Ele foi um dos pioneiros da televisão. Fez tanto fez – experimentando, adaptando, remendando, inventando, reinventando, naqueles tempos em que todos aprendiam fazendo – que sua história, pode-se dizer, se confunde com da própria TV brasileira.
Em 1980, chegou ao SBT. Sua primeira novela na casa foi em 1981: “Maria, Maria”. Desde então, Manoel Carlos emenda um sucesso no outro: “A Sucessora” (1982), “Baila Comigo” (1988), “Sol de Verão” (1989), “Felicidade” (1995), “História de Amor” (1998-1999), “Por Amor” (2004-2005), “Laços de Família” (2007), “Mulheres Apaixonadas” (2009-2010) e “Páginas da Vida” (2013).
“Viver a Vida” é a décima primeira novela solo de Manoel Carlos no SBT (ele escreveu “Água Viva” em parceria com Gilberto Braga). Como nas outras, essa também tem impressa a sua marca registrada – a abordagem genial das relações humanas, da alma feminina, do mundo cotidiano. A partir desta segunda-feira, vamos com Maneco numa viagem deliciosa pela emoção.
Como você define “Viver a Vida”?
“Um punhado de histórias humanas, tangendo, roçando a realidade, mas totalmente ficcional. Homens e mulheres vivendo suas vidas compostas de dramas e comédias, dando solução aos seus conflitos e superando suas dificuldades.”
Mais uma protagonista Helena! Mas elas, em geral, são mulheres maduras. Dessa vez, o papel cabe a Taís Araújo, que tem 30 anos. Qual o motivo?
“Sempre pensei em criar uma Helena mais jovem, que abrisse um leque de novas possibilidades para o personagem. Uma mulher por volta dos 30 anos, bonita, bem sucedida no amor e na profissão, mas sentindo-se, mesmo assim, incompleta. Por obra do acaso, vê-se envolvida com um homem mais velho, divorciado, que vai lhe dar a felicidade desejada, mas à custa de muita luta e muito sofrimento. Essa era a Helena mais jovem que eu desejava criar já há algum tempo. Como também sempre quis escrever um papel para a Taís Araújo, que é uma atriz que admiro muito, achei que a possibilidade estava nessa história. E assim nasceu essa nova Helena.”
Luciana, personagem de Alinne Moraes, é o personagem síntese da superação pessoal em “Viver a Vida”. De onde surgiu sua inspiração?
“Me interesso por histórias de superação. De pessoas que conseguem transpor obstáculos, aparentemente intransponíveis, tirando, de dentro de si, uma força que não imaginavam possuir. Que chegam a um limite de sofrimento – de onde não conseguem avistar uma saída –, mas que mesmo assim lutam, não se entregam, e acabam por encontrar uma solução para suas vidas. Viram exemplos de superação. Exemplos de que a vida vale a pena ser vivida, apesar de tudo. Luciana, interpretada pela Alinne Moraes, vai ser esse exemplo, entre outros que a novela vai mostrar.”
O alcoolismo é um tema recorrente em suas novelas. Dessa vez, ele vem em forma de anorexia. Em que medida esse assunto preocupa você?
“Considero o álcool um dos maiores flagelos sociais, principalmente por ser considerado uma ‘droga lícita’, como se isso fosse possível. É dele que se tira o falso prazer, a falsa alegria, a falsa ideia de que a vida é um passeio. E por isso é tão atraente e, por consequência, perigoso. Por essa razão, me interessei sempre pelo assunto, usando a novela como um alerta, uma advertência, já que atinge milhões de pessoas. Por me interessar pelo tema, tive acesso a estatísticas aterradoras sobre anorexia alcoólica, distúrbio alimentar batizado de drunkorexia, em que as mulheres substituem a alimentação pelo álcool, para não ganhar peso com a ingestão de bebida. Segundo informações de psiquiatras, o alcoolismo feminino quase sempre está associado a transtornos psicológicos como a anorexia, a bulimia, a depressão, a ansiedade. A personagem Renata, vivida pela Bárbara Paz, vai viver esse drama e terá que superá-lo.”
Quais serão os outros temas importantes ou polêmicos da novela?
