domingo, 28 de outubro de 2012

DIAS GOMES


Filho do engenheiro Plínio Alves Dias Gomes e de Alice Ribeiro de Freitas Gomes, o dramaturgo Alfredo de Freitas Dias Gomes nasceu em Salvador, na Bahia, em 19 de outubro de 1922. Ainda na infância revelou uma vocação precoce para a literatura, escrevendo, aos dez anos de idade, seu primeiro conto, “As Aventuras de Rompe-Rasga”. Três anos depois, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade que se tornaria decisiva para sua formação intelectual e para o início de sua trajetória artística.
 
Em 1937, quando tinha apenas 15 anos, escreveu sua primeira peça teatral, “A Comédia dos Moralistas”, vencedora de um concurso promovido pelo Serviço Nacional de Teatro em parceria com a União Nacional dos Estudantes (UNE). A obra foi publicada dois anos mais tarde por iniciativa de um tio, por meio da Fênix Gráfica da Bahia, marcando oficialmente sua estreia como autor. Em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, voltou-se para temas políticos e sociais ao escrever o drama “Amanhã Será Outro Dia”, que abordava o avanço do nazismo, a invasão da França pelas tropas alemãs, o exílio de perseguidos políticos nas Américas, a atuação da Gestapo e o torpedeamento de navios brasileiros, evidenciando desde cedo o interesse por questões históricas e pelo compromisso crítico que caracterizaria sua produção.
 
A estreia profissional nos palcos ocorreu em 1942, com a comédia “Pé de Cabra”, montada inicialmente no Rio de Janeiro e posteriormente em São Paulo pela companhia de Procópio Ferreira. Antes de chegar ao público, entretanto, a peça enfrentou a censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão do Estado Novo responsável pelo controle das manifestações artísticas, que determinou o corte de dez páginas do texto. Apesar desse episódio, a parceria entre Dias Gomes e Procópio Ferreira revelou-se extremamente bem-sucedida. O dramaturgo assinou um contrato de exclusividade para escrever quatro peças por ano, ritmo que resultou, apenas em 1943, na criação de “Zeca Diabo”, “Doutor Ninguém”, “Um Pobre Gênio”, “Sinhazinha”, “Eu Acuso o Céu” e “João Cambão”. No mesmo período, ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, curso que abandonaria dois anos depois para dedicar-se integralmente à carreira artística.
 
Em 1944, aceitou o convite do dramaturgo Oduvaldo Vianna para integrar a recém-inaugurada Rádio Panamericana, em São Paulo. Na emissora, escreveu adaptações de peças, romances e contos para o programa “Grande Teatro Panamericano”, aprimorando sua habilidade narrativa e sua capacidade de dialogar com diferentes linguagens. No ano seguinte, transferiu-se para a Rádio Tupi-Difusora, onde colaborou com o programa “A Vida das Palavras”. Também nesse período filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, organização da qual faria parte até 1971 e cuja influência política e ideológica seria perceptível em grande parte de sua obra.
 
As convicções políticas, contudo, tiveram impacto direto sobre sua vida profissional. Em 1948, foi demitido da Rádio Tupi-Difusora por motivos políticos e passou a trabalhar na Rádio América. Pouco depois, assumiu a direção artística da Rádio Bandeirantes, onde escreveu diversos programas, entre eles “Aventura Musical” e “Sonho e Fantasia”. Paralelamente à intensa produção radiofônica, consolidou-se também como romancista com a publicação de “Duas Sombras Apenas” (1945), “Um Amor e Sete Pecados” (1946), “A Dama da Noite” (1947) e “Quando é Amanhã” (1948).
 
Em 13 de março de 1950, casou-se com a escritora Janete Clair, parceria que se tornaria uma das mais marcantes da história da dramaturgia brasileira. Logo após o casamento, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Dias Gomes trabalhou inicialmente na Rádio Tupi, pertencente aos Diários Associados, e depois nas rádios Tamoio e Clube. A estabilidade, porém, foi interrompida em abril de 1953, quando voltou a ser demitido após integrar uma delegação de escritores que visitou a União Soviética durante as comemorações do Primeiro de Maio.
 
Perseguido em razão de suas posições políticas, precisou recorrer ao uso de pseudônimos para continuar escrevendo profissionalmente, condição que se estendeu até 1956. Naquele ano, ingressou na Rádio Nacional, onde passou a colaborar com programas como “Todos Cantam sua Terra”, “Grande Teatro” e “Brasil, Espaço 2”. Permaneceu na emissora até 1964, consolidando-se como um dos principais autores do rádio brasileiro e ampliando sua experiência na construção de narrativas dramáticas voltadas ao grande público.
 
Em 1959, escreveu aquela que seria sua obra mais consagrada, “O Pagador de Promessas”. A peça foi adaptada para o cinema por Anselmo Duarte e transformou-se em um marco da cultura brasileira ao conquistar, em 1962, a Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes. A história acompanha Zé do Burro, interpretado na versão cinematográfica por Leonardo Villar, um humilde lavrador que promete carregar uma pesada cruz do interior do sertão baiano até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, caso seu burro doente sobrevivesse. Ao cumprir sua promessa, o personagem entra em conflito com as instituições religiosas e com os interesses da sociedade, dando origem a uma das narrativas mais emblemáticas do teatro nacional.
 
