domingo, 28 de outubro de 2012

LAURO CÉSAR MUNIZ


Lauro César Martins Amaral Muniz (Ribeirão Preto, 16 de janeiro de 1938), mais conhecido como Lauro César Muniz, é um escritor brasileiro de reconhecida trajetória na dramaturgia, com uma carreira construída em diferentes linguagens e meios de comunicação. Autor de telenovelas, roteiros cinematográficos e peças teatrais, desenvolveu uma produção marcada pela transição constante entre o teatro, a televisão e o cinema. Sua formação artística começou ainda na infância, quando teve os primeiros contatos com o teatro por meio do circo, dos esquetes e das pantomimas escritas e encenadas pelo palhaço Arrelia. A experiência despertou seu interesse pela dramaturgia e o levou a participar de um grupo de teatro amador. Aos 17 anos, venceu um concurso com a peça “O Ovo é um Galo”, texto inspirado na Revolução Constitucionalista de 1932, revelando precocemente sua vocação para a escrita teatral e seu interesse por temas ligados à história e à sociedade brasileira.
 
Morando em São Paulo, Lauro César Muniz conheceu Augusto Boal e passou a frequentar o Teatro de Arena, um dos espaços fundamentais para a renovação do teatro brasileiro naquele período. Por sugestão de Boal, ingressou na Escola de Arte Dramática da USP, onde entrou em contato com nomes fundamentais da crítica, da pesquisa e da formação teatral brasileira, como Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld, Sábato Magaldi e Alfredo Mesquita. Essa formação ampliou sua compreensão sobre dramaturgia e consolidou as bases de sua carreira profissional. Em 1963, terminou de escrever a comédia “O Santo Milagroso”, sua estreia como autor profissional. A peça foi encenada com grande sucesso pela companhia de Cacilda Becker, dando ao dramaturgo seu primeiro grande reconhecimento no circuito teatral. Pelo trabalho, recebeu naquele mesmo ano o Prêmio Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos Teatrais. Três anos depois, “O Santo Milagroso” chegou ao cinema pelas mãos do diretor Dionísio Azevedo, estabelecendo uma das primeiras pontes entre sua produção teatral e a linguagem cinematográfica.
 
Ainda na década de 1960, Muniz ampliou sua produção teatral com quatro novas peças montadas profissionalmente: “A Morte do Imortal” e “A Infidelidade ao Alcance de Todos”, ambas de 1966, “O Líder”, de 1968, e “A Comédia Atômica”, de 1969. Paralelamente, começou a experimentar a dramaturgia televisiva por meio do teleteatro, escrevendo trabalhos como “A Bruxa” (1961), “Bar de Esquina” (1961), “A Estátua” (1962) e “Terra de Cegos” (1966). Essas experiências contribuíram para sua adaptação a uma linguagem narrativa diferente daquela do palco e abriram caminho para sua consolidação como autor de televisão. Em 1966, estreou como novelista na TV Excelsior com “Ninguém Crê em Mim”, depois de ter seu nome sugerido à emissora por Dionísio Azevedo, com quem também dividiria outros projetos. Entre eles está a adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, realizada em 1968. Sua trajetória televisiva prosseguiu na TV Tupi, onde escreveu “Estrelas no Chão” (1967), e na TV Record, para a qual realizou a adaptação de “As Pupilas do Senhor Reitor” (1970) e escreveu “Os Deuses Estão Mortos” (1971).
 
Em 1972, Lauro César Muniz começou a trabalhar no SBT, escrevendo o seriado “Shazan, Xerife & Cia.”, baseado nos personagens criados por Walther Negrão e interpretados por Paulo José e Flávio Migliaccio. A experiência representou mais um passo na diversificação de sua carreira televisiva, que já transitava entre o teleteatro e a telenovela e passava a incorporar também o formato seriado. Ao longo desse percurso, sua formação essencialmente teatral permaneceu como uma das bases de sua escrita, contribuindo para uma trajetória marcada pela adaptação a diferentes gêneros, formatos e meios de expressão.
 
