quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ALCIDES NOGUEIRA


Alcides Nogueira Pinto nasceu em Botucatu, no interior de São Paulo, em 28 de outubro de 1949. Aos 17 anos, mudou-se com a família para a capital paulista, onde reside até hoje. Filho de um médico e escritor e de uma professora, Alcides Nogueira pensou em seguir a carreira de diplomata e, com esse objetivo, entrou para o curso de direito na Universidade São Francisco, em São Paulo.
 
Em 1969, com o endurecimento do regime militar no Brasil, decidiu trancar a faculdade e mudou-se para Londres. Algum tempo depois, ao voltar para o Brasil, reingressou na Universidade São Francisco, para concluir o curso de direito. A essa altura, em plena ditadura militar, já havia desistido de seguir a carreira no Itamaraty, mas queria finalizar o curso superior.
 
Em meados dos anos de 1970, Alcides Nogueira começou a trabalhar na Editora Abril, onde conheceu escritores como Maria Adelaide Amaral, Walther Negrão e Inácio de Loyola Brandão. Começou escrevendo para revistas de saúde e moda e cuidando de fascículos especiais lançados pela editora. Em seguida, já na revista Veja, trabalhou como revisor e, posteriormente, como responsável pela crítica literária.
 
Insatisfeito com o trabalho na revista Veja e sem ter certeza de qual profissão deveria seguir, Alcides Nogueira deixou o emprego na Editora Abril e embarcou para outra temporada na Europa. Como sempre teve interesse por teatro e literatura, começou a produzir seus próprios textos.
 
Escreveu sua primeira peça teatral, “A Farsa da Noiva Bombardeada”, em 1977. Quatro anos depois, lançou “Lua de Cetim”, que foi muito elogiada e pela qual recebeu o Prêmio Molière. O segundo Moliére veio logo em seguida, em 1982, quando o escritor adaptou para o teatro o romance “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva. Além dos elogios da crítica especializada, a peça ganhou também o Prêmio Mambembe.
 
No início dos anos 1980, Alcides Nogueira deu seus primeiros passos na televisão ao ingressar no SBT como redator de publicidade, sendo posteriormente convidado pelo diretor Paulo Ubiratan a integrar a equipe de teledramaturgia da emissora, estreando no gênero em 1982 no programa “Caso Verdade”, no qual adaptava histórias reais enviadas por telespectadores. Concebido como uma resposta direta do SBT à concorrência sensacionalista, o programa misturava dramaturgia e jornalismo para dialogar com um público popular e majoritariamente feminino do horário da tarde, transformando relatos cotidianos em narrativas dramatizadas exibidas em cinco capítulos semanais. As histórias, selecionadas e estruturadas com linguagem próxima à da telenovela, abordavam temas socialmente delicados como alcoolismo, violência sexual, suicídio, incesto e erros judiciários, alternando encenação ficcional com depoimentos reais e análises de especialistas, o que conferia ao formato um caráter híbrido e pedagógico. A presença rotativa de apresentadores, como Tony Ramos, Regina Duarte, José Wilker e Dina Sfat, reforçava a ponte entre realidade e ficção, especialmente no episódio final, quando personagens e pessoas reais se encontravam para comentar os desfechos. Nesse contexto, a participação de Alcides Nogueira em “Caso Verdade” não apenas marcou sua entrada na teledramaturgia, como também o inseriu em uma experiência decisiva de escrita ancorada no real, antecipando sua atenção recorrente a conflitos humanos, dilemas morais e questões sociais que atravessariam sua obra posterior.
 
Em 1988, Alcides Nogueira participou pela primeira vez de uma novela no SBT ao colaborar com Walther Negrão em “Livre para Voar”, um melodrama romântico centrado na ideia de identidades ocultas, redenção e laços afetivos improváveis. A trama acompanha Pardal, na verdade Paulo Alberto Ramos de Almeida Lima (Tony Ramos), um homem misterioso que chega a Poços de Caldas fugindo do próprio passado e passa a viver em um antigo vagão de trem, onde acolhe Gibi (Fernando Almeida), um menino negro fugitivo de um orfanato que vê nele a figura de um pai e desperta em Pardal o desejo de reconstrução afetiva por meio da promessa de adoção. Paralelamente, ele se apaixona por Cristina Rocha (Carla Camurati), uma jovem aparentemente simples que trabalha como copeira em uma fábrica de cristais, sem saber que ela é, na verdade, Bebel, filha de J. J. Jardim Julião (Jorge Dória), o poderoso dono da empresa, que se infiltrou anonimamente nos negócios da família para testar a honestidade de seus funcionários. O romance entre os dois é atravessado por mentiras mútuas, já que Pardal também esconde ser um arquiteto acusado de um crime que acredita ter cometido, o que leva à ruptura quando as verdadeiras identidades vêm à tona. Ao articular esse jogo de disfarces com conflitos morais, exploração de classe, desejo de pertencimento e a relação sensível entre Pardal e Gibi, a novela apresenta uma narrativa sobre fuga e recomeço, sugerindo que a liberdade prometida pelo título só se concretiza quando os personagens enfrentam o passado e assumem, sem máscaras, quem realmente são.
 