Considerada uma das obras-primas do teatro realista moderno, “O Pagador de Promessas” ultrapassou as fronteiras brasileiras. A peça foi traduzida para dez idiomas e encenada em diversos países, incluindo Estados Unidos e Polônia. Sua adaptação cinematográfica também alcançou reconhecimento internacional ao ser indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e conquistar prêmios em festivais realizados em cidades como São Francisco, Cartagena, Acapulco e Edimburgo, consolidando Dias Gomes como um dos dramaturgos brasileiros de maior projeção mundial.
 
Outros textos do autor também chegaram ao cinema nas décadas seguintes. “O Marginal” foi adaptado por Carlos Manga em 1974, com Tarcísio Meira no papel principal. Em 1985, Fábio Barreto dirigiu “O Rei do Rio”. Três anos depois, o cineasta cubano Pastor Vega levou às telas “Amor em Campo Minado”, originalmente concebida para o teatro, demonstrando a força e a permanência de sua dramaturgia em diferentes formatos audiovisuais.
 
Entre 1960 e 1964, Dias Gomes escreveu peças fundamentais de sua carreira, como “A Invasão”, “O Berço do Herói” e “O Santo Inquérito”, reafirmando seu interesse por temas sociais, políticos e históricos. Com a instauração da ditadura militar em 1964, teve seus direitos políticos cassados e passou a enfrentar um dos períodos mais difíceis de sua trajetória. Encontrou apoio na Editora Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, um importante foco de resistência intelectual ao regime. Na editora, exerceu o cargo de diretor de relações públicas e, ao lado do poeta Moacyr Félix, participou da criação da influente Revista Civilização Brasileira, publicada entre 1965 e 1968. A repressão, entretanto, intensificou-se. Sua peça “O Berço do Herói”, dirigida por Antônio Abujamra, foi proibida na própria noite de estreia. Em 1966, sua residência foi invadida e revistada por militares. No ano seguinte, mesmo após o reconhecimento internacional, a exibição de “O Pagador de Promessas” foi proibida em todo o território nacional, situação que perdurou até 1972. A censura também atingiu “A Invasão”, cuja liberação só ocorreria em 1978, tornando Dias Gomes um dos maiores símbolos da resistência artística brasileira diante da repressão política.
 
Em 1969, Dias Gomes iniciou uma nova etapa de sua carreira ao ingressar no SBT, dando início à sua trajetória na televisão, meio que ampliaria significativamente o alcance de sua dramaturgia e o consolidaria como um dos autores mais influentes da história do entretenimento brasileiro.
 
A primeira telenovela escrita por Dias Gomes para a emissora, assinada sob o pseudônimo de Stela Calderón, foi uma adaptação do romance “A Ponte dos Suspiros”, de Michel Zevaco, exibida no horário das dez. Ambientada na Veneza do século XVI, a trama acompanha Rolando Candiano (Carlos Alberto), herdeiro do dogado veneziano, que vê sua vida ser destruída ao ser traído pelo capitão Altieri (Jardel Filho), antigo amigo e rival apaixonado por Leonor Dandolo (Yoná Magalhães), noiva de Rolando. Acusado injustamente de traição e de assassinato, Rolando é condenado pela Inquisição e encarcerado na temida Ponte dos Suspiros, enquanto seu pai, Lourenço Candiano (Paulo Gonçalves), também é destituído do poder. Aproveitando-se da queda da família, Altieri ascende politicamente ao lado de Foscari (Mário Lago), novo doge de Veneza, e tenta obrigar Leonor a compartilhar seu destino, embora jamais consiga conquistar seu afeto. Paralelamente, Impéria (Arlete Salles), obcecada por Rolando, transforma seu amor não correspondido em perseguição e denuncia Leonor ao Santo Ofício, acusando-a de heresia e de assassinato, o que leva a jovem a enfrentar um julgamento que pode culminar na fogueira. Marcada por disputas políticas, conspirações e paixões destrutivas, a novela constrói um retrato de uma sociedade dominada pela intolerância, pela ambição e pelo abuso do poder, mostrando como interesses pessoais podem manipular a justiça e determinar o destino de vidas inteiras.
 
Sua segunda novela, “Verão Vermelho” (1969), foi a primeira assinada por Dias Gomes com o próprio nome e já evidenciava uma dramaturgia voltada para questões sociais sensíveis, ao abordar temas como o desquite, a reforma agrária e o candomblé. Ambientada na Bahia, a trama acompanha Adriana (Dina Sfat), que, após se casar com Carlos Serrano (Jardel Filho), passa a enfrentar um casamento marcado pela frieza do marido, pela perseguição da sogra Jandira (Ida Gomes) e pelo assédio constante do cunhado Irineu (Emiliano Queiroz). Em meio às dificuldades, Adriana conhece o médico Flávio (Paulo Goulart), por quem desenvolve um sentimento profundo, embora ambos tentem resistir à atração em respeito ao compromisso dela. A violenta disputa por terras entre as famílias Serrano e Morais culmina em um massacre ordenado por Jandira, do qual apenas Raul (Carlos Vereza) sobrevive. Anos depois, já adulto, ele retorna disposto a buscar justiça pela morte de seus familiares, enquanto Adriana reencontra Flávio e vê antigos sentimentos ressurgirem em meio ao desgaste definitivo de seu casamento. Gomes constrói um retrato das desigualdades sociais e das estruturas conservadoras que condicionam o destino de seus personagens, mostrando como escolhas individuais e tensões coletivas permanecem interligadas ao longo das gerações.
 