Três meses depois, foi convocado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para substituir o autor Bráulio Pedroso, que adoecera durante a realização da novela “O Bofe” na faixa das 22h. Foi o primeiro contato de Muniz com novelas. Em busca de uma vida melhor, a jovem viúva Guiomar (Betty Faria) circula por Copacabana e acaba se envolvendo com Dorival (Jardel Filho), também viúvo e mecânico que se passa por milionário para frequentar os círculos da Zona Sul. Sem saberem a verdadeira condição um do outro, os dois sustentam falsas identidades até que a farsa dá lugar a um sentimento verdadeiro. Paralelamente, Demétrius, o Grego (Cláudio Marzo), colega de oficina de Dorival, tenta conquistar Débora (Renée de Vielmond), mas é desprezado por sua condição financeira até ter o talento como artista plástico reconhecido. Entre outros personagens, Bandeira (José Wilker), um hippie que aplica golpes em milionários, e Maneco (Cláudio Cavalcanti), que planeja matar a tia rica, Carlota (Zilka Salaberry), movimentam histórias marcadas por humor, sátira e crítica às aparências e aos valores da vida urbana. A novela marcou a entrada de Lauro César Muniz no universo das telenovelas do SBT.
 
Somente cinco anos depois, Lauro César Muniz voltou a visitar o formato, desta vez em uma obra como autor titular: “Carinhoso” (1978), exibida na faixa das 19h, escrita especialmente para Regina Duarte e se baseava na comédia romântica “Sabrina Fair”, de Samuel Taylor. Cecília (Regina Duarte), filha de um dos criados de uma tradicional família carioca, cresce ao lado dos filhos dos patrões e se apaixona por Eduardo (Marcos Paulo), um playboy inconsequente que não leva o relacionamento a sério. Desiludida, ela parte para Nova York, onde se torna aeromoça e amadurece. Três anos depois, retorna ao Rio decidida a reconquistar Eduardo, mas encontra novos obstáculos. Humberto (Cláudio Marzo), irmão mais velho dele, também é apaixonado por Cecília, enquanto Marisa (Débora Duarte) disputa Eduardo com ela. A situação se complica com a chegada de Santiago Morales (Herval Rossano), diplomata argentino que tenta conquistá-la e acaba envolvendo Cecília em um casamento marcado por mentiras. A partir do retorno da protagonista, a novela desenvolve uma história de amadurecimento e desencontros amorosos, marcada pelas mudanças de Cecília e pelas consequências das escolhas de seus pretendentes.
 
Poucos meses depois, escreveu sua segunda novela às 19h: “Corrida do Ouro” (1979) foi uma comédia que começou com um enigmático testamento e criticou a busca alucinada por dinheiro. O excêntrico milionário Durval Pontes de Albuquerque morre aos 74 anos e deixa 75 milhões de cruzeiros para serem divididos igualmente entre cinco mulheres: Teresa (Aracy Balabanian), Isadora (Sandra Bréa), Patrícia (Renata Sorrah), Ilka (Maria Luiza Castelli) e Gilda (Célia Biar), duas delas sem sequer conhecê-lo. A herança, porém, vem acompanhada de condições que colocam as beneficiárias diante de escolhas difíceis. Teresa precisa concluir o curso de Jornalismo e assumir a responsabilidade de garantir o cumprimento das exigências do testamento. Patrícia deve se casar com Rafael (José Augusto Branco), funcionário de confiança de Durval que é apaixonado por ela. Isadora precisa abandonar a carreira artística e viver na fazenda Santa Cruz, enquanto Ilka é obrigada a retomar a convivência com a mãe, Kiki Vassourada (Zilka Salaberry), de quem está afastada há anos. Já Gilda, que vive na França com o marido André (Antônio Patiño) e a filha Wânia (Nívea Maria), precisa retornar definitivamente ao Brasil. A partir dessas condições, a novela transforma a disputa por uma fortuna em uma sucessão de conflitos pessoais, colocando as cinco herdeiras diante do dilema entre o dinheiro e as próprias escolhas.
 
