quinta-feira, 20 de maio de 2021

Com o fim de “Em Família”, Manoel Carlos se despede das novelas


Amanhã, com o fim de “Em Família”, Manoel Carlos põe um ponto final na sua trajetória de Helenas. Aos 88 anos, sendo 67 deles dedicados à carreira, o autor faz um balanço de sua última trama das nove nesta entrevista e se despede das novelas sem arrependimentos.
 
Como foi escrever o último capítulo de sua última novela?
“Eu me despeço bem, certo de que fiz um bom trabalho, honesto comigo mesmo, na mesma linha de tudo que escrevi nesses anos todos. Claro que nem todos com o mesmo acerto, mas trabalho algum jamais me envergonhou e me fez arrependido. Assino embaixo de tudo o que fiz.”
 
Você tem o costume de delegar pouco para os colaboradores. Essa rotina se manteve nesta trama?
“É verdade. Desta vez, porém, deleguei mais do que sempre fiz. Alguns problemas de saúde, principalmente os decorrentes das longas horas sentado, me levaram a precisar mais deles. E foi uma felicidade para mim e para a novela, já que todos se saíram bem.”
 
Acha que poderia ter desenvolvido melhor algum personagem?
“Veja bem: com o elenco que eu tive, vou ficar sempre devendo. São todos muito bons e, por melhor que eu fosse, não teria dado a eles tudo que mereceram nesses dez meses de trabalho.”
 
A cena em que Helena, bêbada, seduz Virgílio de calcinha e sutiã foi uma das mais comentadas nas redes sociais naquele dia. Você se surpreendeu com a repercussão? Acha que demorou a apresentar essa faceta mais leve da personagem?
“Não me surpreendi, porque Julia Lemmertz é uma grande atriz e tudo que fizer vai fazer muito bem. Se não fiz antes, foi porque muitas cenas nascem no decorrer do trabalho. Nem tudo é planejado. Quando entrego uma sinopse, estou entregando menos de 50% do que acabo fazendo. Vou cortando aqui, acrescentando ali. Com ela, fiz quando o momento me surgiu.”
 
Você é um autor conhecido por criar personagens femininas fortes. Nas tramas anteriores, a sensação era de que os personagens masculinos ocupavam um papel de escada. Mas na novela “Em Família” isso não aconteceu. A que se deve essa mudança?
“É verdade. Sempre escrevi para atrizes mais do que para atores. Amo todas elas. Sempre achei que não há profissão alguma melhor para uma mulher do que a de atriz. Algumas vezes escrevi personagens masculinos fortes, mas reconheço que quase sempre eles vieram a reboque dos femininos. Nesta novela consegui trafegar pelos personagens masculinos com mais verdade. Todos tiveram destaque.”
 
Os bastidores de “Em Família” acabaram sendo uma novela à parte. Especulou-se sobre seu afastamento da trama, os problemas causados por Gabriel Braga Nunes, a saída de Jayme Monjardim... O que mais o irritou nessa história?
“Nada me irritou e nada foi verdade. Eu não tive doença grave alguma. Sou um doente crônico de problemas que exigem fisioterapia diária. Isso se deve muito à minha vida sedentária, de ficar sentado diante do computador por dez, 12 horas. Quando paro de fazer novela, minhas sessões de fisioterapia se resumem a duas vezes por semana. Gabriel Braga Nunes sofreu uma campanha negativa. É uma doce figura, educado e sério, que não gosta de se expor, de admiração festiva, de manifestações excessivas de carinho. Isso, evidentemente, irrita muita gente, já que é uma raridade no meio em que vivemos. Quanto ao Jayme, ele nunca saiu. Afastou-se algumas vezes por conta de seu trabalho dividido, já que enquanto dirigia ‘Em Família’, ele também assumiu a novela das 18h.”
 
“Em Família” destacou o romance entre duas mulheres. O público, como sempre, respondeu de maneira distinta (com pessoas elogiando e outras reclamando). Como lidou com essas reações tão opostas?
“Bem, lidar com isso é muito simples. Nenhuma novela escapa de críticas positivas e negativas. Estou mais do que descolado nessa matéria. Tive núcleos e cenas polêmicas em todas elas. Quanto às meninas gays, também é natural. A classe média é conservadora, assim como a imprensa escrita de jornais e revistas.”
 
Qual foi seu maior acerto na novela “Em Família”? E o maior equívoco?
“Ah, acertei e errei muitas vezes, não só nessa, mas em todas as novelas.”
 
Fora Helena, qual personagem você gostaria que tivesse a mesma popularidade de sua eterna protagonista?
“Anita (Mel Lisboa), da minissérie ‘Presença de Anita’.”
 
Qual tema ou história que gostaria de ter desenvolvido nas suas tramas e ainda não conseguiu realizar?
“Nenhum. O que quis fazer, fiz. Talvez não com a mesma intensidade e felicidade, mas fiz. Não mudaria nada. Não porque acho que seja perfeita, mas porque é a novela que eu quis fazer.”
 
Você disse que é sua última novela. É o fim de Helena? Ou ela pode aparecer numa série ou minissérie ?
“Helena vai descansar. Nem novela, nem série, nem minissérie. Não penso em revivê-la.”
 
Então Julia Lemmertz fecha realmente o ciclo das Helenas?
“Tenho certeza que sim. Se a personagem fosse de um seriado, poderia ter vida mais longa. Mas de novela já deu o que tinha de dar. Se você somar todas as presenças da Helena, verá que ela protagonizou mais de mil capítulos de texto. Achei mais justo dar uma saída gloriosa através da Julia Lemmertz, que, como todos sabem, é uma grande atriz e filha da sempre lembrada Lilian Lemmertz, a primeira Helena, de ‘Baila Comigo’.”
 
O ibope da novela não alcançou o desejado. Preocupou-se muito?
“Eu me preocupo sempre. A finalidade de qualquer produto televisivo é dar lucro e a audiência tem um papel fundamental nisso. Mas não existe índice vergonhoso. Deu o que tinha de dar. Dignamente. Fiz a novela que queria e com quem queria.”
 
Ficou satisfeito com o desempenho do elenco?
“O elenco esteve irretocável! Aprofundou-se nos personagens e deu ao público cenas que serão lembradas. Destaco todos, individualmente; e destaco o conjunto harmonioso que conseguimos reunir.”
 
E o que podemos esperar para o último capítulo, na sexta?
“No último capítulo, como no primeiro, terá muita emoção.”
 
O que fará depois de Em Família?
“Viajo para passear, mas, principalmente, para rever meus filhos. A Júlia (Almeida, atriz) está morando em Londres e o Pedro, em Nova York. Não os vejo há mais de seis meses.”
 
Qual mensagem gostaria de deixar para o público que sempre o prestigiou?
“O agradecimento de coração. Fiz o possível para dar às pessoas boas histórias. Se consegui isso algumas vezes, eu me sinto feliz e agradeço.”
 
Não perca o último capítulo de “Em Família” nesta sexta, às 21h15.

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