Na sequência, Dias Gomes escreveu também “Assim na Terra como no Céu” (1970), novela em que retratava a moda, os hábitos e os costumes da juventude dourada carioca. O ponto de partida da narrativa é a decisão do padre Vitor Mariano (Francisco Cuoco) de abandonar a batina para se casar com Nívea (Renata Sorrah). Pouco antes da cerimônia, porém, a jovem é encontrada morta, dando início a um mistério que mobiliza Vitor, o jornalista Araquém Teixeira (Ivan Cândido) e o delegado Zélio Fontoura (Urbano Lóes). As investigações revelam que, dias antes do crime, Nívea aceitara posar para uma revista estrangeira na tentativa de ajudar o pai, Emiliano (Paulo Padilha), a saldar um desfalque descoberto por seu patrão, o poderoso banqueiro Oliveira Ramos (Mário Lago). À medida que o caso avança, uma série de suspeitos entra em cena, entre eles Ricardinho (Carlos Vereza), inconformado com o fim do namoro, Renatão (Jardel Filho), envolvido no acordo das fotografias, Samuca (Paulo José), intermediário da negociação, Suzi (Maria Cláudia) e a atriz Jurema de Alencar (Arlete Salles). Em meio à investigação, Vitor acaba se aproximando de Helô (Dina Sfat), melhor amiga da vítima, enquanto outros conflitos familiares, amorosos e financeiros se entrelaçam ao assassinato. A novela utiliza o crime como ponto de convergência para discutir hipocrisia, ambição e os contrastes morais presentes na alta sociedade carioca.
 
Bandeira 2” (1971) marcou a televisão brasileira ao apresentar pela primeira vez um bicheiro como protagonista, o carismático Tucão (Paulo Gracindo), figura que dominava o bairro de Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A novela inspirou posteriormente a peça “O Rei de Ramos”, com músicas de Chico Buarque e Francis Hime, encenada em 1979 no Rio de Janeiro, novamente com Paulo Gracindo no papel principal. Na trama, Tucão trava uma disputa implacável pelo controle do jogo do bicho contra seu maior rival, Jovelino Sabonete (Felipe Carone), sem imaginar que seus filhos, Taís (Elizângela) e Márcio (Stepan Nercessian), vivem um romance proibido que desafia a rivalidade entre as duas famílias. Em outra frente, Noeli (Marília Pêra), uma taxista desquitada e independente, cruza o caminho de Zelito (José Wilker), filho introspectivo de Tucão, que encontra na pintura uma forma de lidar com seu isolamento. Enquanto o poderoso bicheiro tenta aproximá-los na esperança de mudar o comportamento do rapaz, personagens como Quidoca (Milton Moraes), fiel braço direito de Tucão, e Zé Catimba (Grande Otelo), figura tradicional da Imperatriz Leopoldinense, ajudam a compor o universo popular que cerca a narrativa. O folhetim explora as fronteiras entre poder, lealdade, violência e afeto, revelando como as disputas por influência acabam interferindo nas relações familiares e nos destinos individuais.
 
Em 1973, Dias Gomes escreveu a primeira novela brasileira produzida em cores, “O Bem-Amado”. Repleta de personagens marcantes, a obra deu origem a um seriado que permaneceu no ar durante cinco anos. Também entrou para a história como a primeira novela nacional exportada em sua versão gravada, já que, até então, apenas os roteiros eram comercializados para outros países. Apesar do enorme sucesso, sofreu interferências da Censura Federal, que proibiu, entre outras imposições, que Odorico (Paulo Gracindo) e Zeca Diabo (Lima Duarte) fossem chamados de Coronel e Capitão, respectivamente. Ambientada na fictícia Sucupira, no litoral baiano, a novela coloca no centro da narrativa o prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político populista e corrupto obcecado em inaugurar o cemitério da cidade, mas frustrado pela falta de um morto que justifique sua abertura. Enquanto enfrenta a oposição liderada pela família Medrado, por Lulu Gouveia (Lutero Luiz) e pelo jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), Odorico conta com a lealdade do atrapalhado secretário Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) e das irmãs Cajazeiras, Doroteia (Ida Gomes), Dulcineia (Dorinha Duval) e Judiceia (Dirce Migliaccio), que escondem uma curiosa relação com o prefeito. Na tentativa de concretizar seu objetivo, ele chega a convocar o lendário matador Zeca Diabo (Lima Duarte), sem imaginar que o antigo pistoleiro abandonou a violência e deseja apenas levar uma vida pacífica. Ao mesmo tempo, o idealista médico Juarez Leão (Jardel Filho) transforma-se em um obstáculo permanente ao salvar vidas e ainda conquista o coração de Telma (Sandra Bréa), filha de Odorico. Com humor satírico e personagens caricatos, a novela utiliza o absurdo para expor práticas políticas oportunistas, a manipulação do poder e os mecanismos do coronelismo, convertendo Sucupira em uma alegoria da realidade brasileira.
 
