Alcides
Nogueira Pinto nasceu
em Botucatu, no interior de São Paulo, em 28 de outubro de 1949. Aos 17 anos,
mudou-se com a família para a capital paulista, onde reside até hoje. Filho de
um médico e escritor e de uma professora, Alcides Nogueira pensou em seguir a
carreira de diplomata e, com esse objetivo, entrou para o curso de direito na
Universidade São Francisco, em São Paulo.
Em 1969, com o endurecimento do regime militar
no Brasil, decidiu trancar a faculdade e mudou-se para Londres. Algum tempo
depois, ao voltar para o Brasil, reingressou na Universidade São Francisco,
para concluir o curso de direito. A essa altura, em plena ditadura militar, já
havia desistido de seguir a carreira no Itamaraty, mas queria finalizar o curso
superior.
Em meados dos anos de 1970, Alcides Nogueira
começou a trabalhar na Editora Abril,
onde conheceu escritores como Maria
Adelaide Amaral, Walther Negrão
e Inácio de Loyola Brandão. Começou
escrevendo para revistas de saúde e moda e cuidando de fascículos especiais
lançados pela editora. Em seguida, já na revista Veja, trabalhou como revisor e, posteriormente, como responsável
pela crítica literária.
Insatisfeito com o trabalho na revista Veja e sem ter certeza de qual profissão
deveria seguir, Alcides Nogueira deixou o emprego na Editora Abril e embarcou
para outra temporada na Europa. Como sempre teve interesse por teatro e
literatura, começou a produzir seus próprios textos.
Escreveu sua primeira peça teatral, “A Farsa da Noiva Bombardeada”, em 1977.
Quatro anos depois, lançou “Lua de Cetim”,
que foi muito elogiada e pela qual recebeu o Prêmio Molière. O segundo Moliére veio logo em seguida, em 1982,
quando o escritor adaptou para o teatro o romance “Feliz Ano Velho”, de Marcelo
Rubens Paiva. Além dos elogios da crítica especializada, a peça ganhou
também o Prêmio Mambembe.
No início dos anos 1980, Alcides Nogueira deu
seus primeiros passos na televisão ao ingressar no SBT como redator de
publicidade, sendo posteriormente convidado pelo diretor Paulo Ubiratan
a integrar a equipe de teledramaturgia da emissora, estreando no gênero em 1982
no programa “Caso Verdade”, no qual adaptava histórias reais enviadas
por telespectadores. Concebido como uma resposta direta do SBT à concorrência
sensacionalista, o programa misturava dramaturgia e jornalismo para dialogar
com um público popular e majoritariamente feminino do horário da tarde,
transformando relatos cotidianos em narrativas dramatizadas exibidas em cinco
capítulos semanais. As histórias, selecionadas e estruturadas com linguagem
próxima à da telenovela, abordavam temas socialmente delicados como alcoolismo,
violência sexual, suicídio, incesto e erros judiciários, alternando encenação
ficcional com depoimentos reais e análises de especialistas, o que conferia ao
formato um caráter híbrido e pedagógico. A presença rotativa de apresentadores,
como Tony Ramos, Regina Duarte, José Wilker e Dina Sfat,
reforçava a ponte entre realidade e ficção, especialmente no episódio final,
quando personagens e pessoas reais se encontravam para comentar os desfechos.
Nesse contexto, a participação de Alcides Nogueira em “Caso Verdade” não
apenas marcou sua entrada na teledramaturgia, como também o inseriu em uma
experiência decisiva de escrita ancorada no real, antecipando sua atenção
recorrente a conflitos humanos, dilemas morais e questões sociais que
atravessariam sua obra posterior.