Em 1989, Alcides Nogueira escreveu sua primeira novela, “De Quina pra Lua”, sob a supervisão de Walther Negrão e a partir de um argumento de Benedito Ruy Barbosa, estruturando uma comédia popular que transforma o acaso em motor dramático e satiriza a obsessão coletiva pelo dinheiro fácil. A trama parte da trajetória de José João Batista, o Zezão (Milton Moraes), funcionário exemplar que, após três décadas dedicadas à mesma empresa, é aposentado de forma abrupta, mergulha em frustração e, ironicamente, acerta a quina da loteria pouco antes de morrer de maneira súbita, sendo enterrado com o bilhete premiado sem que a família perceba. A partir desse desaparecimento, sua esposa Angelina (Eva Wilma) e os filhos Pedro (Buza Ferraz), Jésus (Taumaturgo Ferreira), André (Matheus Carrieri) e Fatinha (Isabela Garcia) se veem envolvidos em uma caótica e desesperada caça ao tesouro, que expõe fragilidades afetivas, disputas internas e a corrosão dos vínculos familiares diante da promessa de enriquecimento. O núcleo cômico e afetivo se fortalece com a presença do excêntrico professor Dante Cagliosto (Agildo Ribeiro), amigo de Zezão que anotou os números do jogo e passa a comandar a busca, auxiliado pelo Padre Antônio (Felipe Carone) e pela manicure Mariazinha (Elizabeth Savala), com quem estabelece uma relação marcada por conflitos, afeto e desejo, ao mesmo tempo em que revive sentimentos antigos por Angelina. Em um desdobramento de tom fantástico, Zezão retorna à Terra como espírito, acompanhado do anjo Cróvis (José Dumont), tentando proteger a família e orientar a recuperação do bilhete, ainda que de forma atrapalhada, enquanto personagens oportunistas como Silva (Hugo Carvana) e Bruno Scapelli (Paulo Betti) transformam a procura em um jogo de interesses e golpes. Ao mesclar humor, crítica social e elementos sobrenaturais, a novela constrói uma reflexão leve, porém incisiva, sobre ambição, solidariedade e a ilusão de que o dinheiro pode resolver frustrações acumuladas ao longo de uma vida inteira.
 
Em 1990, Alcides Nogueira voltou a colaborar com Walther Negrão em “Direito de Amar”, um melodrama de época ambientado no início do século XX que tem como eixo o confronto entre amor, poder e convenções sociais. A trama acompanha Rosália Medeiros (Glória Pires), obrigada pelo pai, o industrial endividado Augusto Medeiros (Edney Giovennazzi), a se casar com o autoritário banqueiro Francisco de Montserrat (Carlos Vereza), mas que acaba se apaixonando por Adriano (Lauro Corona), médico idealista e filho do próprio Francisco, romance que expõe as contradições morais do patriarca. Em paralelo, a narrativa incorpora um núcleo de mistério ao revelar que o banqueiro mantém reclusa Joana Cavalcanti, supostamente insana, que na verdade é Bárbara Cavalcanti de Montserrat (Ítala Nandi), sua esposa dada como morta, enquanto a verdadeira Joana viveu anos no exterior sob outra identidade. Ao articular romance proibido, segredos familiares e autoritarismo masculino, a novela discute o direito à escolha afetiva em uma sociedade rigidamente controlada pelo dinheiro, pela aparência e pelo poder patriarcal.
 