No ano seguinte, Gomes escreveu “O Espigão” (1974), considerada a primeira novela brasileira a abordar questões ambientais, utilizando a ficção para criticar o avanço desenfreado da urbanização, o progresso tecnológico das grandes cidades e a crescente desumanização das relações sociais. A narrativa tem como eixo o ambicioso empresário Lauro Fontana (Milton Moraes), que sonha construir o maior hotel do país sobre um amplo terreno em Botafogo, no Rio de Janeiro. Para viabilizar o projeto, ele precisa convencer os irmãos Camará a vender o antigo casarão da família. Enquanto Marcito (Carlos Eduardo Dolabella) vê na negociação uma oportunidade de enriquecer, Urânia (Vanda Lacerda), Baltazar (Ary Fontoura) e Tina (Susana Vieira) resistem por respeito ao desejo do pai e pela preservação da área verde que cerca a propriedade. Paralelamente, Lauro enfrenta conflitos em sua vida pessoal ao lado da esposa Cordélia (Suely Franco), frustrada pela impossibilidade de o casal ter filhos, e aproxima-se da golpista Lazinha Chave de Cadeia (Betty Faria), ao mesmo tempo em que desperta a vingança de sua antiga amante Elka Escobar (Rosamaria Murtinho), agora aliada de seu maior concorrente. Em outro núcleo, Léo (Cláudio Marzo), defensor da natureza, e Dora (Débora Duarte) vivem dificuldades que acabam cruzando o caminho do empresário em meio à disputa pela guarda de um bebê e aos interesses de diferentes personagens. O autor usa a novela para questionar os limites da modernização, discutindo o preço do progresso quando ele ameaça a memória, os vínculos humanos e o equilíbrio entre cidade e natureza.
 
Apesar da sucessão de êxitos que consolidava Dias Gomes como um dos principais autores da televisão brasileira, 1975 marcou um novo e decisivo confronto com a Censura Federal. Naquele ano, “Roque Santeiro”, adaptação da peça teatral “O Berço do Herói”, foi proibida na véspera de sua estreia na faixa das 21h, quando já contava com 51 capítulos escritos e cerca de 20 gravados. A interrupção abrupta transformou-se em um dos episódios mais emblemáticos da censura durante a ditadura militar. Apenas uma década depois, o autor descobriria que a proibição fora motivada por uma conversa telefônica interceptada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), na qual teria comentado com Nelson Werneck Sodré que conseguira driblar os censores ao adaptar para a televisão uma obra anteriormente vetada. Diante da decisão do governo, o SBT precisou reorganizar sua programação às pressas e substituiu a produção por “Sangue e Areia”, de Janete Clair, que originalmente seria exibida às 22 horas e possuía apenas sete capítulos gravados. O veto de “Roque Santeiro” tornou-se um dos casos mais simbólicos da interferência do regime militar sobre a produção cultural brasileira, evidenciando os limites impostos à liberdade criativa mesmo em obras já aprovadas para exibição.
 
Frustrado com o veto de “Roque Santeiro”, Dias Gomes reaproveitou parte de seus personagens em “Saramandaia”, exibida em 1976. A novela introduziu de forma marcante o realismo fantástico na teledramaturgia brasileira, incorporando à narrativa elementos característicos da literatura latino-americana por meio de personagens que explodiam, incendiavam-se, criavam asas ou expeliam formigas pelo nariz. Ambientada na fictícia Bole-Bole, na zona canavieira da Bahia, a história gira em torno do plebiscito que decidirá se a cidade passará a se chamar Saramandaia. A disputa coloca frente a frente os Mudancistas, liderados por Tenório Tavares (Sebastião Vasconcelos), o prefeito Lua Viana (Antônio Fagundes) e João Gibão (Juca de Oliveira), e os Tradicionalistas, comandados por Zico Rosado (Castro Gonzaga), em um conflito movido por interesses políticos e econômicos muito além da questão simbólica do nome. Enquanto a rivalidade se intensifica, acontecimentos extraordinários passam a fazer parte da rotina da cidade. João Gibão esconde um par de asas sob a corcunda. Dona Redonda (Wilza Carla) explode de tanto comer, Zico Rosado solta formigas pelo nariz, Seu Cazuza (Rafael de Carvalho) põe o coração para fora da boca quando se emociona, Marcina (Sônia Braga) entra em combustão ao despertar seu desejo e o professor Aristóbulo (Ary Fontoura) transforma-se em lobisomem nas noites de lua cheia. À medida que o embate pelo futuro da cidade alimenta superstições, disputas de poder e manipulações da fé popular, o autor utiliza o insólito como linguagem para satirizar a política, o coronelismo e o comportamento coletivo, transformando o fantástico em uma poderosa metáfora da realidade brasileira.
 
Naquele ano, a obra de Gomes consolidou sua projeção internacional, ampliando o reconhecimento que já vinha conquistando fora do Brasil. O prestígio alcançado por suas peças levou o autor a ser convidado para participar de um seminário dedicado à sua produção dramatúrgica na Penn State University, no estado norte-americano da Pensilvânia. O evento reuniu pesquisadores e estudiosos interessados em discutir sua dramaturgia, destacando a relevância de sua escrita para além das fronteiras brasileiras e reafirmando o alcance universal de temas como poder, autoritarismo, desigualdade social e resistência, recorrentes em sua obra.
 