Seu primeiro contato com tramas das 21h foi com “Escalada” (1982), novela que se desenrola por três décadas, destacando momentos da história do Brasil como a crise do café e a construção de Brasília. A obra acompanha Antônio Dias (Tarcísio Meira), caixeiro-viajante que chega a Rio Pardo, no interior de São Paulo, no início dos anos 1940, disposto a crescer na vida. Dinâmico e habilidoso nos negócios, ele entra em conflito com o poderoso cafeicultor Armando Magalhães (Milton Moraes) e se apaixona por Marina (Renée de Vielmond), irmã do rival. Pressionada por Armando, ela se casa com Paschoal Barreto (Cecil Thiré) e vai morar nos Estados Unidos, enquanto Antônio se casa com Cândida (Susana Vieira), dona da fazenda Santa Isabel. A crise do café leva Antônio a perder sua propriedade e deixar Rio Pardo. No Rio de Janeiro, ele se torna empresário e conhece o industrial italiano Valério Facchini (Sérgio Britto), com quem se lança na construção de Brasília. Anos depois, Antônio e Marina, ambos separados de seus cônjuges, se reencontram e retomam o romance. Já rico e poderoso, ele retorna a Rio Pardo ao lado dela e decide acertar contas com Armando, agora arruinado pelas sucessivas crises do café. Percorrendo décadas de transformações pessoais, econômicas e políticas, a novela acompanha a ascensão de um homem movido pela ambição, cuja conquista de poder acaba se sobrepondo até mesmo aos afetos que marcaram sua trajetória.
 
No ano seguinte, escreve “O Casarão” (1983). Marco na renovação da linguagem das telenovelas, a história mostra as questões vividas por cinco gerações de uma família no norte de São Paulo, tendo como trama central o romance entre Carolina (Sandra Barsotti) e João Maciel (Gracindo Jr.), um talentoso artista plástico que não se conforma com o provincianismo da cidade de Sapucaí, onde é ambientada a trama. A saga começa em 1900, quando o poderoso fazendeiro Deodato Leme (Oswaldo Loureiro) consegue levar a ferrovia até os limites da Fazenda Água Santa e constrói o casarão que acompanha a trajetória da família ao longo das décadas. Sua filha Maria do Carmo (Analu Prestes) é obrigada a se casar com Eugênio Galvão (Edson França), enquanto ama o imigrante português Jacinto (Tony Correia). Anos depois, a mesma imposição se repete com Carolina, que ama João Maciel, mas se casa com Atílio (Denis Carvalho), contribuindo para a decadência da família após a crise de 1929. Já em 1976, a propriedade está reduzida a uma fração de seu tamanho original e seus herdeiros planejam transformá-la em loteamento. É nesse contexto que João retorna à Água Santa para recuperar uma antiga escultura e reencontrar Carolina, reacendendo um amor interrompido décadas antes. A trajetória da família se confunde com as próprias transformações do país, enquanto o casarão, símbolo de uma época de poder rural, acaba ameaçado pela mesma modernização ferroviária que um dia impulsionou sua construção.
 
Em 1984, lança também na faixa das 21h a novela “Espelho Mágico”, onde ficção e realidade se confundiam: o autor usou metalinguagem para mostrar o universo da televisão, do teatro e do cinema. A trama acompanha os bastidores da montagem de uma peça e da fictícia novela “Coquetel de Amor”, estrelada por Diogo Maia (Tarcísio Meira) e Leila Lombardi (Glória Menezes), casal famoso cuja relação enfrenta a resistência de Bia (Lídia Brondi), filha adolescente de Leila, que deseja vê-la novamente ao lado de seu pai, o dramaturgo Jordão Amaral (Juca de Oliveira), autor da novela. Paralelamente, a veterana atriz Nora Pelegrini (Yoná Magalhães), atual mulher de Jordão, tenta retomar a carreira em um papel secundário, enquanto a ambiciosa Cynthia Levy (Sônia Braga) busca conquistar espaço a qualquer custo. A produção também acompanha Bruna Maria (Pepita Rodrigues), que abandona a vida doméstica ao receber uma proposta para voltar a atuar, e Diana Queiroz (Vera Fischer), ex-miss Brasil que tenta renovar sua carreira. Com atores, dramaturgos, jornalistas e outros profissionais ligados ao meio artístico, a novela transforma os bastidores do espetáculo em matéria de ficção e expõe as disputas, vaidades, frustrações e relações pessoais de um universo em que vida e representação constantemente se confundem.
 