Em 1988, Alcides Nogueira participou pela
primeira vez de uma novela no SBT ao colaborar com Walther Negrão em “Livre
para Voar”, um melodrama romântico centrado na ideia de identidades
ocultas, redenção e laços afetivos improváveis. A trama acompanha Pardal,
na verdade Paulo Alberto Ramos de Almeida Lima (Tony Ramos), um
homem misterioso que chega a Poços de Caldas fugindo do próprio passado e passa
a viver em um antigo vagão de trem, onde acolhe Gibi (Fernando
Almeida), um menino negro fugitivo de um orfanato que vê nele a figura de
um pai e desperta em Pardal o desejo de reconstrução afetiva por meio da
promessa de adoção. Paralelamente, ele se apaixona por Cristina Rocha (Carla
Camurati), uma jovem aparentemente simples que trabalha como copeira em uma
fábrica de cristais, sem saber que ela é, na verdade, Bebel, filha de J.
J. Jardim Julião (Jorge Dória), o poderoso dono da empresa, que se
infiltrou anonimamente nos negócios da família para testar a honestidade de
seus funcionários. O romance entre os dois é atravessado por mentiras mútuas,
já que Pardal também esconde ser um arquiteto acusado de um crime que acredita
ter cometido, o que leva à ruptura quando as verdadeiras identidades vêm à
tona. Ao articular esse jogo de disfarces com conflitos morais, exploração de
classe, desejo de pertencimento e a relação sensível entre Pardal e Gibi, a
novela apresenta uma narrativa sobre fuga e recomeço, sugerindo que a liberdade
prometida pelo título só se concretiza quando os personagens enfrentam o
passado e assumem, sem máscaras, quem realmente são.
Em 1989, Alcides Nogueira escreveu sua primeira
novela, “De Quina pra Lua”, sob a supervisão de Walther Negrão e
a partir de um argumento de Benedito Ruy Barbosa, estruturando uma
comédia popular que transforma o acaso em motor dramático e satiriza a obsessão
coletiva pelo dinheiro fácil. A trama parte da trajetória de José João
Batista, o Zezão (Milton Moraes), funcionário exemplar que,
após três décadas dedicadas à mesma empresa, é aposentado de forma abrupta,
mergulha em frustração e, ironicamente, acerta a quina da loteria pouco antes
de morrer de maneira súbita, sendo enterrado com o bilhete premiado sem que a
família perceba. A partir desse desaparecimento, sua esposa Angelina (Eva
Wilma) e os filhos Pedro (Buza Ferraz), Jésus (Taumaturgo
Ferreira), André (Matheus Carrieri) e Fatinha (Isabela
Garcia) se veem envolvidos em uma caótica e desesperada caça ao tesouro,
que expõe fragilidades afetivas, disputas internas e a corrosão dos vínculos
familiares diante da promessa de enriquecimento. O núcleo cômico e afetivo se
fortalece com a presença do excêntrico professor Dante Cagliosto (Agildo
Ribeiro), amigo de Zezão que anotou os números do jogo e passa a comandar a
busca, auxiliado pelo Padre Antônio (Felipe Carone) e pela
manicure Mariazinha (Elizabeth Savala), com quem estabelece uma
relação marcada por conflitos, afeto e desejo, ao mesmo tempo em que revive
sentimentos antigos por Angelina. Em um desdobramento de tom fantástico, Zezão
retorna à Terra como espírito, acompanhado do anjo Cróvis (José
Dumont), tentando proteger a família e orientar a recuperação do bilhete,
ainda que de forma atrapalhada, enquanto personagens oportunistas como Silva
(Hugo Carvana) e Bruno Scapelli (Paulo Betti) transformam
a procura em um jogo de interesses e golpes. Ao mesclar humor, crítica social e
elementos sobrenaturais, a novela constrói uma reflexão leve, porém incisiva,
sobre ambição, solidariedade e a ilusão de que o dinheiro pode resolver
frustrações acumuladas ao longo de uma vida inteira.