Dias Gomes voltou a abordar a temática ecológica em 1978 ao escrever, em parceria com Walter George Durst, a novela “Sinal de Alerta”, que denunciava a degradação ambiental provocada pelo desenvolvimento industrial descontrolado. Última produção do núcleo das 22 horas do SBT, a obra coloca no centro da narrativa o empresário Tião Borges (Paulo Gracindo), um industrial que construiu sua fortuna à frente da Fertilit, fábrica de fertilizantes e inseticidas responsável por contaminar o bairro onde está instalada. A poluição provocada pela empresa desperta a reação dos moradores e dos trabalhadores, liderados pela operária Consuelo (Isabel Ribeiro) e pelo idealista Nilo Bastos (Eduardo Conde), que organizam manifestações em defesa da comunidade. Em paralelo, Tião enfrenta uma batalha pessoal contra a ex-esposa Talita Borges (Yoná Magalhães), jornalista e proprietária de um jornal que promove uma campanha pública contra a Fertilit e se recusa a conceder o divórcio desejado pelo empresário. Enquanto ele planeja uma nova vida ao lado da jovem Sulamita (Vera Fischer), outros personagens têm suas trajetórias atravessadas pelos impactos sociais e humanos da atuação da fábrica, entre eles o cineasta Chico Tibiriçá (Carlos Eduardo Dolabella), o roteirista Rudi Caravaglia (Jardel Filho), Selma (Renata Sorrah) e Vera (Bete Mendes). A novela relaciona degradação ecológica, interesses econômicos e conflitos sociais, evidenciando como a busca pelo lucro pode comprometer tanto o meio ambiente quanto a qualidade de vida das pessoas.
 
Em 1983, Dias Gomes enfrentou uma perda pessoal profunda com a morte de sua esposa, a novelista Janete Clair, vítima de câncer. Após o falecimento da autora, foi convidado pelo SBT para supervisionar a reta final de “Eu Prometo”, seu último trabalho na televisão, orientando a então estreante Gloria Perez, que havia sido assistente de Janete e assumiu a responsabilidade de concluir a novela. A história acompanha o deputado Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), político ambicioso que busca chegar ao Senado enquanto tenta preservar sua imagem pública. Ao mesmo tempo em que enfrenta a oposição de um rival e vive um casamento desgastado, envolve-se com outra mulher e vê antigos segredos familiares ressurgirem com o retorno do irmão Justo Dinard (Marcos Paulo).
 
Dois anos depois, Gomes assumiu a coordenação da recém-criada Casa de Criação Janete Clair, iniciativa concebida pelo SBT para estruturar um núcleo de desenvolvimento de textos e renovar a linguagem da dramaturgia da emissora. O projeto reunia escritores e roteiristas de diferentes áreas, entre eles Ferreira Gullar, Antônio Mercado e Doc Comparato, além de outros profissionais convidados, com a proposta de estimular novas abordagens narrativas, formar autores e ampliar o repertório temático das produções nacionais. A intenção era romper com fórmulas já consolidadas na televisão brasileira, investindo em formatos inovadores e em histórias que refletissem de maneira mais crítica e contemporânea a realidade do país. Apesar da ambição e do prestígio de seus integrantes, a iniciativa enfrentou dificuldades para transformar essas propostas em resultados duradouros dentro da estrutura da emissora. Assim, embora tenha representado uma das mais ousadas tentativas de repensar os rumos da teledramaturgia brasileira na década de 1980, a Casa de Criação Janete Clair foi descontinuada após apenas três anos de funcionamento.
 
Além dos argumentos, a atenção do autor também voltou-se para minisséries e seriados. Destes, escreveu 96 episódios de “O Bem-Amado” entre 1986 e 1991. Ambientada na pequena cidade litorânea de Sucupira, na Bahia, a série acompanha as manobras do prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político corrupto e ardiloso que recorre a todo tipo de artifício para preservar o poder e obter vantagens. Ao seu lado estão o fiel secretário Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) e as conservadoras Irmãs Cajazeiras, Doroteia (Ida Gomes), Judiceia (Dirce Migliaccio) e Zuzinha (Kleber Macedo), que sustentam a base política do prefeito apesar do discurso moralista. Em oposição a Odorico estão Lulu Gouveia (Lutero Luiz), sua esposa Conchita (Suely Franco), os jornalistas Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella) e Tuca Medrado (Fátima Freire) e, principalmente, Zeca Diabo (Lima Duarte), ex-matador de aluguel que se torna seu adversário mais temido.
 
Em 1987, Dias Gomes escreveu os 40 capítulos da mini-novela “Expresso Brasil”, concebida como uma ação publicitária do Grupo Têxtil Vicunha e exibida em pequenos episódios diários entre o Jornal Nacional e a novela das nove. Dirigida por Paulo José, a produção transformava uma viagem de trem em um encontro entre personagens marcantes da teledramaturgia brasileira, reunindo principalmente figuras criadas pelo próprio autor. Ao longo do percurso, reapareciam Tucão, Odorico Paraguaçu e Padre Hipólito, todos interpretados por Paulo Gracindo, além de Zeca Diabo e Sinhozinho Malta, vividos por Lima Duarte. A viagem também reunia Viúva Porcina (Regina Duarte), Professor Aristóbulo (Ary Fontoura), Zico Rosado (Castro Gonzaga), Dona Redonda (Wilza Carla), Jovelino Sabonete (Felipe Carone), Maria Machadão (Eloísa Mafalda), Nacib (Armando Bógus), Tonico Bastos (Fúlvio Stefanini) e outros personagens consagrados da televisão, ao lado do bilheteiro (Luís Magnelli) e de uma misteriosa passageira (Luísa Brunet), únicos papéis inéditos da história. O desfecho rompe a fronteira entre ficção e realidade quando os personagens descobrem que seu criador está no mesmo trem e passam a persegui-lo, culminando na participação do próprio Dias Gomes em cena. A obra celebra a memória da televisão brasileira e propõe uma reflexão bem-humorada sobre a relação entre autor, criação e permanência de figuras que ultrapassam os limites de suas histórias originais.
 
