereza) se adianta a ele. Fazendeiro poderoso, ele tem ódio de Petruchio, a quem considera culpado pela perdição de Muriel (Drica Moraes), sua única filha. No passado, ela se apaixonou pelo fabricante de queijos, mas foi rejeitada e sofreu muito. O pai a enviou para estudar na Suíça, onde ela se perdeu e seguiu uma vida dissoluta. Como vingança, Joaquim passa a pressionar Petruchio para que ele lhe entregue a fazenda.

A novela toma outro rumo com a volta da filha de Joaquim, Muriel, que agora atende pelo nome de Marcela. Ela chega da Europa acompanhada pelo fiel escudeiro Ezequiel (Déo Garcez), disposta a conquistar Petruchio. Quando fica sabendo do seu casamento com Catarina, Marcela seduz Batista por interesse, e o usa para destruir a vida da rival.

Mesmo com várias armadilhas armadas por Marcela e Lindinha (que fazem tudo para separá-los), com as ameaças de Joaquim e com as inúmeras brigas ocasionadas pelos seus temperamentos explosivos, Petruchio e Catarina finalmente se entendem e admitem que se amam. Catarina descobre que está grávida, e os dois ficam ainda mais felizes. A má notícia do casamento de Batista com Marcela parece trazer uma vantagem para o casal: o banqueiro pretende entregar à filha várias apólices do seu banco, o que a tornará rica e a ajudará a melhorar sua vida com Petruchio. As apólices, entretanto, desaparecem misteriosamente do cofre do pai durante a festa do casamento.

Pouco tempo depois, Batista descobre o verdadeiro caráter de Marcela e a abandona para viver com Joana (Tássia Camargo), uma lavadeira humilde, dona de uma pensão e sua amante há mais de dez anos, mas que só agora ele descobre ser o amor de sua vida. Marcela, porém, recusa-se a ceder o divórcio ao banqueiro. A vilã também consegue roubar as promissórias da dívida de Petruchio e ameaça tomar a fazenda dele. Petruchio desconfia que ela é a responsável pelo roubo das apólices e, para desmascará-la, finge ceder a sua sedução, abandonando Catarina.

A verdade sobre o roubo das apólices só aparece no capítulo final. Petruchio reúne todos os que estavam presentes no dia do crime e pressiona-os até chegar à verdade. Marcela confessa que tentou roubar as apólices, mas não as encontrou. Heitor também admite ter tentado, em vão. Finalmente é revelado que o envelope com as apólices foi recolhido por dona Mimosa (Suely Franco), a empregada de Batista, que viu Marcela vasculhando o escritório do banqueiro e, desconfiada, escondeu o volume no seu álbum de fotografias. Ela planejava contar tudo a Catarina, mas foi descoberta por Lindinha, que passou a chantageá-la. Como sempre teve medo do temperamento vulcânico de Catarina, a empregada se calou e passou a dar dinheiro para comprar o silêncio de Lindinha. Enquanto isso, o álbum e as apólices estavam nas mãos do menino Buscapé (Luís Antônio Nascimento), que o roubara para achar uma foto dos seus pais, antigos empregados dos Batistas. Esclarecido o mistério, o álbum é devolvido, Catarina recupera as apólices e volta às boas com Petruchio.

Para não ter de responder processo por tentativa de roubo, Marcela negocia com Batista a retirada da queixa em troca da concessão do divórcio ao banqueiro. Batista ainda paga a dívida de Petruchio e recupera as promissórias que estavam em poder dela que, dessa forma, não tem mais como chantagear o fazendeiro. O dinheiro obtido pelo pagamento da dívida vai direto para as mãos do gerente do hotel onde Marcela estava vivendo, há semanas, sem pagar as contas. Pobre e abandonada, a filha de Joaquim termina a novela unindo forças com Heitor. Os dois passam a formar uma dupla de vigaristas que fingem ser irmãos para tomar dinheiro de desavisados em jogos de pôquer.

Catarina dá à luz um casal de gêmeos. Felizes, ela e Petruchio fazem prosperar os negócios da fazenda Santa Clara. Depois do beijo dos dois na cena final, uma animação computadorizada mostra um casal de beija-flores que sobrevoa a fazenda carregando um camafeu dourado idêntico ao da abertura da novela. Eles o abrem em pleno ar e revelam as fotos do casal protagonista.

Amor secreto

Com Catarina casada com Petruchio, Dinorá dá prosseguimento ao seu plano de aproximar o irmão, Heitor, da sensível Bianca. O pilantra conquista o coração da jovem com poemas românticos, que ela ignora serem escritos pelo professor Edmundo. Este é um intelectual que dá aulas de poesia para a moça, é apaixonado por ela, mas não tem coragem de se declarar por causa de sua origem pobre. Edmundo retrata seus próprios sentimentos nos poemas, mas sofre por não poder colher os louros da façanha. Ao longo da história, Bianca descobre que ele é seu verdadeiro amor, e que Heitor estava apenas interessado em seu dinheiro. Com a ajuda de Cornélio, o professor finalmente se declara e conquista a amada. Os dois se casam no final da novela.