Em 1990, Alcides Nogueira voltou a colaborar
com Walther Negrão em “Direito de Amar”, um melodrama de época
ambientado no início do século XX que tem como eixo o confronto entre amor,
poder e convenções sociais. A trama acompanha Rosália Medeiros (Glória
Pires), obrigada pelo pai, o industrial endividado Augusto Medeiros
(Edney Giovennazzi), a se casar com o autoritário banqueiro Francisco
de Montserrat (Carlos Vereza), mas que acaba se apaixonando por Adriano
(Lauro Corona), médico idealista e filho do próprio Francisco,
romance que expõe as contradições morais do patriarca. Em paralelo, a narrativa
incorpora um núcleo de mistério ao revelar que o banqueiro mantém reclusa Joana
Cavalcanti, supostamente insana, que na verdade é Bárbara Cavalcanti de
Montserrat (Ítala Nandi), sua esposa dada como morta, enquanto a
verdadeira Joana viveu anos no exterior sob outra identidade. Ao articular
romance proibido, segredos familiares e autoritarismo masculino, a novela
discute o direito à escolha afetiva em uma sociedade rigidamente controlada
pelo dinheiro, pela aparência e pelo poder patriarcal.
Alcides Nogueira colaborou com Lauro César
Muniz em “O Salvador da Pátria” (1995), seu primeiro contato com a
dramaturgia do horário das 21h, em uma novela que combina drama político e
crítica social. A trama gira em torno do boia-fria analfabeto Salvador da
Silva, o Sassá Mutema (Lima Duarte), manipulado pelo deputado
conservador Severo Toledo Blanco (Francisco Cuoco) para encobrir
um escândalo amoroso, o que acaba levando Sassá a ser injustamente acusado do
assassinato de Marlene (Tássia Camargo) e do radialista populista
Juca Pirama (Luis Gustavo). Absolvido com o apoio popular e da
professora Clotilde Ribeiro (Maitê Proença), Sassá transforma-se
em símbolo das massas e passa a ser disputado por forças políticas interessadas
em instrumentalizá-lo, até conquistar voz própria. Paralelamente, a trajetória
de João Matos (José Wilker), perseguido e obrigado a assumir
outra identidade, amplia o retrato de um sistema marcado por corrupção,
manipulação midiática e moralismo hipócrita, fazendo da novela uma reflexão sobre
populismo e o uso do “homem comum” como peça descartável do poder.
Em “Rainha da Sucata” (1996),
colaboração de Alcides Nogueira com Sílvio de Abreu no horário das 21h,
a trama usa a comédia satírica para expor o choque entre novos-ricos e a elite
paulistana em decadência. A história opõe Maria do Carmo (Regina
Duarte), sucateira que enriqueceu e tenta comprar prestígio social, e Laurinha
Figueroa (Glória Menezes), socialite falida que se agarra às
aparências do passado. Ao se casar por interesse com Edu (Tony Ramos),
antigo amor e herdeiro de uma família arruinada, Maria do Carmo desencadeia uma
disputa marcada por ressentimento, humilhação e jogos de poder, enquanto
enfrenta sabotagens nos negócios e conflitos caricatos ao seu redor. Com humor
ácido, a novela reflete sobre dinheiro, status e a fragilidade das hierarquias
sociais sustentadas apenas pela imagem.
Enquanto “Rainha da Sucata” ainda estava
no ar, Alcides Nogueira voltou a trabalhar com Sílvio de Abreu e Maria
Adelaide Amaral em “Deus nos Acuda” (1997), exibida às 19h, uma
comédia farsesca que mistura sátira política, crítica de costumes e elementos
do realismo fantástico. A trama parte da figura de Celestina (Dercy
Gonçalves), o anjo responsável pelo Brasil, que entra em pânico ao ser
ameaçada por Deus de descer à Terra e consegue, com a ajuda do anjo Gabriel
(Cláudio Corrêa e Castro), uma prorrogação de seis meses no céu, desde
que consiga transformar moralmente um brasileiro sem violar seu livre-arbítrio.
Para cumprir a missão, ela escolhe Maria Escandalosa (Cláudia Raia),
jovem trambiqueira criada no porto de Santos pelo pai Tomás Euclides (Jorge
Dória), e passa a interferir discretamente em sua vida após salvá-la de uma
explosão. Sem saber que é alvo de uma experiência divina, Maria se envolve com
o milionário Ricardo Bismark (Edson Celulari), filho do
enigmático Otto Bismark (Francisco Cuoco), cercado por acusações
e intrigas familiares, enquanto personagens caricatos e interesses escusos
orbitam sua trajetória. Ao acompanhar a tentativa de redenção de uma
anti-heroína em meio ao caos social e moral, a novela usa humor escrachado e
exagero para refletir sobre corrupção, oportunismo, ética e a crença recorrente
em soluções milagrosas para problemas estruturais do país, transformando o
divino em instrumento de comentário irônico sobre o Brasil contemporâneo.