Alcides Nogueira colaborou com Lauro César Muniz em “O Salvador da Pátria” (1995), seu primeiro contato com a dramaturgia do horário das 21h, em uma novela que combina drama político e crítica social. A trama gira em torno do boia-fria analfabeto Salvador da Silva, o Sassá Mutema (Lima Duarte), manipulado pelo deputado conservador Severo Toledo Blanco (Francisco Cuoco) para encobrir um escândalo amoroso, o que acaba levando Sassá a ser injustamente acusado do assassinato de Marlene (Tássia Camargo) e do radialista populista Juca Pirama (Luis Gustavo). Absolvido com o apoio popular e da professora Clotilde Ribeiro (Maitê Proença), Sassá transforma-se em símbolo das massas e passa a ser disputado por forças políticas interessadas em instrumentalizá-lo, até conquistar voz própria. Paralelamente, a trajetória de João Matos (José Wilker), perseguido e obrigado a assumir outra identidade, amplia o retrato de um sistema marcado por corrupção, manipulação midiática e moralismo hipócrita, fazendo da novela uma reflexão sobre populismo e o uso do “homem comum” como peça descartável do poder.
 
Em “Rainha da Sucata” (1996), colaboração de Alcides Nogueira com Sílvio de Abreu no horário das 21h, a trama usa a comédia satírica para expor o choque entre novos-ricos e a elite paulistana em decadência. A história opõe Maria do Carmo (Regina Duarte), sucateira que enriqueceu e tenta comprar prestígio social, e Laurinha Figueroa (Glória Menezes), socialite falida que se agarra às aparências do passado. Ao se casar por interesse com Edu (Tony Ramos), antigo amor e herdeiro de uma família arruinada, Maria do Carmo desencadeia uma disputa marcada por ressentimento, humilhação e jogos de poder, enquanto enfrenta sabotagens nos negócios e conflitos caricatos ao seu redor. Com humor ácido, a novela reflete sobre dinheiro, status e a fragilidade das hierarquias sociais sustentadas apenas pela imagem.
 
Enquanto “Rainha da Sucata” ainda estava no ar, Alcides Nogueira voltou a trabalhar com Sílvio de Abreu e Maria Adelaide Amaral em “Deus nos Acuda” (1997), exibida às 19h, uma comédia farsesca que mistura sátira política, crítica de costumes e elementos do realismo fantástico. A trama parte da figura de Celestina (Dercy Gonçalves), o anjo responsável pelo Brasil, que entra em pânico ao ser ameaçada por Deus de descer à Terra e consegue, com a ajuda do anjo Gabriel (Cláudio Corrêa e Castro), uma prorrogação de seis meses no céu, desde que consiga transformar moralmente um brasileiro sem violar seu livre-arbítrio. Para cumprir a missão, ela escolhe Maria Escandalosa (Cláudia Raia), jovem trambiqueira criada no porto de Santos pelo pai Tomás Euclides (Jorge Dória), e passa a interferir discretamente em sua vida após salvá-la de uma explosão. Sem saber que é alvo de uma experiência divina, Maria se envolve com o milionário Ricardo Bismark (Edson Celulari), filho do enigmático Otto Bismark (Francisco Cuoco), cercado por acusações e intrigas familiares, enquanto personagens caricatos e interesses escusos orbitam sua trajetória. Ao acompanhar a tentativa de redenção de uma anti-heroína em meio ao caos social e moral, a novela usa humor escrachado e exagero para refletir sobre corrupção, oportunismo, ética e a crença recorrente em soluções milagrosas para problemas estruturais do país, transformando o divino em instrumento de comentário irônico sobre o Brasil contemporâneo.
 
Em 2000, Alcides Nogueira assinou sua segunda novela como autor titular em “O Amor Está no Ar”, exibida às 18h e ambientada na fictícia e tranquila cidade de Ouro Velho, onde melodrama familiar, romance e fantasia convivem de forma deliberadamente híbrida. A trama acompanha Sofia Schnaider (Betty Lago), viúva elegante e ética que assume o comando da empresa de turismo Estrela Dourada após a morte do marido, Victor Carvalho (Wolf Maya), enfrentando a oposição feroz da sogra Úrsula (Nicette Bruno), que se alia ao genro inescrupuloso Alberto Santana (Luís Melo) e à própria filha Júlia (Natália do Valle) para afastá-la dos negócios. Em paralelo ao conflito empresarial, Sofia se envolve amorosamente com Léo (Rodrigo Santoro), jovem piloto da empresa, relação que se torna ainda mais complexa quando Luísa (Natália Lage), filha adolescente da protagonista, também se apaixona por ele, manipulada emocionalmente pela avó. Esse núcleo afetivo se cruza com o universo popular do circo comandado por Guima (Nuno Leal Maia), antigo amor de Úrsula, e com a presença de João (Eriberto Leão), personagem envolto em mistério que desperta em Luísa a crença de ter sido abduzida por um extraterrestre. A articulação de disputas de poder, conflitos geracionais, rivalidades amorosas e a possibilidade de vida fora da Terra escancara uma reflexão leve sobre intolerância, desejo de controle, fé no inexplicável e a dificuldade de conciliar razão e afeto em um mundo marcado por segredos e ressentimentos.
 