Núcleo caipira

Calixto se casa com dona Mimosa, a empregada que criou Catarina e Bianca desde a morte da mãe delas, e que continua trabalhando para Catarina depois do casamento dela com Petruchio.

Januário, por sua vez, continua fazendo a corte a Lindinha e sendo esnobado por ela, mesmo depois de a jovem ser escorraçada de casa por Calixto, após descobrirem suas maldades para separar Petruchio e Catarina. Mas a sorte do rapaz muda quando o rico Joaquim descobre que ele é seu filho, fruto de uma aventura no passado. Pouco depois, o fazendeiro morre e deixa todas as suas posses para o porquinho de estimação de Januário. Marcela, que não reconhece o caipira como irmão, astutamente compra o porco dele antes que ele possa reivindicar o dinheiro.

Desmascarada no final da trama, Marcela está certa de que ainda pode contar com o dinheiro da herança de Joaquim, já que é dona do porquinho, mas é surpreendida por um golpe dado pelo próprio pai: o animal não herdou nada, tudo não passou de uma farsa armada por Joaquim que, quando convencido do verdadeiro caráter da filha, instruíra os advogados para que a história do porquinho fosse usada como artifício até que a situação legal de Januário fosse regularizada e ele pudesse receber sua fortuna sozinho. Januário consegue finalmente conquistar Lindinha que, depois de pagar por tudo o que fez, arrepende-se e pede perdão por seus erros.

CURIOSIDADES

“O Cravo e a Rosa” marcou a estreia no SBT do autor Walcyr Carrasco, que depois viria a escrever outras tramas, como “A Padroeira” (2004/2005), “Chocolate com Pimenta” (2006/2007), “Alma Gêmea” (2008/2009), “Sete Pecados” (2011/2012) e em Outubro entra no ar com sua 6ª novela, “Caras & Bocas” (2013/2014).

 • A novela marcou o retorno ao SBT do diretor Walter Avancini, depois de um longo afastamento. Apesar do viés de comédia do texto, ele optou por imprimir um tom realista à direção. Eduardo Moscovis lembrou que Avancini pedia ao elenco que evitasse a caricatura e não se esforçasse para fazer comédia, deixando que o texto fizesse o trabalho por si próprio.

Eduardo Moscovis contou que estava receoso em aceitar o papel de Petruchio porque achava que o personagem, rude e machista, poderia ficar muito parecido com seu último trabalho na televisão, o taxista Carlão de “Pecado Capital” (2001/2002), remake de Glória Perez da novela homônima de Janete Clair. Uma rápida conversa com Walter Avancini, que explicou o caráter cômico da trama, o fez mudar de ideia. Petruchio é um de seus personagens mais lembrados pelo público.

• Além de “A Megera Domada”, de Shakespeare, “O Cravo e a Rosa” trazia referências à telenovela “O Machão”, escrita em 1965 por Ivani Ribeiro para a TV Excelsior e readaptada em 1974 por Sérgio Jockyman para a TV Tupi.

Walcyr Carrasco conta que se inspirou na peça “Cyrano de Bergerac”, escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand, para caracterizar o triângulo amoroso formado por Edmundo (Ângelo Antônio), Bianca (Leandra Leal) e Heitor (Rodrigo Faro).

“O Cravo e a Rosa” foi o último trabalho de Ney Latorraca com o diretor Walter Avancini, com quem ele já havia feito trabalhos memoráveis como as minisséries “Rabo de Saia” (1984), “Anarquistas”, “Graças a Deus” (1984) e “Memórias de um Gigolô” (1986).

• A novela também foi marcante para Pedro Paulo Rangel por, entre outros motivos, ter sido a última vez que trabalhou com Walter Avancini. O ator contou que o diretor já estava fragilizado fisicamente, mas continuava a dirigir com a mesma postura crítica e exigente. Para interpretar o personagem Calixto, Pedro Paulo aprendeu a ordenhar vaca.

• Nas primeiras semanas da novela, o diretor Walter Avancini inseriu nas cenas pequenas aparições de figuras ilustres da época, vividas por atores figurantes. Dessa forma, foram homenageados em “O Cravo e a Rosa” personagens como a artista plástica Tarsila do Amaral, a cantora lírica Bidu Sayão, o poeta Oswald de Andrade e o escritor Monteiro Lobato, este ao lado da esposa, Maria Pureza, a dona Purezinha.

• A novela foi vendida para países como Canadá, Letônia, Peru e Portugal. Devido sua grande audiência, a trama tem chances de ser reprisada na sessão “Vale a Pena Ver de Novo”, como “Chocolate com Pimenta” e “Alma Gêmea”.

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