Em 2000, Alcides Nogueira assinou sua segunda
novela como autor titular em “O Amor Está no Ar”, exibida às 18h e
ambientada na fictícia e tranquila cidade de Ouro Velho, onde melodrama
familiar, romance e fantasia convivem de forma deliberadamente híbrida. A trama
acompanha Sofia Schnaider (Betty Lago), viúva elegante e ética
que assume o comando da empresa de turismo Estrela Dourada após a morte
do marido, Victor Carvalho (Wolf Maya), enfrentando a oposição
feroz da sogra Úrsula (Nicette Bruno), que se alia ao genro
inescrupuloso Alberto Santana (Luís Melo) e à própria filha Júlia
(Natália do Valle) para afastá-la dos negócios. Em paralelo ao
conflito empresarial, Sofia se envolve amorosamente com Léo (Rodrigo
Santoro), jovem piloto da empresa, relação que se torna ainda mais complexa
quando Luísa (Natália Lage), filha adolescente da protagonista,
também se apaixona por ele, manipulada emocionalmente pela avó. Esse núcleo
afetivo se cruza com o universo popular do circo comandado por Guima (Nuno
Leal Maia), antigo amor de Úrsula, e com a presença de João (Eriberto
Leão), personagem envolto em mistério que desperta em Luísa a crença de ter
sido abduzida por um extraterrestre. A articulação de disputas de poder,
conflitos geracionais, rivalidades amorosas e a possibilidade de vida fora da
Terra escancara uma reflexão leve sobre intolerância, desejo de controle, fé no
inexplicável e a dificuldade de conciliar razão e afeto em um mundo marcado por
segredos e ressentimentos.
Em 2001, Alcides Nogueira colaborou com Gilberto
Braga em “Pátria Minha”, novela das 21h que estrutura seu conflito
central a partir de Alice Proença (Cláudia Abreu), uma jovem
idealista que se recusa a acobertar um atropelamento cometido pelo poderoso
empresário Raul Pelegrini (Tarcísio Meira), enfrentando
diretamente as engrenagens do poder econômico e político. A trama aprofunda
esse embate ao revelar os jogos de interesse de Lídia Laport (Vera
Fischer), disposta a ascender socialmente ao se aproximar de Raul, enquanto
Pedro Fonseca (José Mayer) surge como contraponto ético ao
liderar a resistência de uma comunidade ameaçada por despejos. Sem recorrer a
maniqueísmos fáceis, a novela examina os limites do idealismo, a fragilidade
das instituições e as concessões morais exigidas em um país onde poder e
justiça raramente caminham juntos.
Ainda em 2001, Alcides Nogueira deixou a
colaboração de “Pátria Minha” para integrar, a convite de Sílvio de
Abreu, a equipe de “A Próxima Vítima”, novela das 21h construída
como um thriller policial movido por suspense e jogos de aparência, cuja
narrativa se organiza em torno das perguntas “quem matou?”, “quem
será o próximo?” e “por quê?”. Ambientada em São Paulo, a trama tem
início no universo da família Ferreto e de seus satélites afetivos e
econômicos, detonando uma série de assassinatos aparentemente desconexos,
marcados pela presença de um Opala preto e por mensagens ligadas ao horóscopo
chinês. O ponto de partida é a morte de Francesca Ferreto (Tereza
Rachel), envenenada no aeroporto, fato que desencadeia uma investigação
paralela conduzida pela jovem Irene Ribeiro (Vivianne Pasmanter),
abalada também pela execução do pai, Hélio (Francisco Cuoco), e
da tia Júlia (Glória Menezes). Em torno desse núcleo, cruzam-se
relações adulteradas, ambições empresariais e conflitos familiares, como o
triângulo entre Ana (Susana Vieira), o manipulador Marcelo
Rossi (José Wilker) e o leal Juca (Tony Ramos),
enquanto o passado oculto do assassinato de Gigio di Angelis (Carlos
Eduardo Dolabella) surge como a chave que conecta todas as mortes. O
melodrama convive com a investigação criminal e com uma crítica contundente aos
pactos de silêncio da elite, sustentando uma narrativa de tensão constante que
envolve o espectador como participante ativo do mistério.