Dois anos depois, retorna à faixa com “Os Gigantes” (1986), novela que criticou o excessivo poder das multinacionais e propôs uma discussão sobre a prática da eutanásia. Na trama, Paloma Gurgel (Dina Sfat) retorna ao Brasil após anos trabalhando no exterior como correspondente internacional e volta a Pilar, sua cidade natal, para acompanhar o irmão gêmeo, Fred (João Batista Vieira), que entra em coma após uma cirurgia no cérebro. Antes do procedimento, ele deixa uma mensagem pedindo que sua vida seja abreviada caso seu estado se torne irreversível. Diante do sofrimento do irmão, Paloma desliga os aparelhos que o mantêm vivo e passa a responder judicialmente pela acusação de eutanásia feita por sua cunhada Veridiana (Susana Vieira). O caso ganha repercussão nacional e transforma a jornalista no centro de um intenso debate público, enquanto ela reencontra Fernando Lucas (Tarcísio Meira) e Chico Rubião (Francisco Cuoco), amigos de infância que disputam seu amor. A chegada do jovem repórter Polaco (Lauro Corona) para cobrir o julgamento amplia ainda mais a dimensão pública do caso. A novela articula o drama familiar e os conflitos afetivos com questões éticas e sociais controversas, colocando a eutanásia no centro de uma discussão sobre os limites da vida, da autonomia e da intervenção humana.
 
Retorna ao horário das 19h com “Transas e Caretas” (1988), que narrou a história de Francisca Moura Imperial (Eva Wilma), uma rica empresária, e seus dois filhos, Jordão (Reginaldo Faria) e Tiago (José Wilker), que pouco se interessam pelos negócios da família. Os dois são fruto de relações diferentes de Francisca com Roberto (Paulo Goulart), seu ex-marido sedutor e parasita, que circula pela alta sociedade sem dinheiro próprio. Distantes da mãe e completamente diferentes entre si, os irmãos vivem em universos opostos. Jordão cultiva valores conservadores e um estilo de vida inspirado no século XIX, enquanto Tiago é fascinado por tecnologia e novidades eletrônicas. Preocupada com a continuidade da família, Francisca decide interferir na vida amorosa dos filhos e promove um concurso para encontrar a mulher ideal para um deles. A escolhida é Marília (Natália do Valle), jovem humilde, culta e determinada, que aceita a proposta inicialmente por interesse financeiro e passa a se envolver com os dois irmãos sem que eles saibam. Quando ambos se apaixonam por ela, Marília percebe que também está dividida e acaba escolhendo Tiago, abandonando Jordão no altar. A partir desses conflitos, os personagens passam por transformações que questionam suas próprias certezas, enquanto a disputa amorosa expõe as diferenças entre tradição, modernidade e os valores familiares.
 
Em 1989, formou dupla com o autor Daniel Más para escrever uma nova novela às 19h: “Um Sonho a Mais”. A parceria, no entanto, não deu certo. Daniel Más ficou até o capítulo 37 e Lauro César Muniz assumiu a novela trabalhando com Mário Prata e contando com a colaboração de Dagomir Marquezi. A peça “Volpone”, de Ben Jonson, autor inglês contemporâneo de William Shakespeare, serviu de inspiração para a história de um milionário excêntrico que se esforça para reaver seu amor. Antônio Carlos Volpone (Ney Latorraca) retorna ao Brasil depois de quase duas décadas no exterior para provar sua inocência na morte de Telles (Rubens Corrêa), pai de sua antiga noiva, Stela (Silvia Bandeira), e reconquistar a mulher, hoje casada com seu rival, Orlando Aranha (Fúlvio Stefanini). Para chamar atenção e investigar os acontecimentos do passado, Volpone finge estar gravemente doente e volta ao país dentro de uma redoma de plástico, despertando a curiosidade da imprensa e de todos que cobiçam sua fortuna. Com a ajuda de seu fiel secretário Mosca (Marco Nanini), ele assume diferentes disfarces para circular entre os envolvidos sem ser reconhecido. Enquanto a repórter Amélia Bicudo (Cissa Guimarães) investiga sua história, Volpone enfrenta Orlando e Renata (Susana Vieira), mulher que guarda segredos decisivos sobre a noite do suposto assassinato. A novela transforma a identidade múltipla de seu protagonista em motor da narrativa, combinando farsa, mistério e romance em torno da tentativa de limpar seu nome e recuperar o amor perdido.
 