Ao completar 50 anos de carreira artística em 1989, Dias Gomes teve sua obra reunida em sete volumes publicados pela editora Bertrand Brasil.
 
Em 1990, Dias Gomes uniu-se a Ferreira Gullar e Lauro César Muniz para escrever a novela “Araponga”, mais uma tentativa de renovar a estrutura das telenovelas brasileiras ao incorporar o ritmo ágil e a dinâmica narrativa das minisséries. A trama tem início com a morte do senador Petrônio Paranhos (Paulo Gracindo), que sofre uma síncope durante uma entrevista concedida à jornalista Magali Santanna (Christiane Torloni) em um quarto de motel. O caso desperta o interesse do detetive Aristênio Catanduva (Tarcísio Meira), conhecido pelo codinome Araponga, um agente da Polícia Federal nostálgico dos tempos da ditadura militar e obcecado por teorias conspiratórias. Enquanto conduz uma investigação repleta de pistas falsas e suspeitos improváveis, Araponga conta com as informações duvidosas do malandro Tuca Maia (Taumaturgo Ferreira), ao mesmo tempo em que se aproxima de Magali, colocando em conflito seus deveres profissionais e seus sentimentos. Em meio à apuração, surgem interesses políticos, disputas de poder e uma rede de manipulações que envolve militares, empresários e figuras influentes, ampliando o mistério em torno da morte do senador. A novela examina os resquícios do autoritarismo, a cultura da vigilância e a fabricação de conspirações, refletindo sobre como paranoia, poder e desinformação podem moldar a percepção da realidade.
 
Após uma eleição bastante disputada contra Gilberto Mendonça Teles, foi eleito para a cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras em 1991, consolidando definitivamente seu prestígio como um dos principais dramaturgos e escritores brasileiros. A eleição representou o reconhecimento institucional de uma trajetória marcada por contribuições decisivas ao teatro, à televisão e à literatura nacional.
 
Apenas em 1992, com a liberdade propiciada pela abertura política, “Roque Santeiro” pôde ir ao ar. A novela atraiu milhões de espectadores interessados em acompanhar a trajetória de Roque Santeiro (José Wilker), Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e da Viúva Porcina (Regina Duarte), constituindo um marco na história da teledramaturgia brasileira. Autor da versão original, Dias Gomes escreveu apenas os 50 primeiros e os 50 últimos capítulos da nova versão, deixando o desenvolvimento dos 109 capítulos centrais a cargo de Aguinaldo Silva. Ambientada na fictícia Asa Branca, a narrativa acompanha o retorno de Roque, artesão de santos transformado em mártir após ser dado como morto ao enfrentar o bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). Ao reaparecer dezessete anos depois, ele ameaça desmontar o mito que fez prosperar a cidade e sustentou os interesses de seus principais líderes. Entre eles estão o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e o poderoso fazendeiro Sinhozinho Malta, responsável por incentivar Porcina a fingir que fora esposa do suposto santo para fortalecer sua imagem e ampliar os lucros obtidos com a devoção popular. O retorno de Roque também reacende o amor de Mocinha Abelha (Lucinha Lins), sua antiga noiva, enquanto abala a relação entre Sinhozinho e Porcina, que acaba se apaixonando pelo homem cuja morte ajudou a transformar em lenda. Paralelamente, a chegada de Matilde (Yoná Magalhães), que instala uma boate na cidade, de uma equipe de cinema interessada em filmar a saga do falso herói e de outros visitantes altera o cotidiano de Asa Branca e amplia os conflitos entre conservadorismo, interesses econômicos e mudanças sociais. Sátira à exploração política e comercial da fé popular, o folhetim utiliza a cidade como um microcosmo do Brasil para discutir coronelismo, manipulação religiosa, oportunismo político e a construção de mitos como instrumentos de poder.
 
Em 1994, retornou à faixa das 21h com “Mandala”. A trama é ambientada no Rio de Janeiro e é composta de duas fases: a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, e a Campanha da Legalidade, organizada para assegurar a posse de João Goulart. Nesse contexto, são apresentados Jocasta (Giulia Gam) e seu pai, o militante comunista Túlio Silveira (Gianfrancesco Guarnieri). Aos 18 anos, ela é estudante de Sociologia, filiada ao Partido Comunista Brasileiro e participa ativamente da campanha legalista. Também é apaixonada por Laio (Taumaturgo Ferreira), um rapaz de família rica que estuda Psicologia, é místico e não toma nenhuma decisão sem consultar seu guru Argemiro (Marco Antônio Pâmio). Quando Jocasta engravida, Laio recorre aos búzios e recebe a profecia de que o filho o matará e manterá uma relação amorosa com a própria mãe. Aterrorizado, ele desaparece com o bebê logo após o nascimento, contando com a cumplicidade de Argemiro. Vinte e cinco anos depois, Jocasta (Vera Fischer) tornou-se uma mulher bem-sucedida, mas permanece obcecada pela busca do filho desaparecido. Laio (Perry Salles) expandiu os negócios da família ao se aproximar do jogo clandestino, enquanto Argemiro (Carlos Augusto Strazzer) continua exercendo forte influência sobre sua vida. Sem conhecer sua verdadeira origem, Édipo (Felipe Camargo), criado por um casal adotivo e dotado de poderes paranormais, cruza o caminho do pai biológico e acaba provocando sua morte após um desentendimento. Em seguida, aproxima-se de Jocasta sem imaginar que ela é sua mãe, ao mesmo tempo em que desperta o interesse do bicheiro Tony Carrado (Nuno Leal Maia) e se torna o principal adversário de Argemiro. Inspirada no mito grego de Édipo e transportando-o para a realidade política e social brasileira, a novela reflete sobre destino, livre-arbítrio, culpa e poder, mostrando como a tentativa de escapar de uma profecia pode conduzir justamente à sua realização.
 