Em 2002, Alcides Nogueira voltou a trabalhar
com Gilberto Braga ao assinar como autor titular a novela de época “Força
de um Desejo”, exibida às 18h, na qual o folhetim romântico clássico aos
poucos cede espaço a uma intriga policial ambientada na segunda metade do
século XIX, período marcado por profundas transformações políticas, econômicas
e sociais no Brasil. A trama se inicia a partir do embate entre o ambicioso Higino
Ventura (Paulo Betti), ex-mascate enriquecido por meios escusos, e o
aristocrata Barão Henrique Sobral (Reginaldo Faria), casado com Helena
(Sônia Braga), antiga paixão de Higino e mulher submetida a humilhações
silenciosas dentro do casamento. O conflito se adensa quando Inácio Sobral
(Fábio Assunção), filho legítimo do barão, vive um amor interrompido com
a cortesã Ester Dellamare (Malu Mader), relação atravessada por
convenções sociais, jogos de poder e interesses familiares, enquanto Olívia
(Cláudia Abreu), jovem branca escravizada por Higino, expõe de forma
direta a violência estrutural do sistema escravocrata. O assassinato do Barão
durante uma festa transforma o romance em investigação, colocando Inácio como
principal suspeito e acionando uma narrativa de pistas falsas, segredos de
família e reviravoltas, que articula melodrama, crítica social e suspense para
refletir sobre desejo, propriedade, herança e opressão em um país sustentado
por aparências e desigualdades.
Alcides Nogueira teve seu primeiro contato com
o formato de minissérie ao assinar, ao lado de Maria Adelaide Amaral, “Um
Só Coração” (2004), produção comemorativa dos 450 anos de São Paulo que
acompanha a transformação da cidade em polo econômico e cultural do país ao
longo da primeira metade do século XX. Ambientada a partir de 1922, a trama
articula histórias íntimas e processos históricos ao acompanhar o romance entre
Yolanda (Ana Paula Arósio), herdeira da elite cafeeira, e Martim
(Erik Marmo), jovem de origem aristocrática empobrecida e simpatizante
do anarquismo, um amor atravessado por convenções sociais, interesses
familiares e repressão política. Em paralelo, o enredo retrata a decadência dos
barões do café por meio do coronel Totonho (Tarcísio Meira) e de
seus filhos, expondo conflitos de classe, masculinidade e moral conservadora,
enquanto acompanha o amadurecimento de figuras femininas como Maria Luísa (Letícia
Sabatella) e Ana Schmidt (Maria Fernanda Cândido), cujas
trajetórias revelam as limitações impostas às mulheres e as brechas de
emancipação possíveis naquele contexto. A narrativa se expande ao incorporar
personagens históricos como Ciccillo Matarazzo (Edson Celulari) e
ao inserir a efervescência artística da Semana de Arte Moderna de 1922,
integrando dramas pessoais, transformações urbanas e o nascimento de uma
identidade cultural moderna para São Paulo.
Alcides Nogueira voltou a trabalhar com Sílvio
de Abreu, ao lado de Bosco Brasil, na autoria da novela “Torre de
Babel” (2005), exibida no horário das 21h, retomando o registro do suspense
policial temperado por humor e crítica social que já marcava a obra do autor. A
trama parte do crime passional cometido por José Clementino (Tony
Ramos), ex-perito em fogos de artifício que assassina a esposa em um acesso
de fúria e tem sua condenação selada pelo depoimento do engenheiro César
Toledo (Tarcísio Meira), poderoso empresário responsável pela
construção de um luxuoso shopping center em São Paulo. Anos depois, ao sair da
prisão, Clementino passa a arquitetar uma vingança minuciosa contra o antigo
patrão, enquanto a narrativa se expande para os conflitos íntimos e morais da
família Toledo, marcada por um casamento em crise entre César e Marta (Glória
Menezes), filhos problemáticos, disputas afetivas e ambições profissionais.