Quando “Um Sonho a Mais” ainda estava no ar, Muniz foi convocado pelo SBT para escrever os 17 capítulos finais de “Sol de Verão”, da faixa das 21h, substituindo o autor Manoel Carlos, que havia ficado muito abalado com a morte do ator Jardel Filho, que interpretava o personagem principal da novela. Após decidir se separar de Virgílio (Cecil Thiré), Raquel (Irene Ravache) deixa Petrópolis com a filha Clara (Débora Bloch) e se muda para o Rio de Janeiro, onde se apaixona por Heitor (Jardel Filho), dono de uma oficina mecânica. O relacionamento enfrenta a resistência da família e dos amigos de Raquel devido à diferença de classe social, enquanto Virgílio não aceita o fim do casamento e tenta reconquistar a ex-mulher. Paralelamente, Abel (Tony Ramos), jovem deficiente auditivo que trabalha na oficina de Heitor, busca descobrir sua verdadeira identidade e se aproxima de Raquel, que passa a dar aulas no instituto onde ele estuda. A presença de Abel também desperta o interesse de Clara e da aeromoça Olívia (Carla Camuratti), ampliando os conflitos amorosos e familiares.
 
Em 1990, voltou a ter contato com novela das 22h ao desenvolver junto com Dias Gomes e Ferreira Gullar a trama de “Araponga”. Parodiando antigos filmes de espionagem e com uma trama bem-humorada, a novela faz um retrato da vida em um grande centro urbano, o Rio de Janeiro, através do policial federal Aristênio Catanduva (Tarcísio Meira), o Araponga. O atrapalhado detetive investiga a morte do senador Petrônio Paranhos (Paulo Gracindo), que sofre uma síncope durante uma entrevista com a jornalista Magali Santanna (Christiane Torloni) em um motel. Araponga, que trabalhou para o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o regime militar, tenta convencer seus superiores a reativar o órgão e passa a enxergar uma grande conspiração por trás da morte do senador. Suas teorias são alimentadas pelas mentiras de seu informante Tuca Maia (Taumaturgo Ferreira), um malandro que também se aproxima de Magali e do ambiente jornalístico. Enquanto investiga o caso, Araponga se apaixona pela jornalista, colocando em risco sua própria missão. O folhetim transforma seu protagonista em um anti-herói atrapalhado e obcecado por conspirações, usando o humor e a paródia para revisitar práticas e mentalidades herdadas do período autoritário.
 
Retorna à faixa das 21h três anos depois, com “Roda de Fogo” (1993). Ambientada no Rio de Janeiro, a trama narra a trajetória de Renato Villar (Tarcísio Meira), empresário bem-sucedido, frio e inescrupuloso, capaz de tudo para ampliar seu poder. Depois de enviar dólares para o exterior e eliminar um colaborador que ameaçava sua reputação, ele descobre que a Justiça possui um dossiê sobre irregularidades em uma de suas empresas. Com a ajuda do advogado Mário Liberato (Cecil Thiré), tão perigoso quanto ele, tenta escapar das consequências. Para isso, aproxima-se de Lúcia Brandão (Bruna Lombardi), juíza incorruptível responsável por julgar seu caso, inicialmente disposto a seduzi-la, suborná-la ou chantageá-la. O plano, porém, se volta contra o próprio empresário quando os dois se apaixonam. A situação muda radicalmente quando Renato descobre ter um angioma inoperável no cérebro e pouco tempo de vida. Diante da doença, ele abandona Carolina (Renata Sorrah), sua esposa ambiciosa, e decide transformar sua vida, ao mesmo tempo em que tenta eliminar os antigos aliados que o traíram e reconquistar o amor do filho Pedro (Felipe Camargo), fruto de seu relacionamento com Maura (Eva Wilma), ex-guerrilheira que retorna ao Brasil carregando os traumas da Ditadura Militar. “Roda de Fogo” foi escrita a partir de sinopse elaborada na Casa de Criação Janete Clair, fundada por Dias Gomes em 1985, e constrói sua narrativa em torno da transformação de um homem movido pelo poder quando confrontado com a própria finitude.
 
