Amanhã, com o fim de “Em Família”, Manoel Carlos
põe um ponto final na sua trajetória de Helenas. Aos 88 anos, sendo 67 deles
dedicados à carreira, o autor faz um balanço de sua última trama das nove nesta
entrevista e se despede das novelas sem arrependimentos.
Como
foi escrever o último capítulo de sua última novela?
“Eu me
despeço bem, certo de que fiz um bom trabalho, honesto comigo mesmo, na mesma
linha de tudo que escrevi nesses anos todos. Claro que nem todos com o mesmo
acerto, mas trabalho algum jamais me envergonhou e me fez arrependido. Assino
embaixo de tudo o que fiz.”
Você
tem o costume de delegar pouco para os colaboradores. Essa rotina se manteve
nesta trama?
“É
verdade. Desta vez, porém, deleguei mais do que sempre fiz. Alguns problemas de
saúde, principalmente os decorrentes das longas horas sentado, me levaram a
precisar mais deles. E foi uma felicidade para mim e para a novela, já que
todos se saíram bem.”
Acha
que poderia ter desenvolvido melhor algum personagem?
“Veja
bem: com o elenco que eu tive, vou ficar sempre devendo. São todos muito bons
e, por melhor que eu fosse, não teria dado a eles tudo que mereceram nesses dez
meses de trabalho.”
A cena
em que Helena, bêbada, seduz Virgílio de calcinha e sutiã foi uma das mais
comentadas nas redes sociais naquele dia. Você se surpreendeu com a
repercussão? Acha que demorou a apresentar essa faceta mais leve da personagem?
“Não me
surpreendi, porque Julia Lemmertz é uma grande atriz e tudo que fizer vai fazer
muito bem. Se não fiz antes, foi porque muitas cenas nascem no decorrer do
trabalho. Nem tudo é planejado. Quando entrego uma sinopse, estou entregando
menos de 50% do que acabo fazendo. Vou cortando aqui, acrescentando ali. Com
ela, fiz quando o momento me surgiu.”
Você é
um autor conhecido por criar personagens femininas fortes. Nas tramas
anteriores, a sensação era de que os personagens masculinos ocupavam um papel
de escada. Mas na novela “Em Família” isso não aconteceu. A que se deve essa
mudança?
“É
verdade. Sempre escrevi para atrizes mais do que para atores. Amo todas elas.
Sempre achei que não há profissão alguma melhor para uma mulher do que a de
atriz. Algumas vezes escrevi personagens masculinos fortes, mas reconheço que
quase sempre eles vieram a reboque dos femininos. Nesta novela consegui
trafegar pelos personagens masculinos com mais verdade. Todos tiveram destaque.”
Os
bastidores de “Em Família” acabaram sendo uma novela à parte. Especulou-se
sobre seu afastamento da trama, os problemas causados por Gabriel Braga Nunes,
a saída de Jayme Monjardim... O que mais o irritou nessa história?
“Nada
me irritou e nada foi verdade. Eu não tive doença grave alguma. Sou um doente
crônico de problemas que exigem fisioterapia diária. Isso se deve muito à minha
vida sedentária, de ficar sentado diante do computador por dez, 12 horas.
Quando paro de fazer novela, minhas sessões de fisioterapia se resumem a duas
vezes por semana. Gabriel Braga Nunes sofreu uma campanha negativa. É uma doce
figura, educado e sério, que não gosta de se expor, de admiração festiva, de
manifestações excessivas de carinho. Isso, evidentemente, irrita muita gente,
já que é uma raridade no meio em que vivemos. Quanto ao Jayme, ele nunca saiu.
Afastou-se algumas vezes por conta de seu trabalho dividido, já que enquanto
dirigia ‘Em Família’, ele também assumiu a novela das 18h.”
“Em Família”
destacou o romance entre duas mulheres. O público, como sempre, respondeu de
maneira distinta (com pessoas elogiando e outras reclamando). Como lidou com
essas reações tão opostas?
“Bem,
lidar com isso é muito simples. Nenhuma novela escapa de críticas positivas e
negativas. Estou mais do que descolado nessa matéria. Tive núcleos e cenas
polêmicas em todas elas. Quanto às meninas gays, também é natural. A classe
média é conservadora, assim como a imprensa escrita de jornais e revistas.”
Qual
foi seu maior acerto na novela “Em Família”? E o maior equívoco?
“Ah,
acertei e errei muitas vezes, não só nessa, mas em todas as novelas.”
Fora
Helena, qual personagem você gostaria que tivesse a mesma popularidade de sua
eterna protagonista?
“Anita
(Mel Lisboa), da minissérie ‘Presença de Anita’.”
Qual
tema ou história que gostaria de ter desenvolvido nas suas tramas e ainda não
conseguiu realizar?
“Nenhum.
O que quis fazer, fiz. Talvez não com a mesma intensidade e felicidade, mas
fiz. Não mudaria nada. Não porque acho que seja perfeita, mas porque é a novela
que eu quis fazer.”
Você
disse que é sua última novela. É o fim de Helena? Ou ela pode aparecer numa série
ou minissérie ?
“Helena
vai descansar. Nem novela, nem série, nem minissérie. Não penso em revivê-la.”
Então Julia
Lemmertz fecha realmente o ciclo das Helenas?
“Tenho
certeza que sim. Se a personagem fosse de um seriado, poderia ter vida mais
longa. Mas de novela já deu o que tinha de dar. Se você somar todas as
presenças da Helena, verá que ela protagonizou mais de mil capítulos de texto.
Achei mais justo dar uma saída gloriosa através da Julia Lemmertz, que, como
todos sabem, é uma grande atriz e filha da sempre lembrada Lilian Lemmertz, a
primeira Helena, de ‘Baila Comigo’.”
O ibope
da novela não alcançou o desejado. Preocupou-se muito?
“Eu me
preocupo sempre. A finalidade de qualquer produto televisivo é dar lucro e a
audiência tem um papel fundamental nisso. Mas não existe índice vergonhoso. Deu
o que tinha de dar. Dignamente. Fiz a novela que queria e com quem queria.”
Ficou satisfeito
com o desempenho do elenco?
“O
elenco esteve irretocável! Aprofundou-se nos personagens e deu ao público cenas
que serão lembradas. Destaco todos, individualmente; e destaco o conjunto
harmonioso que conseguimos reunir.”
E o que
podemos esperar para o último capítulo, na sexta?
“No
último capítulo, como no primeiro, terá muita emoção.”
O que
fará depois de Em Família?
“Viajo
para passear, mas, principalmente, para rever meus filhos. A Júlia (Almeida,
atriz) está morando em Londres e o Pedro, em Nova York. Não os vejo há mais de
seis meses.”
Qual
mensagem gostaria de deixar para o público que sempre o prestigiou?
“O
agradecimento de coração. Fiz o possível para dar às pessoas boas histórias. Se
consegui isso algumas vezes, eu me sinto feliz e agradeço.”
Não perca o último capítulo de “Em Família” nesta sexta, às 21h15.

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