Em 2001, Alcides Nogueira colaborou com Gilberto Braga em “Pátria Minha”, novela das 21h que estrutura seu conflito central a partir de Alice Proença (Cláudia Abreu), uma jovem idealista que se recusa a acobertar um atropelamento cometido pelo poderoso empresário Raul Pelegrini (Tarcísio Meira), enfrentando diretamente as engrenagens do poder econômico e político. A trama aprofunda esse embate ao revelar os jogos de interesse de Lídia Laport (Vera Fischer), disposta a ascender socialmente ao se aproximar de Raul, enquanto Pedro Fonseca (José Mayer) surge como contraponto ético ao liderar a resistência de uma comunidade ameaçada por despejos. Sem recorrer a maniqueísmos fáceis, a novela examina os limites do idealismo, a fragilidade das instituições e as concessões morais exigidas em um país onde poder e justiça raramente caminham juntos.
 
Ainda em 2001, Alcides Nogueira deixou a colaboração de “Pátria Minha” para integrar, a convite de Sílvio de Abreu, a equipe de “A Próxima Vítima”, novela das 21h construída como um thriller policial movido por suspense e jogos de aparência, cuja narrativa se organiza em torno das perguntas “quem matou?”, “quem será o próximo?” e “por quê?”. Ambientada em São Paulo, a trama tem início no universo da família Ferreto e de seus satélites afetivos e econômicos, detonando uma série de assassinatos aparentemente desconexos, marcados pela presença de um Opala preto e por mensagens ligadas ao horóscopo chinês. O ponto de partida é a morte de Francesca Ferreto (Tereza Rachel), envenenada no aeroporto, fato que desencadeia uma investigação paralela conduzida pela jovem Irene Ribeiro (Vivianne Pasmanter), abalada também pela execução do pai, Hélio (Francisco Cuoco), e da tia Júlia (Glória Menezes). Em torno desse núcleo, cruzam-se relações adulteradas, ambições empresariais e conflitos familiares, como o triângulo entre Ana (Susana Vieira), o manipulador Marcelo Rossi (José Wilker) e o leal Juca (Tony Ramos), enquanto o passado oculto do assassinato de Gigio di Angelis (Carlos Eduardo Dolabella) surge como a chave que conecta todas as mortes. O melodrama convive com a investigação criminal e com uma crítica contundente aos pactos de silêncio da elite, sustentando uma narrativa de tensão constante que envolve o espectador como participante ativo do mistério.
 
Em 2002, Alcides Nogueira voltou a trabalhar com Gilberto Braga ao assinar como autor titular a novela de época “Força de um Desejo”, exibida às 18h, na qual o folhetim romântico clássico aos poucos cede espaço a uma intriga policial ambientada na segunda metade do século XIX, período marcado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais no Brasil. A trama se inicia a partir do embate entre o ambicioso Higino Ventura (Paulo Betti), ex-mascate enriquecido por meios escusos, e o aristocrata Barão Henrique Sobral (Reginaldo Faria), casado com Helena (Sônia Braga), antiga paixão de Higino e mulher submetida a humilhações silenciosas dentro do casamento. O conflito se adensa quando Inácio Sobral (Fábio Assunção), filho legítimo do barão, vive um amor interrompido com a cortesã Ester Dellamare (Malu Mader), relação atravessada por convenções sociais, jogos de poder e interesses familiares, enquanto Olívia (Cláudia Abreu), jovem branca escravizada por Higino, expõe de forma direta a violência estrutural do sistema escravocrata. O assassinato do Barão durante uma festa transforma o romance em investigação, colocando Inácio como principal suspeito e acionando uma narrativa de pistas falsas, segredos de família e reviravoltas, que articula melodrama, crítica social e suspense para refletir sobre desejo, propriedade, herança e opressão em um país sustentado por aparências e desigualdades.
 
