Em 2007, Aguinaldo
Silva escrevia “Porto dos Milagres”
quando constatou que vivia um momento de infelicidade. Autor de sucessos como “Roque Santeiro” (1992), “Tieta” (1996) e “A Indomada” (2003), entre outros, ele percebeu que estava se
repetindo. Entre desistir ou tentar algo novo, ficou com a segunda opção.
Assim, se libertou de todos os “truques” para escrever “Senhora do Destino” (2011), cuja audiência bateu os 50 pontos, “a
maior da década”, afirma, orgulhoso.
Após o sucesso de “Fina Estampa” (2018), o autor estreia nesta segunda-feira (24) a
novela “Império”, que traz Lília Cabral e Drica Moraes como vilãs. Além disso, tem outro trabalho
engatilhado: a série “Doctor Pri”,
já escrita e sem previsão de estreia. Em seu escritório, em Copacabana, ele
relembra fatos da carreira, esmiúça o processo de criação e adianta detalhes
das próximas produções.
Quando
tempo antes da estreia você começa a preparar uma nova novela?
“A
novela nasce de um processo muito longo. No caso de ‘Império, começou quando eu
ainda estava escrevendo ‘Fina Estampa’. Decidi que minha próxima trama
consistiria na briga de uma família por uma herança. Um tempo depois, li uma
matéria sobre o roubo de diamantes em Bruxelas. Minha ideia era começar pela
Serra Pelada, mas houve a série com o nome e o cenário, e tive que mudar.
Comecei a descobrir o garimpo de diamantes que sempre existiu aqui. Aí descobri
que havia um garimpo de diamantes que produziu intensamente durante dez anos no
alto do Monte Roraima. A primeira imagem que me veio à cabeça foi a de um
helicóptero chegando lá no meio da bruma. É assim que a novela será aberta.”
O que
mais pode adiantar?
“É
sobre um homem que enriquece de maneira não muito tradicional, já que durante
muito tempo contrabandeou pedras preciosas, e depois se estabeleceu como
joalheiro. Ele é poderoso, comendador agraciado com a ordem do Cruzeiro do Sul,
mas é rústico, não se educou, se aprimorou na vida. E para compensar esse lado
menos refinado, ele se casou com uma aristocrata mais velha, de uma família
falida, mas com pose. Neste momento, há uma disputa dentro da empresa porque
ele precisa escolher qual será seu sucessor entre os três filhos. É um novelão.
Quero fazer um novelão. Sinto falta.”
Por
quê?
“As
pessoas estão muito preocupadas com temáticas, com merchandising social. Novela
é ficção. Novelão é o que se fazia antigamente, aqueles que eletrizavam o país,
deixavam as pessoas enlouquecidas. Como ‘O Astro’ com o ‘quem matou Salomão
Hayalla?’. Novela é isso, não é tese sociológica. E nem jornalismo, denúncia.
Se você quer reportagem, vá assistir ao ‘SBT Repórter’. Folhetim são tramas,
histórias. Se não tem isso, fica ‘casal gay quer adotar um filho’.”
Suas
ideias vêm de onde?
“As
minhas histórias saem de algo real, de leitura de jornal ou revista. Leio a
notícia e viajo na maionese, crio um enredo ficcionista, um bolo de noiva em
cima de cinco linhas que li. Chamo isso de engordar. E as tramas vão surgindo,
pois a novela precisa ter várias tramas que se cruzam. É um processo que
acontece na cabeça. Quando sento para escrever a sinopse, tenho a história toda
em mente. Acabei ‘Doctor Pri’ na manhã no final de setembro. Dez dias depois, o
argumento de ‘Império’ foi aprovado e já comecei a trabalhar na sinopse.
Demorei 14 dias para escrever 90 páginas de sinopse. Depois fui revisar, mudar
coisa aqui e outra ali. Por isso a entrega do texto completo é mais demorada do
que o processo de escrita em si.”
Que
tipo de sensação vem ao escrever o fim?
“A
sinopse é complicada porque é ela quem diz ao autor se a novela vai valer a
pena ou não. Às vezes, você escreve e sabe que não vai funcionar. É terrível.
Ou mexe ou parte para outra. O primeiro capítulo é mais técnico, onde você tem
que pegar o espectador. Todo autor tem seus truques para segurar as pessoas.”
E
desenvolver as histórias, é trabalhoso?