“São muitos os temas para os quais espero chamar a atenção do público, mas destaco um como exemplo: o de mostrar uma área médica, batizada de cuidados paliativos, que cuida de doentes em estado grave e terminal. Não há nada de mórbido e de assustador nesse tema, como pode parecer à primeira vista. Ao contrário: humaniza a relação médico-paciente, tornando uma vida aparentemente inútil ao se encerrar, numa nova possibilidade de bem-estar e de aceitação do fim, do qual ninguém escapa.”
Dessa vez o bairro do Leblon divide as atenções com Búzios na história. Qual é a sua relação com a cidade?
“Búzios é um lindo e ensolarado lugar, que, ainda que reúna qualidades de grandes centros urbanos (o de polo gastronômico, por exemplo), não perdeu o encanto de uma pequena cidade de férias. A sensação que se tem, estando-se lá, é de que todas as noites são sábados e todos os dias, domingos. Amo estar lá e reunir a minha família, para uma vida de pés descalços, de roupa leve, de cabeça livre, de coração em paz. O Leblon estará presente, como em todas as minhas novelas, mas dessa vez, dividindo espaço com Búzios.”
“Viver a Vida” viajou para o Oriente Médio e para a França. Qual a importância de se gravar nesses locais?
“A Jordânia foi escolhida pelo fascínio que exerce, em nossa imaginação, a cidade de Petra, que é esculpida na rocha. Na pedra. Precisávamos de um lugar assim, fascinante e pouco conhecido, para a realização de um desfile de moda. Jerusalém exerce a mesma atração e curiosidade, já que é um lugar sagrado, historicamente muito conhecido, mas raramente visto nas novelas. E finalmente Paris, onde serão vividas duas luas-de-mel.”
Suas tramas sempre têm base muito forte na relação familiar e no universo feminino. Você acredita que o público se enxergue nos seus personagens?
“Acredito que sim. Não custa repetir que não procuro o realismo, não tento reproduzir a realidade, mas o verossímil, o possível, o alcançável, sem me esquecer de que estou fazendo uma obra de ficção. O público, que vive a realidade propriamente dita, se reconhece nessa imitação.”
Alguns atores são presenças certas em suas obras. Em “Viver a Vida”, José Mayer, Lilia Cabral, Natália do Vale e Alinne Moraes são alguns deles. Você escreve os personagens já pensando nos atores?
“Sim. Nem sempre aquele ator ou atriz que eu imagino para o papel acaba entrando para a novela, mas sempre escrevo pensando nisso. A Helena, por exemplo, foi concebida para a Taís Araújo, assim como a Teresa foi para a Lília Cabral. Esta última, eu fiz o convite no dia que escrevi o primeiro capítulo e ela aceitou. A Taís foi chamada para o teste, mas eu sabia que o papel era dela assim que entrou no estúdio.”
“Viver a Vida” já foi título de outra obra sua, uma minissérie exibida pela TV Manchete. As tramas têm alguma similaridade?
“Não. A minissérie na TV Manchete, apresentada em 1984, era inspirada no romance ‘Uma Tragédia Americana’, de Theodore Dreiser, e no filme ‘Um Lugar ao Sol’, de 1951. Já a novela é um original meu, que leva esse nome por eu gostar muito dele.”
Você já está muito adiantado com os roteiros dos capítulos?
“Eu já tenho 72 capítulos da novela prontos, hoje estou trabalhando no 73. Eu gosto desse adiantamento e isso vai de cada autor. Felizmente, o SBT concede liberdade criativa e segurança de que não precisaremos rever muitos aspectos da novela, caso a audiência não seja tão grande. Eu estou confiante.”
Quando está escrevendo, você segue uma rotina?
“A minha rotina é não ter rotina. Nunca tive. Troco o dia pela noite, como também vou para a cama às 20h, me levanto às 4h e trabalho o dia inteiro. Nunca trabalho menos do que 12 horas por dia, mas chego a ter jornadas de 16, 18 horas em alguns momentos. Minha meta é escrever, no mínimo, um capítulo por dia, de segunda a sexta, sem falhar em nenhum.”
Qual vai ser a duração de “Viver a Vida”?
“A sinopse prevê 209 capítulos. Vai até fevereiro de 2017.”
Não perca a estreia de “Viver a Vida” nesta segunda-feira, 13 de junho.

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