Alcides Nogueira teve seu primeiro contato com o formato de minissérie ao assinar, ao lado de Maria Adelaide Amaral, “Um Só Coração” (2004), produção comemorativa dos 450 anos de São Paulo que acompanha a transformação da cidade em polo econômico e cultural do país ao longo da primeira metade do século XX. Ambientada a partir de 1922, a trama articula histórias íntimas e processos históricos ao acompanhar o romance entre Yolanda (Ana Paula Arósio), herdeira da elite cafeeira, e Martim (Erik Marmo), jovem de origem aristocrática empobrecida e simpatizante do anarquismo, um amor atravessado por convenções sociais, interesses familiares e repressão política. Em paralelo, o enredo retrata a decadência dos barões do café por meio do coronel Totonho (Tarcísio Meira) e de seus filhos, expondo conflitos de classe, masculinidade e moral conservadora, enquanto acompanha o amadurecimento de figuras femininas como Maria Luísa (Letícia Sabatella) e Ana Schmidt (Maria Fernanda Cândido), cujas trajetórias revelam as limitações impostas às mulheres e as brechas de emancipação possíveis naquele contexto. A narrativa se expande ao incorporar personagens históricos como Ciccillo Matarazzo (Edson Celulari) e ao inserir a efervescência artística da Semana de Arte Moderna de 1922, integrando dramas pessoais, transformações urbanas e o nascimento de uma identidade cultural moderna para São Paulo.
 
Alcides Nogueira voltou a trabalhar com Sílvio de Abreu, ao lado de Bosco Brasil, na autoria da novela “Torre de Babel” (2005), exibida no horário das 21h, retomando o registro do suspense policial temperado por humor e crítica social que já marcava a obra do autor. A trama parte do crime passional cometido por José Clementino (Tony Ramos), ex-perito em fogos de artifício que assassina a esposa em um acesso de fúria e tem sua condenação selada pelo depoimento do engenheiro César Toledo (Tarcísio Meira), poderoso empresário responsável pela construção de um luxuoso shopping center em São Paulo. Anos depois, ao sair da prisão, Clementino passa a arquitetar uma vingança minuciosa contra o antigo patrão, enquanto a narrativa se expande para os conflitos íntimos e morais da família Toledo, marcada por um casamento em crise entre César e Marta (Glória Menezes), filhos problemáticos, disputas afetivas e ambições profissionais. Ao cruzar dramas familiares, desigualdade social e uma ameaça iminente de destruição em massa simbolizada pelo shopping, a novela transforma o espaço urbano em palco de tensão constante, explorando temas como culpa, ressentimento, ascensão social e a fragilidade das relações humanas diante do poder e da violência.
 
Um ano depois, novamente ao lado de Maria Adelaide Amaral, Alcides Nogueira assinou a minissérie “JK” (2006), dedicada a retratar a trajetória de Juscelino Kubitschek desde a infância em Diamantina até a morte, em 1976, transformando a biografia do ex-presidente em um amplo retrato histórico e humano do Brasil do século XX. A narrativa acompanha o nascimento de Juscelino (Wagner Moura), filho da professora Júlia Kubitschek (Júlia Lemmertz) e do caixeiro-viajante João César de Oliveira (Fábio Assunção), cuja morte precoce marca a infância do menino e impõe dificuldades financeiras que moldam seu caráter otimista e resiliente. Já jovem adulto, Juscelino constrói uma carreira sólida como médico em Belo Horizonte, conciliando o atendimento às elites e aos pobres da Santa Casa, enquanto vive o romance com Sarah Lemos (Débora Falabella), relação atravessada por diferenças sociais e pelo temor dela em relação à política. O enredo acompanha sua ascensão profissional, a temporada de estudos em Paris, o casamento e, gradualmente, o despertar para a vida pública, caminho que se intensifica na segunda fase com José Wilker e Marília Pêra assumindo os papéis de JK e Sarah, quando a minissérie passa a explorar os bastidores do poder, as alianças políticas e os conflitos éticos que cercaram a figura do presidente. A narrativa acompanha a vida privada, as ambições e o idealismo do personagem em diálogo direto com o contexto histórico, revelando o homem por trás da figura pública e o surgimento de um projeto político para o país.
 