Em 1995, escreve mais uma novela para o horário nobre: “O Salvador da Pátria” se passa em duas fictícias cidades vizinhas, a próspera Ouro Verde e a modesta Tangará. A novela começa quando o homem mais poderoso da região, o deputado federal Severo Blanco (Francisco Cuoco), dono da maior fábrica de sucos do local, decide abafar os boatos sobre seu relacionamento extraconjugal com a jovem Marlene (Tássia Camargo). Para evitar suspeitas, ele a casa com o ingênuo boia-fria Sassá Mutema (Lima Duarte), que vive da colheita de laranjas. O caso, porém, chega aos ouvidos do inescrupuloso radialista Juca Pirama (Luís Gustavo), que passa a explorá-lo em seu programa. Quando Marlene e Juca são assassinados, Sassá se torna o principal suspeito e acaba preso. Sua inocência é comprovada com o apoio popular e da professora Clotilde (Maitê Proença), por quem se apaixona. A revelação de que Juca estava envolvido com corrupção e narcotráfico muda o destino de Sassá, que ganha popularidade e passa a ser disputado pelos políticos locais. Transformado em candidato a prefeito de Tangará, ele chega ao poder e, em vez de se deixar manipular, desenvolve uma atuação política própria, alimentando o sonho de chegar a Brasília. Paralelamente, Severo enfrenta uma complexa rede de interesses políticos e criminosos, enquanto o piloto João Matos (José Wilker) é injustamente envolvido em um esquema de tráfico de drogas e assume a identidade de Miro Ferraz para provar sua inocência. A novela parte de um homem simples lançado ao centro da política por uma sucessão de acontecimentos para construir uma narrativa marcada por poder, manipulação, corrupção e ascensão social, transformando a trajetória de Sassá em uma reflexão sobre a fabricação de lideranças e o uso político da imagem popular.
 
Atua pela primeira vez como supervisor de texto para o autor Carlos Lombardi na novela “Perigosas Peruas” (1996), exibida na faixa das 19h. Amigas desde a infância, Cidinha (Vera Fischer) e Leda (Silvia Pfeifer) se apaixonam pelo mesmo homem, Belo (Mário Gomes), que engravida as duas. No nascimento das filhas, Belo troca os bebês após a morte da filha de Cidinha, fazendo Leda acreditar que perdeu sua criança e provocando o afastamento das amigas. Anos depois, o retorno de Leda ao Brasil e a descoberta da troca reacendem a rivalidade entre elas, que voltam a disputar Belo e a guarda de Tuca (Natália Lage), criada sem conhecer sua verdadeira origem. Paralelamente, Belo se envolve com a família Torremolinos, ligada ao contrabando, enquanto o delegado Venâncio (Flávio Migliaccio) tenta desarticular a organização.
 
No mesmo ano, também escreveu e supervisionou o texto de Marcílio Moraes em “Sonho Meu”, às 18h. Fugindo do marido violento, Geraldo (José de Abreu), Cláudia (Patrícia França) tenta reconstruir a vida e recuperar a guarda da filha, Maria Carolina (Carolina Pavanelli), deixada em um orfanato pela cunhada Elisa (Nívea Maria). A menina encontra proteção no artesão Tio Zé (Elias Gleizer), que descobre que ela sofre de uma doença grave. Em busca de trabalho, Cláudia se aproxima dos irmãos Lucas (Leonardo Vieira) e Jorge (Fábio Assunção), apaixonando-se pelo primeiro e despertando a obsessão do segundo. Para garantir o tratamento da filha, ela se casa com Lucas, mas acaba acusada de bigamia e volta a correr o risco de perder Maria Carolina. Enquanto isso, Jorge descobre que foi criado como membro da família Candeias de Sá por causa de um segredo sobre sua origem.
 