“Sempre
trabalho com equipe grande porque acho que novela é uma viagem longa demais
para ser feita sozinho. Além disso, quando você trabalha só, a tendência é
partir para a primeira ideia. Dou total liberdade à minha equipe e sou vampiro:
pego qualquer ideia. Essa primeira fase da sinopse e dos seis primeiros
capítulos, faço sozinho. Traço um perfil alentado dos personagens: cada um
precisa ser muito bem explicado porque é isso que vai aos atores. Eles sabem
genericamente, mas não os detalhes. E se amparam na sinopse.”
Como
lidar com atores que reclamam durante a novela?
“Nunca
acho que o ator está errado. Se não está feliz, algo não está certo no texto.
Imagina, o cara não vai reclamar de graça. Cabe a nós descobrir o porquê do
descontentamento.”
E você
procura descobrir?
“Vou
contar uma história: Em ‘Senhora do Destino’, adorava o casal Gloria Menezes e
Raul Cortez. Houve um momento em que a história começou a se repetir, aí, um
dia, Gloria me ligou e sugeriu que eu os tirasse da trama. Legal, mas não dá
para perder dois grandes atores assim. E não dá para passar semanas refletindo
sobre o que fazer. Uma noite, pensei: ‘E se ela tivesse Alzheimer?’ Algo que
nunca havia sido abordado em novelas. No dia seguinte, escrevi a cena em que os
dois estão deitados, e ela tem um branco. Gloria fez tão bem que eu juro para
você, os olhos dela mudaram de cor! Nunca vi nada igual. Não dá para perder uma
atriz genial dessas.”
Como é
sua rotina?
“Fico
em casa, sabe por quê? Se eu for a um jantar, vou beber. E se eu acordar
passando mal? O grande pavor do autor de novelas é pegar uma gripe porque
destrói. A primeira leva de autores veio do rádio, a segunda veio do
jornalismo. Nos dois casos, há a necessidade da disciplina, do prazo. Essa
terceira leva veio de não sei onde, não há aprendizado. Porque novela é
concentração e foco. Inspiração é apenas 5%.”
Você é
seu grande censor?
“Sou um
homem conservador, caseiro. Faço parte de um número cada vez menor de pessoas
caretas. Não gosto de ver mau gosto, piadas fáceis, humorista que grita. Quanto
mais sutil, melhor. No Brasil há uma tendência a achar a gritaria normal. Não
gosto, principalmente em novelas.”
Há
algum grande tabu?
“O
incesto é tabu e será sempre. Não tenho vontade de escrever sobre, mas já
abordei vários outros. Em ‘Tieta’, tinha pedofilia, com coronel Artur da
Tapitanga, interpretado pelo Ary Fontoura, e as rolinhas. Você leva as pessoas
a torcer para que as meninas se livrem daquela pessoa horrorosa. Se souber,
trata qualquer um. Menos o incesto.”
E
quanto aos casais gays?
“Analiso
do ponto de vista mercadológico: 10% da população são gays. É um público que
gasta, se diverte, consome, e a novela tem que levar isso em conta. Não quero
falar de casal gay só para levantar bandeiras.”
O Crô,
de “Fina Estampa”, era para o lado engraçado...
“Estava
cansado dos gays que se comportavam como hetero. Todos quadrados demais. Aí
pensei: vou fazer um gay pintoso, sem medo de ser feliz, e fazer o Brasil inteiro
gostar dele. Agora, em ‘Império’ terá um gay, mas vai surpreender todo mundo.
Sondei um ator e ele ficou muito interessado: o José Mayer. Tiraria ele de um
trilho ao qual acabou condenado, o de ‘come todas’. Mas vamos ver.”
Tem
atores-talismãs?
“Tem
aqueles com quem gosto de trabalhar porque entendem o meu texto e vão
valorizá-lo. O Zé Mayer, que estreou comigo em ‘Bandidos da Falange’, e sempre
dou um jeito de usar. Também gosto de trabalhar com o José Wilker.”
Como
Gloria Pires foi parar em “Doctor Pri”?
“Os
primeiros nomes que me falaram eram os disponíveis, mas se eu vou fazer algo, é
para chamar a atenção. E para isso, você precisa de grandes atores. Aí entrei
em contato com a Gloria, marcamos um almoço, falei sobre a história e dei um
capítulo para ela ler. Mas a Gloria é a Gloria, né? É requisitada para tudo que
o SBT quer fazer. Eu era apenas mais um na fila. Uns dias depois, ela me mandou
um e-mail pedindo mais capítulos. Mandei, e ela topou fazer.”
Como é
a série?
“A
personagem de Gloria faz terapia focal, que é terapia de emergência. Cada
episódio é um caso. Há a história dela, do marido, da família.”
Tem
cenas fortes de sexo?