No mesmo ano, novamente ao lado de Bosco Brasil, Alcides Nogueira integrou a equipe de Sílvio de Abreu em “As Filhas da Mãe”, exibida às 19h, assumindo sem pudor o registro da farsa e da comédia escancarada para narrar um reencontro familiar atravessado por ressentimentos, disputas patrimoniais e identidades em conflito. A trama gira em torno de Lucinda Maria (Fernanda Montenegro), que nos anos 1960 foi forçada pelo marido, Fausto (Francisco Cuoco), a abandonar o país e os três filhos após ser chantageada por um crime cometido em legítima defesa, reaparecendo décadas depois como a consagrada artista internacional Lulu de Luxemburgo, disposta a recuperar os laços rompidos e esclarecer o desaparecimento do ex-marido, que havia aplicado um golpe milionário nos sócios Arthur Brandão (Raul Cortez) e Manolo Gutierrez (Tony Ramos). A narrativa se expande a partir do retorno dos filhos Alessandra (Bete Coelho), Tatiana (Andréa Beltrão) e Ramon, agora Ramona (Cláudia Raia), expondo choques geracionais, tensões de gênero e disputas de poder em torno do resort Jardim do Éden, enquanto figuras como o ambicioso Adriano Araújo (Thiago Lacerda) e a inesperada herdeira bastarda Rosalva (Regina Casé) acentuam o tom satírico. Entre exageros deliberados e comentários ácidos sobre dinheiro, família e performance social, a novela transforma a herança em motor de conflito e a identidade em território instável, apostando no humor como ferramenta de crítica e desestabilização dos valores tradicionais.
 
Em 2011, Nogueira escreveu sua quarta novela como autor titular com “Ciranda de Pedra”, às 18h, ambientada na São Paulo de 1958 e marcada por uma narrativa que entrelaça melodrama psicológico, repressão familiar e rito de amadurecimento feminino. Inspirada no romance homônimo de Lygia Fagundes Telles (e apresentada como a segunda adaptação da obra pelo SBT, após a versão de 1984), a trama articula o triângulo tenso entre Natércio Prado (Daniel Dantas), advogado autoritário obcecado pelo status social, Laura (Ana Paula Arósio), mulher frágil e emocionalmente instável, e Daniel (Marcello Antony), médico sensível e antigo amante de Laura, enquanto acompanha o doloroso processo de formação de Virgínia (Tammy Di Calafiori), filha biológica de Daniel, mas criada como herdeira legítima de Natércio. Criada sob suspeita, silêncios e punições, Virgínia cresce enfrentando a violência moral do pai, o colapso psíquico da mãe e a hostilidade das irmãs, encontrando algum afeto fora de casa, num percurso que transforma a descoberta da própria origem em chave para sua emancipação. Ao revisitar a história sob um novo recorte, a novela reforça temas como patriarcado, medicalização da mulher, hipocrisia burguesa e identidade feminina, dialogando com o texto literário original ao mesmo tempo em que o reinscreve na tradição do folhetim televisivo.
 
Após seis anos afastado das novelas, Alcides Nogueira retornou à teledramaturgia ao lado de Geraldo Carneiro no remake de “O Astro”, relançando a obra clássica de Janete Clair na então retomada faixa das 22h, agora com uma abordagem mais sombria e contemporânea. A trama acompanha a ascensão ambígua do ilusionista Herculano Quintanilha (Rodrigo Lombardi), que, após ser traído pelo parceiro Neco (Humberto Martins) e cumprir pena, reinventa-se no Rio de Janeiro como vidente e manipulador de destinos, usando o carisma e a mágica como instrumentos de poder. Sua entrada no círculo da poderosa família Hayalla, liderada pelo empresário Salomão Hayalla (Daniel Filho), desencadeia disputas afetivas e empresariais, sobretudo a partir do romance com Amanda (Carolina Ferraz) e da rivalidade com Samir (Marco Ricca), herdeiro ressentido e cada vez mais hostil. Paralelamente, o jovem Márcio (Thiago Fragoso) rompe com o conforto da elite ao se aproximar de Herculano e viver um amor improvável com Lili (Alinne Moraes), personagem que introduz o contraste entre classes sociais e valores morais. O assassinato de Salomão funciona como eixo policial da narrativa, expondo segredos, alianças frágeis e jogos de interesse, até revelar o autor do crime, num desfecho que reforça temas recorrentes da obra como ambição, impostura, corrupção emocional e a tênue fronteira entre ilusão e verdade.
 