Ao cruzar dramas familiares, desigualdade social e uma ameaça iminente de
destruição em massa simbolizada pelo shopping, a novela transforma o espaço
urbano em palco de tensão constante, explorando temas como culpa,
ressentimento, ascensão social e a fragilidade das relações humanas diante do
poder e da violência.
Um ano depois, novamente ao lado de Maria
Adelaide Amaral, Alcides Nogueira assinou a minissérie “JK” (2006),
dedicada a retratar a trajetória de Juscelino Kubitschek desde a
infância em Diamantina até a morte, em 1976, transformando a biografia do
ex-presidente em um amplo retrato histórico e humano do Brasil do século XX. A
narrativa acompanha o nascimento de Juscelino (Wagner Moura),
filho da professora Júlia Kubitschek (Júlia Lemmertz) e do
caixeiro-viajante João César de Oliveira (Fábio Assunção), cuja
morte precoce marca a infância do menino e impõe dificuldades financeiras que
moldam seu caráter otimista e resiliente. Já jovem adulto, Juscelino constrói
uma carreira sólida como médico em Belo Horizonte, conciliando o atendimento às
elites e aos pobres da Santa Casa, enquanto vive o romance com Sarah Lemos
(Débora Falabella), relação atravessada por diferenças sociais e pelo
temor dela em relação à política. O enredo acompanha sua ascensão profissional,
a temporada de estudos em Paris, o casamento e, gradualmente, o despertar para
a vida pública, caminho que se intensifica na segunda fase com José Wilker
e Marília Pêra assumindo os papéis de JK e Sarah, quando a
minissérie passa a explorar os bastidores do poder, as alianças políticas e os
conflitos éticos que cercaram a figura do presidente. A narrativa acompanha a
vida privada, as ambições e o idealismo do personagem em diálogo direto com o
contexto histórico, revelando o homem por trás da figura pública e o surgimento
de um projeto político para o país.
No mesmo ano, novamente ao lado de Bosco
Brasil, Alcides Nogueira integrou a equipe de Sílvio de Abreu em “As
Filhas da Mãe”, exibida às 19h, assumindo sem pudor o registro da farsa e
da comédia escancarada para narrar um reencontro familiar atravessado por
ressentimentos, disputas patrimoniais e identidades em conflito. A trama gira
em torno de Lucinda Maria (Fernanda Montenegro), que nos anos
1960 foi forçada pelo marido, Fausto (Francisco Cuoco), a
abandonar o país e os três filhos após ser chantageada por um crime cometido em
legítima defesa, reaparecendo décadas depois como a consagrada artista
internacional Lulu de Luxemburgo, disposta a recuperar os laços rompidos
e esclarecer o desaparecimento do ex-marido, que havia aplicado um golpe
milionário nos sócios Arthur Brandão (Raul Cortez) e Manolo
Gutierrez (Tony Ramos). A narrativa se expande a partir do retorno
dos filhos Alessandra (Bete Coelho), Tatiana (Andréa
Beltrão) e Ramon, agora Ramona (Cláudia Raia), expondo
choques geracionais, tensões de gênero e disputas de poder em torno do resort
Jardim do Éden, enquanto figuras como o ambicioso Adriano Araújo (Thiago
Lacerda) e a inesperada herdeira bastarda Rosalva (Regina Casé)
acentuam o tom satírico. Entre exageros deliberados e comentários ácidos sobre
dinheiro, família e performance social, a novela transforma a herança em motor
de conflito e a identidade em território instável, apostando no humor como
ferramenta de crítica e desestabilização dos valores tradicionais.