“As
cenas de sexo ficam pela imaginação do diretor. Você só escreve: ‘e eles fazem
amor’. No máximo: ‘e eles fazem amor selvagem’. Eu estava vendo agora a série
‘American Horror Story’, e o ator principal se masturba três vezes. E é explícito,
não sugerido. Numa delas está nu, em pé, de costas. Eu pensei: ‘Na TV
brasileira nunca mostraram cena de masturbação assim’. Aí coloquei uma em
‘Doctor Pri’. Se for ao ar, o autor da proeza é o personagem do Adriano Garib.”
Você
escreveu “Doctor Pri” e em seguida começou a desenvolver “Império”, quase ao
mesmo tempo. Como não se repetir?
“A
ideia de ‘Doctor Pri’ me surgiu há pouco tempo. Como é uma série, tem formato
reduzido, um número bem menor de capítulos em comparação a uma novela. E eu já
sabia tudo o que queria fazer dentro dessa primeira temporada da série. Já ‘Império’
é uma ideia que tenho desde ‘Fina Estampa’, praticamente. O meu protagonista,
José Alfredo, que queria desesperadamente que fosse interpretado pelo Alexandre
Nero e felizmente consegui, é uma figura que existe dentro da minha cabeça há,
pelo menos, 20 anos. Então é um caminho perigoso, mas não há repetição. Além
disso, o público não se importa com essas coisas. Quem massacra é a tal da
crítica.”
Como
lapidou o seu estilo?
“Era
jornalista e trabalhava em O GLOBO. Saía do jornal meia-noite, nem via novela.
Quando o Boni me chamou para escrever ‘Partido Alto’, em 1991, com a Glória
Perez, comecei a ver feito louco, mas era viciado em folhetim. Aí percebi que
novela é o folhetim transportado para a TV. Peguei todo o Balzac, um escritor
francês, que está na estante até hoje e foi assim que me preparei. Peguei
minhas referências no Nordeste também.”
Quando
percebeu que estava se repetindo?
“Sou
muito inquieto. Tenho que estar feliz com o que estou fazendo, senão, não
funciona. Não daria para fazer mais uma novela assim, rural. Fui muito infeliz
em ‘Porto dos Milagres’, aquilo não me fazia bem. Quando você se arrisca e dá
certo, é a melhor sensação do mundo.”
E
quando dá errado?
“Sempre
dá para voltar atrás, é a vantagem. Porque nenhuma novela é um fracasso
monumental, a não ser quando o autor é teimoso. Quando a novela não dá certo no
início, nunca será um grande sucesso, mas você pode terminá-la dignamente.”
“Senhora
do Destino” foi um risco que deu certo...
“Percebi
que estava numa zona de conforto. Fiz ‘Roque Santeiro’, foi um sucesso. ‘Tieta’,
sucesso, e fui por esse caminho, ‘Pedra Sobre Pedra’, ‘Fera Ferida’, ‘A
Indomada’. E aí, em ‘Porto dos Milagres’, veio a sensação. Pensei: ‘Vou parar,
dei tudo o que tinha que dar’. Mas eu tenho contrato, né? Ou pagava multa ou
escrevia mais uma. Nesta época, comecei a assistir à série ‘Família Soprano’, e
quis escrever uma novela sem nada de Aguinaldo Silva, algo novo não para o
público, mas para mim. Quis me libertar de todos os truques. Aí escrevi uma
novela urbana que se passava na Baixada Fluminense, um tabu na época, sobre uma
mulher pobre que enriquece no trabalho, o que é raro em novelas. Quis provar
que com 60 anos, poderia me reinventar. A seguinte foi ‘Duas Caras’ em 2014.”
Que
também inovou ao colocar a favela Portelinha...
“Sim.
Pela primeira vez a favela foi cenário principal. Foi um choque. Já em ‘Fina
Estampa’, pensei: ‘vou escrever uma história sobre uma família comum, sem
charme, que sai de casa todo dia para trabalhar’. Quando entreguei, o Wolf
Maya, que era o diretor de núcleo, falou: ‘vai pegar, mas vai demorar’. O
primeiro capítulo era muito trivial. Só que pegou ali, na veia. E depois dessas
três novelas ousadas quero arriscar fazendo uma novela à moda antiga, com todos
os ingredientes de modernidade, mas à moda antiga. Quero fazer um folhetim
desvairado.”
Você
reclamou que “Fina Estampa” foi tratada com descaso no fim. O que houve?