Três anos depois, desloca-se pela primeira vez para a faixa das 18h com a novela “Quem é Você?” (1999), que aponta o conflito das irmãs Maria Luísa (Elizabeth Savala) e Beatriz (Cássia Kis), que reagem de formas diferentes ao abandono do pai, Nelson Maldonado (Francisco Cuoco), à morte prematura da mãe e a uma infância problemática. Maria Luísa cresce idealizando o pai e refugia-se em um mundo de fantasia, enquanto Beatriz reprime os próprios sentimentos e se fecha emocionalmente. Anos antes, durante um baile de máscaras em Veneza, um episódio de ciúme envolvendo os casais deixa consequências que vêm à tona quando Beatriz revela que seu filho Cadu (Pedro Brício) é, na verdade, filho de Afonso (Alexandre Borges), marido da irmã. A descoberta provoca uma grave crise em Maria Luísa e abala definitivamente seu casamento. A situação se complica com o retorno de Cíntia (Luiza Tomé), antiga paixão de Afonso, enquanto Beatriz aproveita a fragilidade da irmã para tentar afastá-la do marido. Maria Luísa, ainda apaixonada por Afonso, foge com a ajuda de Gabriel (Paulo Gorgulho), um homem misterioso que se apaixona por ela. A sinopse da trama foi idealizada por Ivani Ribeiro e sua colaboradora Solange Castro Neves por volta de 1993, mas a história acabou sendo engavetada. A trama foi retomada cinco anos depois como uma homenagem à Ivani. Solange escreveu apenas os 24 primeiros capítulos (um mês de novela). Diante da pouca repercussão da trama e, ao desentender-se com Lauro César Muniz, então supervisor de texto, foi afastada para que ele prosseguisse com os trabalhos como autor titular.
 
Volta a escrever para o horário das 19h após doze anos com “Zazá” (2001). Mesclando fatos históricos e fantasia, Lauro César Muniz concebeu Marisa Dumont (Fernanda Montenegro), a Zazá, uma milionária excêntrica, extrovertida e com grande poder de liderança. Apaixonada por aviões e convencida de ser filha de Santos Dumont, ela viaja a Paris para viabilizar seu ambicioso projeto BR-15, um avião atômico. Ao mesmo tempo, decide dar um rumo à vida de seus sete filhos, Dorival (Cecil Thiré), Renata (Fafy Siqueira), Milton (Antônio Calloni), Fabiana (Júlia Lemmertz), Solano (Alexandre Borges), Lavínia (Vanessa Lóes) e Sissy (Rachel Ripani), herdeiros acomodados que vivem sem grandes motivações. Para ajudá-los, Zazá contrata sete pessoas que chama de “anjos da guarda”, cada uma encarregada de auxiliar um dos filhos em sua vida pessoal e profissional. A chegada de Beatriz (Letícia Spiller), responsável por acompanhar Renata, porém, desperta a tensão de Fabiana, já que ela é uma antiga paixão de Hugo (Marcello Novaes), seu noivo, e retorna com um filho dele. Paralelamente, o advogado Silas Vadan (Ney Latorraca), inimigo declarado de Zazá, tenta destruir o projeto da milionária enquanto mantém uma ligação secreta com Ângelo (Jorge Dória), marido dela. Após romper com o companheiro, Zazá se aproxima do aviador Ulisses (Paulo Goulart), reencontrando o amor enquanto enfrenta as ameaças contra sua família e seus planos.
 
Zazá” foi inicialmente prevista para 161 capítulos, com exibição até o início de maio de 2002. No segundo trimestre daquele ano, quando Lauro César Muniz já encaminhava a história para a reta final, o SBT solicitou a extensão da novela em cerca de 50 capítulos. A medida tinha como objetivo prolongar sua permanência no ar julho de 2002 e, ao mesmo tempo, dar à produção de “Corpo Dourado”, atração que substituiria a novela, mais tempo para solucionar seus problemas iniciais de produção. Com a ampliação, Muniz precisou estender a narrativa além do planejamento original e postergar o desfecho da trama. Encerrada a novela, o autor decidiu não renovar seu contrato com o SBT, concluindo sua passagem pela emissora.
 