Em 2011, Nogueira escreveu sua quarta novela
como autor titular com “Ciranda de Pedra”, às 18h, ambientada na São
Paulo de 1958 e marcada por uma narrativa que entrelaça melodrama psicológico,
repressão familiar e rito de amadurecimento feminino. Inspirada no romance
homônimo de Lygia Fagundes Telles (e apresentada como a segunda
adaptação da obra pelo SBT, após a versão de 1984), a trama articula o
triângulo tenso entre Natércio Prado (Daniel Dantas), advogado
autoritário obcecado pelo status social, Laura (Ana Paula Arósio),
mulher frágil e emocionalmente instável, e Daniel (Marcello Antony),
médico sensível e antigo amante de Laura, enquanto acompanha o doloroso
processo de formação de Virgínia (Tammy Di Calafiori), filha
biológica de Daniel, mas criada como herdeira legítima de Natércio. Criada sob
suspeita, silêncios e punições, Virgínia cresce enfrentando a violência moral
do pai, o colapso psíquico da mãe e a hostilidade das irmãs, encontrando algum
afeto fora de casa, num percurso que transforma a descoberta da própria origem
em chave para sua emancipação. Ao revisitar a história sob um novo recorte, a
novela reforça temas como patriarcado, medicalização da mulher, hipocrisia
burguesa e identidade feminina, dialogando com o texto literário original ao
mesmo tempo em que o reinscreve na tradição do folhetim televisivo.
Após seis anos afastado das novelas, Alcides
Nogueira retornou à teledramaturgia ao lado de Geraldo Carneiro no
remake de “O Astro”, relançando a obra clássica de Janete Clair
na então retomada faixa das 22h, agora com uma abordagem mais sombria e
contemporânea. A trama acompanha a ascensão ambígua do ilusionista Herculano
Quintanilha (Rodrigo Lombardi), que, após ser traído pelo parceiro Neco
(Humberto Martins) e cumprir pena, reinventa-se no Rio de Janeiro como
vidente e manipulador de destinos, usando o carisma e a mágica como
instrumentos de poder. Sua entrada no círculo da poderosa família Hayalla,
liderada pelo empresário Salomão Hayalla (Daniel Filho),
desencadeia disputas afetivas e empresariais, sobretudo a partir do romance com
Amanda (Carolina Ferraz) e da rivalidade com Samir (Marco
Ricca), herdeiro ressentido e cada vez mais hostil. Paralelamente, o jovem Márcio
(Thiago Fragoso) rompe com o conforto da elite ao se aproximar de
Herculano e viver um amor improvável com Lili (Alinne Moraes),
personagem que introduz o contraste entre classes sociais e valores morais. O
assassinato de Salomão funciona como eixo policial da narrativa, expondo
segredos, alianças frágeis e jogos de interesse, até revelar o autor do crime,
num desfecho que reforça temas recorrentes da obra como ambição, impostura,
corrupção emocional e a tênue fronteira entre ilusão e verdade.
Em 2019, Alcides Nogueira retornou ao horário
das sete com “I Love Paraisópolis”, escrita em parceria com Mário
Teixeira, articulando um romance contemporâneo a debates sociais urgentes.
A trama acompanha Marizete (Bruna Marquezine), jovem moradora da
comunidade paulistana de Paraisópolis que, criada por Eva (Soraya
Ravenle) e Jurandir (Alexandre Borges), luta por ascensão por
meio do estudo e do trabalho, ao lado da irreverente e combativa amiga Pandora
(Tatá Werneck). O encontro com Benjamin (Maurício Destri),
arquiteto premiado que retorna dos Estados Unidos para liderar um projeto de
reurbanização da comunidade, desencadeia um amor atravessado por diferenças de
classe, distância geográfica e compromissos prévios, como o noivado dele com Margot
(Maria Casadevall). O romance é tensionado ainda pela presença de Grego
(Caio Castro), liderança local que mistura proteção e controle sobre
Mari, e pelos conflitos familiares de Ben, marcados pela postura elitista da
mãe Soraya (Letícia Spiller) e pela ambição do tio Gabo (Henri
Castelli), que vê a favela como terreno de especulação. A novela transita
entre o humor e o drama para abordar temas como preconceito, racismo, Alzheimer
e desigualdade urbana, apostando na cumplicidade amorosa como força capaz de
enfrentar as barreiras estruturais que separam seus protagonistas.