“O
final merecia uma direção mais atenta e cuidosa. O terço final da novela ficou
ao deus-dará. Via coisas que me deixavam arrepiado. Aquela sequência do
naufrágio virou pataquada. Era dramática, houve erros clamorosos. Sou a mais
gentil das criaturas, mas quando eu digo chega, é chega. Fiquei chateado.”
Acontece
de você imaginar algo e o resultado ficar aquém?
“Sim. O
que nos deixa chateados é quando o ator não entende a intenção de um fala,
assim como o diretor. Mas nem converso. Novela tem isso, foi é foi.”
Alguma
novela que não tenha saído como você queria?
“‘Suave
Veneno’ foi uma novela que eu não soube escrever. Eu tinha uma história
fantástica, mas não basta isso. Você tem saber como vai contá-la e só descobri
no capítulo 40, aí já era tarde. Não tive tempo. Na época, o Daniel Filho me
chamou e disse que tinha uma novela para estrear em tal dia, e me propôs fazer,
com um novo contrato, cheio de vantagens. Aí o olho cresceu. E eu me dei mal.”
Gostaria
de reescrevê-la?
“Não.
Faz parte do trabalho.”
Foi a
novela que deu mais trabalho a você?
“Não.
Foi ‘O Outro’. Porque eu não tinha experiência de bastidores de novela, algo
muito importante. O autor não pode ficar só escrevendo, tem que estar atento à
luz, ao cenário e ao figurino.”
E
quando acontece como em “Duas Caras”, que você teve que explodir um cenário?
“Me
ligaram às 22h e disseram que teriam que gravar com o cenário da boate pela
última vez na manhã seguinte. Eu perguntei: ‘Por quê?’. E responderam: ‘Porque
em Brasília queriam que fosse assim’. As pessoas dizem que não tem censura,
quem disse que não? Inclusive pessoas do Ministério da Justiça que leem as
coisas e decidem o que pode ou não ser exibido. Eu entrei em pânico, fiquei
perambulando pela casa que nem um fantasma. Até que veio a ideia de colocar
como um atentado, alguém que odeia a casa e resolve destruí-la. Depois, foi só
mudar as cenas que escrevi que passavam na boate. Agradeço muito aos meus
colaboradores de ‘Duas Caras’ pelo trabalho árduo. Foi um desafio.”
Você já
fez reclamações pessoais por meio de tramas?
“Faço
muito. Em ‘Senhora do Destino’, o seu Jacques, interpretado por Flávio
Migliaccio, pedia revisão da aposentadoria. A situação acontecia comigo na
época. Ficaram tão indignados que cassaram a minha aposentadoria de jornalista,
pediram documentos de 1984, e eu não tinha. Mas recorri. Quando ia estrear
‘Fina Estampa’, me chamaram e recebi os atrasados. Acho que ficaram com medo.”
Suas
heroínas são sempre fortes, como a Griselda. De onde vem essa força?
“Simplificando
ao máximo, homem é muito chato, está estratificado. É o que é há séculos,
enquanto as mulheres estão em constante mutação. Daqui a 40, 50 anos, estarão
dominando tudo. Prefiro escrever sobre elas.”
Que
personagem mais lembrou você até agora?
“O que
tinha mais de mim era o José Mayer em ‘Senhora do Destino’, jornalista. Quando
ele ouve de um fotógrafo que tem direito à pensão por ter sido perseguido
político, ele responde uma frase que é minha: ‘Jamais aceitaria que o povo
pagasse pelas minhas ideias políticas’.”
Se
policia para que o Aguinaldo não transpareça tanto?
“Os
personagens têm vida própria. Como vivo só, parece que estão aqui. Quando chega
uma pessoa aqui me falando da vida dela, eu penso: ‘E daí, quero saber da
Nazaré!’. Aí todo mundo se afasta, e você acaba sozinho no mundo da ficção.”
E o
Nordeste não aparece mais em suas tramas?
“O
Nordeste mudou. Há anos não ia a Carpina (PE), onde nasci, e quando cheguei,
era outro lugar. Cresceu, mas a mentalidade é a mesma, continuam os feudos, as
pessoas aceitam sem discutir o que os mandachuvas fazem. Mas never say never.
De repente faço uma novela rural, mas por enquanto, não.”
Como
será a duração de “Império”?
“Eu queria
muito que tivesse no máximo 185 capítulos, como ‘Fina Estampa’. Mas assim, o
término cairia em dezembro e o SBT não permite mais isso. Encomendaram 203
capítulos, pra seguir no ar até a primeira quinzena de janeiro. Já tenho 60
capítulos prontos, essa é a minha frente.”
Não perca a estreia de “Império” nesta segunda-feira, às 21h15.

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