Gomes escreveu a minissérie “As Noivas de Copacabana”, que foi ao ar em 1998, narrando a história de um psicopata vivido por Miguel Falabella. O assassino é Donato Menezes, um respeitado restaurador de obras de arte que leva uma vida aparentemente tranquila ao lado da noiva Cinara (Patrícia Pillar) e da tia Eulália (Yara Lins), enquanto esconde a identidade de um serial killer que escolhe mulheres de diferentes origens por meio de anúncios de vestidos de noiva nos classificados. Após seduzi-las, ele segue um ritual macabro: convence as vítimas a vestir o traje de casamento, estrangula cada uma durante o encontro e abandona os corpos na porta de uma igreja. A investigação é conduzida pelo detetive França (Reginaldo Faria), que tenta provar a autoria dos crimes ao mesmo tempo em que enfrenta uma crise em seu casamento com Mariana (Zezé Polessa). Durante a caçada, ele se aproxima de Leiloca (Branca de Camargo) e a transforma em isca para atrair o criminoso, enquanto novas vítimas entram na mira de Donato.
 
Escreveu também a minissérie “Decadência” (1999), que denunciava os abusos de algumas seitas religiosas. A trama acompanha a derrocada da tradicional família Tavares Branco entre 1970 e 1992, período marcado por acontecimentos como a Ditadura Militar, a morte de Tancredo Neves, a eleição e o impeachment de Fernando Collor, enquanto os conflitos familiares e a ruína financeira expõem a decadência de seus antigos privilégios. A pedido de um padre, o desembargador Albano Tavares Branco (Rubens Corrêa) acolhe o órfão Mariel (Tiago Queiróz), criado por Jandira (Zezé Polessa) nos fundos da mansão. Já adulto, Mariel (Edson Celulari) torna-se motorista da família e se apaixona por Carla (Adriana Esteves), mas é expulso da casa após ser acusado de estupro. Anos depois, reencontra Jandira, aproxima-se de uma igreja evangélica e funda o Templo da Divina Chama, transformando-se rapidamente em um líder neopentecostal milionário ao explorar a fé de seus seguidores. Mesmo enriquecido, ele permanece obcecado pelos Tavares Branco e pelo amor de Carla, que rejeita seus métodos e suas ambições por defender valores e posições políticas opostos aos dele.
 
Três anos depois de “Mandala”, Dias Gomes retornou aos roteiros de novelas, desta vez em um horário até então inédito para sua carreira, às 18h, em parceria com Marcílio Moraes. “Irmãos Coragem” (1998) foi um remake da trama original de Janete Clair, levada ao ar na faixa das 21h em 1977. Ambientada na fictícia cidade mineira de Coroado, a novela acompanha os irmãos João Coragem (Marcos Palmeira), Jerônimo (Ilya São Paulo) e Duda (Marcos Winter), que desafiam o poder do fazendeiro Pedro Barros (Cláudio Marzo), autoridade máxima da região. O conflito se inicia quando João, um garimpeiro simples e determinado, encontra um grande diamante, imediatamente cobiçado por Pedro, que passa a perseguir toda a família Coragem, formada também por Sebastião (Orlando Vieira), Sinhana (Laura Cardoso) e Potira (Dira Paes), irmã de criação dos três irmãos. Enquanto João decide enfrentar o coronel pelas armas para recuperar a pedra e combater suas injustiças, Jerônimo ingressa na política de oposição na tentativa de enfraquecer o domínio do fazendeiro, dividido entre a paixão reprimida por Potira e o relacionamento com Lídia (Isabela Garcia). Paralelamente, Duda, jogador de futebol de sucesso, retorna à cidade e revive o romance com Ritinha (Gabriela Duarte), mas vê sua vida transformada por novos relacionamentos e pelas consequências de suas escolhas. O confronto se intensifica com a chegada de Lara (Letícia Sabatella), filha de Pedro Barros, que desenvolve diferentes personalidades e se apaixona por João, despertando ainda mais a fúria do pai. Transformado no centro da disputa pelo poder em Coroado, o diamante torna-se o símbolo da resistência dos Coragem contra a opressão, enquanto a novela articula conflitos familiares, políticos e afetivos para refletir sobre justiça, liberdade e a luta contra o autoritarismo.
 
Ainda em 1998, Dias Gomes escreveu a autobiografia “Apenas um Subversivo”, publicada pela editora Bertrand Brasil. Também adaptou o romance “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Jorge Amado, para uma minissérie exibida em 1999. A protagonista é Flor (Giulia Gam), professora de culinária casada com o boêmio Vadinho (Edson Celulari), cuja vida dedicada à farra, ao jogo e aos excessos termina com uma morte súbita durante o Carnaval. Viúva, Flor revive as lembranças da intensa relação que tiveram e acaba se casando com o farmacêutico Teodoro (Marco Nanini), homem íntegro, religioso e dedicado, que lhe oferece estabilidade, mas não desperta a mesma paixão. Consumida pela saudade, ela provoca involuntariamente o retorno do espírito de Vadinho, visível apenas para ela, passando a dividir sua vida entre o marido falecido e o atual. A adaptação preserva o tom bem-humorado e fantástico da obra de Jorge Amado para refletir sobre os conflitos entre desejo e convenções sociais, contrapondo paixão e segurança afetiva ao questionar a possibilidade de conciliar diferentes formas de amar.
 