Em 2005, Lauro César Muniz assinou contrato com a TV Record e estreou na emissora no ano seguinte com “Cidadão Brasileiro” (2006). A novela acompanha Antônio Maciel (Gabriel Braga Nunes) ao longo de diferentes fases da vida, entre 1955 e 2006, desde a chegada a Guará e os primeiros passos em busca de ascensão social até a consolidação como empresário. Entre fracassos, disputas e mudanças de rumo, ele se envolve com Luiza (Paloma Duarte), mas se casa com Carolina (Carla Regina), torna-se prefeito e parte para Brasília durante a construção da nova capital, onde retoma sua trajetória de sucesso. Mais tarde, assume os negócios de Otávio Gama (Luís Carlos Miele), envolve-se com sua viúva, Manuela (Françoise Forton), e reencontra Luiza, com quem retoma o romance. Aos 80 anos, depois de alcançar uma posição de destaque, Antônio revisita sua trajetória e morre após reafirmar seu amor por ela.
 
Em 2009, Muniz lançou “Poder Paralelo”, centrada em Tony Castellamare (Gabriel Braga Nunes), que retorna ao Brasil em busca de vingança após perder a mulher e as duas filhas em um atentado ligado às suas supostas relações com a máfia. Enquanto o delegado Téo (Tuca Andrada) investiga a organização criminosa, Tony se aproxima da jornalista Lígia (Miriam Freeland), que passa a questionar o próprio envolvimento com um homem suspeito de crimes.
 
O autor apresentou em 2012 sua última novela: “Máscaras”, sobre o desaparecimento de Maria (Míriam Freeland) e seu filho e a tentativa de Otávio Benaro (Fernando Pavão) de descobrir os responsáveis pelo sequestro. Ao assumir a identidade do cunhado Martim (Heitor Martinez), ele se infiltra em uma organização criminosa interessada nas terras de sua família e se envolve com a misteriosa Nameless (Paloma Duarte). Marcada por problemas de direção, mudanças de horário e baixa audiência, a produção foi reduzida de 220 para 125 capítulos e teve seu texto reformulado durante a exibição. Após o encerramento, o contrato de Lauro César Muniz com a Record foi interrompido.
 
Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Lauro César Muniz construiu uma trajetória marcada pela transição entre o teatro, o cinema e a televisão, consolidando-se sobretudo como um dos nomes de destaque da dramaturgia brasileira. Sua formação teatral permaneceu como uma base importante de sua escrita, enquanto a televisão lhe permitiu experimentar diferentes gêneros, horários e formatos. Suas novelas frequentemente partiram de conflitos individuais para discutir questões mais amplas, como desigualdade social, poder econômico, corrupção, política, transformações culturais e dilemas éticos. Também se destacou pela disposição em incorporar recursos menos convencionais ao melodrama, como a metalinguagem, a sátira, a paródia e estruturas narrativas mais complexas. Da estreia profissional no teatro à última novela, sua obra revela um autor interessado em renovar a linguagem televisiva e em transformar a telenovela em espaço para conflitos sociais, políticos e humanos.
 
TRABALHOS DE LAURO CÉSAR MUNIZ
 
Novela        
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Carinhoso
23/01/1978
11/08/1978
173
19h30
Autor principal
Corrida do Ouro
22/01/1979
17/08/1979
179
19h30
Autor principal
Escalada
01/02/1982
17/09/1982
197
21h15
Autor principal
O Casarão
04/04/1983
14/10/1983
167
21h15
Autor principal
Espelho Mágico
16/04/1984
05/10/1984
149
21h15
Autor principal
Os Gigantes
30/06/1986
19/12/1986
149
21h15
Autor principal
Transas e Caretas
18/07/1988
27/01/1989
167
19h30
Autor principal
Um Sonho a Mais
14/08/1989
09/02/1990
155
19h30
Autor principal
Araponga
15/10/1990
15/03/1991
110
22h30
Autor principal
Roda de Fogo
17/05/1993
10/12/1993
179
21h15
Autor principal
O Salvador da Pátria
09/10/1995
10/05/1996
185
21h15
Autor principal
Quem é Você?
31/05/1999
03/12/1999
161
18h15
Autor principal
Zazá
29/10/2001
05/07/2002
215
19h30
Autor principal
 
 
COMO AUTOR
 
Novela        
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
O Bofe
10/07/1972
12/01/1973
135
22h30
Autor
Sol de Verão
07/08/1989
12/01/1990
137
21h15
Autor (17 cap.)
Sonho Meu
23/12/1996
08/08/1997
197
19h30
Autor e supervisor

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