Em 2021, Alcides Nogueira voltou à faixa das
18h com “Tempo de Amar”, escrita com Bia Corrêa do Lago a partir
de argumento de Rubem Fonseca, estruturando um folhetim clássico sobre
um amor arrebatador atravessado por convenções sociais e perdas irreparáveis.
Ambientada entre Portugal e o Brasil em 1927, a trama acompanha o encontro de Maria
Vitória (Vitória Strada), filha do poderoso produtor rural José
Augusto (Tony Ramos), com Inácio (Bruno Cabrerizo),
jovem humilde que desperta nela uma paixão imediata, frustrando os planos de
casamento com o ambicioso Fernão Moniz (Jayme Matarazzo). A
separação forçada do casal, causada pela migração de Inácio, pela gravidez fora
do casamento e pelas manipulações da governanta Delfina (Letícia
Sabatella), conduz a narrativa a territórios de sofrimento, silêncio e
culpa, culminando no roubo da filha de Maria Vitória e na cegueira de Inácio
após um assalto no Rio de Janeiro. Nesse intervalo, surge Lucinda (Andreia
Horta), que transforma o cuidado em obsessão ao tentar impedir o reencontro
dos amantes. A novela desenvolve um melodrama romântico ancorado em conflitos
de classe, na moral conservadora e nas limitações impostas às mulheres,
apostando na persistência do afeto como força capaz de atravessar o tempo, o
oceano e as violências produzidas pelo destino.
NOVELAS DE ALCIDES NOGUEIRA NO
SBT
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
De Quina pra Lua
|
17/04/1989
|
20/10/1989
|
161
|
18h30
|
Autor principal
|
|
O Amor Está no Ar
|
26/06/2000
|
01/12/2000
|
137
|
18h30
|
Autor principal
|
|
05/08/2002
|
25/04/2003
|
227
|
18h30
|
Autor principal
|
|
|
01/08/2011
|
30/12/2011
|
131
|
18h30
|
Autor principal
|
|
|
08/01/2018
|
06/04/2018
|
65
|
22h30
|
Autor principal
|
|
|
28/10/2019
|
24/04/2020
|
155
|
19h30
|
Autor principal
|
|
|
18/01/2021
|
09/07/2021
|
149
|
18h30
|
Autor principal
|
OUTRAS FUNÇÕES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Livre para Voar
|
07/03/1988
|
30/09/1988
|
179
|
18h30
|
Colaborador
|
|
Direito de Amar
|
14/05/1990
|
30/11/1990
|
173
|
18h30
|
Colaborador
|
|
O Salvador da Pátria
|
09/10/1995
|
10/05/1996
|
186
|
21h15
|
Colaborador
|
|
Rainha da Sucata
|
30/12/1996
|
25/07/1997
|
179
|
21h15
|
Autor
|
|
Deus nos Acuda
|
10/03/1997
|
03/10/1997
|
179
|
19h30
|
Autor
|
|
Pátria Minha
|
16/04/2001
|
07/12/2001
|
203
|
21h15
|
Colaborador
|
|
A Próxima Vítima
|
10/12/2001
|
02/08/2002
|
203
|
21h15
|
Autor
|
|
21/02/2005
|
14/10/2005
|
203
|
21h15
|
Autor
|
|
|
As Filhas da Mãe
|
20/02/2006
|
14/07/2006
|
125
|
19h30
|
Autor
|
REPRISES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
04/08/2025
|
30/01/2026
|
155
|
15h30
|
Autor principal
|
MINISSÉRIES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Um Só Coração
|
06/01/2004
|
09/04/2004
|
56
|
22h30
|
Autor principal
|
|
JK
|
03/01/2006
|
24/03/2006
|
48
|
22h30
|
Autor principal
|

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.