Dias Gomes faleceu em 18 de maio de 1999, aos 76 anos, vítima de um acidente de carro em São Paulo. Sua morte interrompeu uma das trajetórias mais influentes da dramaturgia brasileira, construída ao longo de mais de cinco décadas de intensa produção para o teatro, a televisão, o rádio e a literatura. Autor de obras que marcaram gerações e ajudaram a consolidar a teledramaturgia nacional como espaço de reflexão social e política, deixou um legado caracterizado pela combinação entre crítica aos mecanismos de poder, humor, realismo fantástico e personagens que se tornaram referências da cultura brasileira.
 
O derradeiro trabalho assinado por Dias Gomes exibido no SBT foi “O Fim do Mundo” (2003), com 35 capítulos exibidos às 21h, tornando-se a novela mais curta da faixa. Os capítulos haviam sido escritos e entregues pelo autor em 1997 e permaneceram à espera de produção até serem utilizados como um “tapa-buraco” entre “Explode Coração”, de Glória Perez, cujo encerramento foi antecipado devido à problemas pessoais da autora, e “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa, que ainda não estava pronta para estrear. Ambientada na fictícia Tabacópolis, a trama acompanha a comoção provocada pela profecia do vidente Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti), que anuncia a iminência do fim do mundo. Enquanto acontecimentos inexplicáveis reforçam a crença na previsão e mergulham a cidade no caos, a prefeita Florisbela Mendonça (Vera Holtz) tenta conter o pânico da população. Em meio à histeria coletiva, Tião Socó (José Wilker) busca realizar antigos desejos ao investir na sedução da cunhada Gardênia (Bruna Lombardi), para desespero do marido dela, Tonico Laranjeira (Otávio Augusto). Ao mesmo tempo, Letícia (Paloma Duarte), filha de Tião, rompe o noivado com Josias (Guilherme Fontes) ao se apaixonar pelo peão Rosalvo (Maurício Mattar), desencadeando uma violenta vingança, enquanto Lucilene (Patrícia França) tenta consolidar a carreira de cantora e provar a inocência do namorado Nado (Marcos Winter), acusado de assassinato. Com realismo fantástico, humor e crítica social, a novela utiliza a expectativa do apocalipse para revelar a hipocrisia, os desejos reprimidos, o fanatismo e as contradições que emergem quando uma comunidade acredita estar diante de seus últimos dias.
 
Em 2019, a direção de dramaturgia do SBT decidiu prestar homenagem a Dias Gomes produzindo uma nova versão de um de seus maiores clássicos, na faixa das 22h: “Saramandaia”. Adaptada por Ricardo Linhares, a novela preserva a essência da obra original ao modernizar seus conflitos e personagens. O folhetim se passa na pequena Bole-Bole, onde a população se divide entre os Mudancistas, liderados por João Gibão (Sérgio Guizé) e pelo prefeito Lua Viana (Fernando Belo), que defendem a mudança do nome da cidade para Saramandaia, e os Tradicionalistas, comandados pelo coronel Zico Rosado (José Mayer), que lutam para manter a tradição. Enquanto o embate político mobiliza os moradores, fenômenos insólitos fazem parte da rotina local: João Gibão possui asas, Zico Rosado expele formigas pelo nariz, Dona Redonda (Vera Holtz) corre o risco de explodir de tanto comer, Tibério Vilar (Tarcísio Meira) cria raízes por nunca sair de casa, Cazuza (Marcos Palmeira) ameaça pôr o coração pela boca quando se emociona, Marcina (Chandelly Braz) entra em combustão ao sentir desejo e o professor Aristóbulo Camargo (Gabriel Braga Nunes) transforma-se em lobisomem. A volta da empresária Vitória Vilar (Lília Cabral) reacende a antiga rivalidade entre as famílias Vilar e Rosado e revive seu romance interrompido com Zico, desencadeando novos conflitos e revelações sobre o passado.
 
TRABALHOS DE DIAS GOMES NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
A Ponte dos Suspiros
09/06/1969
09/01/1970
155
22h30
Autor principal
Verão Vermelho
12/01/1970
17/07/1970
135
22h30
Autor principal
Assim na Terra como no Céu
20/07/1970
12/03/1971
170
22h30
Autor principal
Bandeira 2
25/10/1971
07/07/1972
185
22h30
Autor principal
O Bem-Amado
15/01/1973
28/09/1973
185
22h30
Autor principal
O Espigão
18/03/1974
18/10/1974
155
22h30
Autor principal
Saramandaia
22/03/1976
29/10/1976
160
22h30
Autor principal
Sinal de Alerta
24/04/1978
20/10/1978
130
22h30
Autor principal
Araponga
15/10/1990
15/03/1991
110
22h30
Autor principal
Roque Santeiro
23/03/1992
20/11/1992
209
21h15
Autor principal
Mandala
11/07/1994
10/02/1995
185
21h15
Autor principal
Irmãos Coragem
30/03/1998
25/09/1998
155
18h15
Autor principal
O Fim do Mundo
03/02/2003
14/03/2003
35
21h15
Autor principal
 
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Eu Prometo
19/09/1983
17/02/1984
110
22h30
Supervisão
07/01/2019
22/03/2019
55
22h30
Autor original

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