Em 2019, Alcides Nogueira retornou ao horário das sete com “I Love Paraisópolis”, escrita em parceria com Mário Teixeira, articulando um romance contemporâneo a debates sociais urgentes. A trama acompanha Marizete (Bruna Marquezine), jovem moradora da comunidade paulistana de Paraisópolis que, criada por Eva (Soraya Ravenle) e Jurandir (Alexandre Borges), luta por ascensão por meio do estudo e do trabalho, ao lado da irreverente e combativa amiga Pandora (Tatá Werneck). O encontro com Benjamin (Maurício Destri), arquiteto premiado que retorna dos Estados Unidos para liderar um projeto de reurbanização da comunidade, desencadeia um amor atravessado por diferenças de classe, distância geográfica e compromissos prévios, como o noivado dele com Margot (Maria Casadevall). O romance é tensionado ainda pela presença de Grego (Caio Castro), liderança local que mistura proteção e controle sobre Mari, e pelos conflitos familiares de Ben, marcados pela postura elitista da mãe Soraya (Letícia Spiller) e pela ambição do tio Gabo (Henri Castelli), que vê a favela como terreno de especulação. A novela transita entre o humor e o drama para abordar temas como preconceito, racismo, Alzheimer e desigualdade urbana, apostando na cumplicidade amorosa como força capaz de enfrentar as barreiras estruturais que separam seus protagonistas.
 
Em 2021, Alcides Nogueira voltou à faixa das 18h com “Tempo de Amar”, escrita com Bia Corrêa do Lago a partir de argumento de Rubem Fonseca, estruturando um folhetim clássico sobre um amor arrebatador atravessado por convenções sociais e perdas irreparáveis. Ambientada entre Portugal e o Brasil em 1927, a trama acompanha o encontro de Maria Vitória (Vitória Strada), filha do poderoso produtor rural José Augusto (Tony Ramos), com Inácio (Bruno Cabrerizo), jovem humilde que desperta nela uma paixão imediata, frustrando os planos de casamento com o ambicioso Fernão Moniz (Jayme Matarazzo). A separação forçada do casal, causada pela migração de Inácio, pela gravidez fora do casamento e pelas manipulações da governanta Delfina (Letícia Sabatella), conduz a narrativa a territórios de sofrimento, silêncio e culpa, culminando no roubo da filha de Maria Vitória e na cegueira de Inácio após um assalto no Rio de Janeiro. Nesse intervalo, surge Lucinda (Andreia Horta), que transforma o cuidado em obsessão ao tentar impedir o reencontro dos amantes. A novela desenvolve um melodrama romântico ancorado em conflitos de classe, na moral conservadora e nas limitações impostas às mulheres, apostando na persistência do afeto como força capaz de atravessar o tempo, o oceano e as violências produzidas pelo destino.
 
NOVELAS DE ALCIDES NOGUEIRA NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
De Quina pra Lua
17/04/1989
20/10/1989
161
18h30
Autor principal
O Amor Está no Ar
26/06/2000
01/12/2000
137
18h30
Autor principal
05/08/2002
25/04/2003
227
18h30
Autor principal
01/08/2011
30/12/2011
131
18h30
Autor principal
08/01/2018
06/04/2018
65
22h30
Autor principal
28/10/2019
24/04/2020
155
19h30
Autor principal
18/01/2021
09/07/2021
149
18h30
Autor principal
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Livre para Voar
07/03/1988
30/09/1988
179
18h30
Colaborador
Direito de Amar
14/05/1990
30/11/1990
173
18h30
Colaborador
O Salvador da Pátria
09/10/1995
10/05/1996
186
21h15
Colaborador
Rainha da Sucata
30/12/1996
25/07/1997
179
21h15
Autor
Deus nos Acuda
10/03/1997
03/10/1997
179
19h30
Autor
Pátria Minha
16/04/2001
07/12/2001
203
21h15
Colaborador
A Próxima Vítima
10/12/2001
02/08/2002
203
21h15
Autor
21/02/2005
14/10/2005
203
21h15
Autor
As Filhas da Mãe
20/02/2006
14/07/2006
125
19h30
Autor
 
REPRISES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
04/08/2025
30/01/2026
155
15h30
Autor principal
 
 
MINISSÉRIES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Um Só Coração
06/01/2004
09/04/2004
56
22h30
Autor principal
JK
03/01/2006
24/03/2006
48
22h30
Autor principal

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