Filho do engenheiro Plínio Alves Dias Gomes
e de Alice Ribeiro de Freitas Gomes, o dramaturgo Alfredo de Freitas
Dias Gomes nasceu em Salvador, na Bahia, em 19 de outubro de 1922. Ainda na
infância revelou uma vocação precoce para a literatura, escrevendo, aos dez
anos de idade, seu primeiro conto, “As Aventuras de Rompe-Rasga”. Três
anos depois, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade que se
tornaria decisiva para sua formação intelectual e para o início de sua
trajetória artística.
Em 1937, quando tinha apenas 15 anos, escreveu
sua primeira peça teatral, “A Comédia dos Moralistas”, vencedora de um
concurso promovido pelo Serviço Nacional de Teatro em parceria com a União
Nacional dos Estudantes (UNE). A obra foi publicada dois anos mais tarde
por iniciativa de um tio, por meio da Fênix Gráfica da Bahia, marcando
oficialmente sua estreia como autor. Em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial,
voltou-se para temas políticos e sociais ao escrever o drama “Amanhã Será
Outro Dia”, que abordava o avanço do nazismo, a invasão da França pelas
tropas alemãs, o exílio de perseguidos políticos nas Américas, a atuação da
Gestapo e o torpedeamento de navios brasileiros, evidenciando desde cedo o
interesse por questões históricas e pelo compromisso crítico que caracterizaria
sua produção.
A estreia profissional nos palcos ocorreu em
1942, com a comédia “Pé de Cabra”, montada inicialmente no Rio de
Janeiro e posteriormente em São Paulo pela companhia de Procópio Ferreira.
Antes de chegar ao público, entretanto, a peça enfrentou a censura do Departamento
de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão do Estado Novo responsável pelo
controle das manifestações artísticas, que determinou o corte de dez páginas do
texto. Apesar desse episódio, a parceria entre Dias Gomes e Procópio
Ferreira revelou-se extremamente bem-sucedida. O dramaturgo assinou um
contrato de exclusividade para escrever quatro peças por ano, ritmo que
resultou, apenas em 1943, na criação de “Zeca Diabo”, “Doutor Ninguém”,
“Um Pobre Gênio”, “Sinhazinha”, “Eu Acuso o Céu” e “João
Cambão”. No mesmo período, ingressou na Faculdade de Direito do Rio de
Janeiro, curso que abandonaria dois anos depois para dedicar-se integralmente à
carreira artística.
Em 1944, aceitou o convite do dramaturgo Oduvaldo
Vianna para integrar a recém-inaugurada Rádio Panamericana, em São
Paulo. Na emissora, escreveu adaptações de peças, romances e contos para o
programa “Grande Teatro Panamericano”, aprimorando sua habilidade
narrativa e sua capacidade de dialogar com diferentes linguagens. No ano
seguinte, transferiu-se para a Rádio Tupi-Difusora, onde colaborou com o
programa “A Vida das Palavras”. Também nesse período filiou-se ao Partido
Comunista Brasileiro, organização da qual faria parte até 1971 e cuja
influência política e ideológica seria perceptível em grande parte de sua obra.
As convicções políticas, contudo, tiveram
impacto direto sobre sua vida profissional. Em 1948, foi demitido da Rádio
Tupi-Difusora por motivos políticos e passou a trabalhar na Rádio
América. Pouco depois, assumiu a direção artística da Rádio Bandeirantes,
onde escreveu diversos programas, entre eles “Aventura Musical” e “Sonho
e Fantasia”. Paralelamente à intensa produção radiofônica, consolidou-se
também como romancista com a publicação de “Duas Sombras Apenas” (1945),
“Um Amor e Sete Pecados” (1946), “A Dama da Noite” (1947) e “Quando
é Amanhã” (1948).
Em 13 de março de 1950, casou-se com a
escritora Janete Clair, parceria que se tornaria uma das mais marcantes
da história da dramaturgia brasileira. Logo após o casamento, o casal mudou-se
para o Rio de Janeiro, onde Dias Gomes trabalhou inicialmente na Rádio Tupi,
pertencente aos Diários Associados, e depois nas rádios Tamoio e Clube.
A estabilidade, porém, foi interrompida em abril de 1953, quando voltou a ser
demitido após integrar uma delegação de escritores que visitou a União
Soviética durante as comemorações do Primeiro de Maio.
Perseguido em razão de suas posições políticas,
precisou recorrer ao uso de pseudônimos para continuar escrevendo
profissionalmente, condição que se estendeu até 1956. Naquele ano, ingressou na
Rádio Nacional, onde passou a colaborar com programas como “Todos
Cantam sua Terra”, “Grande Teatro” e “Brasil, Espaço 2”.
Permaneceu na emissora até 1964, consolidando-se como um dos principais autores
do rádio brasileiro e ampliando sua experiência na construção de narrativas
dramáticas voltadas ao grande público.
Em 1959, escreveu aquela que seria sua obra
mais consagrada, “O Pagador de Promessas”. A peça foi adaptada para o
cinema por Anselmo Duarte e transformou-se em um marco da cultura
brasileira ao conquistar, em 1962, a Palma de Ouro no Festival
Internacional de Cinema de Cannes. A história acompanha Zé do Burro,
interpretado na versão cinematográfica por Leonardo Villar, um humilde
lavrador que promete carregar uma pesada cruz do interior do sertão baiano até
a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, caso seu burro doente sobrevivesse. Ao
cumprir sua promessa, o personagem entra em conflito com as instituições
religiosas e com os interesses da sociedade, dando origem a uma das narrativas
mais emblemáticas do teatro nacional.
Considerada uma das obras-primas do teatro
realista moderno, “O Pagador de Promessas” ultrapassou as fronteiras
brasileiras. A peça foi traduzida para dez idiomas e encenada em diversos
países, incluindo Estados Unidos e Polônia. Sua adaptação cinematográfica
também alcançou reconhecimento internacional ao ser indicada ao Oscar de
Melhor Filme Estrangeiro e conquistar prêmios em festivais realizados em
cidades como São Francisco, Cartagena, Acapulco e Edimburgo, consolidando Dias
Gomes como um dos dramaturgos brasileiros de maior projeção mundial.
Outros textos do autor também chegaram ao cinema
nas décadas seguintes. “O Marginal” foi adaptado por Carlos Manga
em 1974, com Tarcísio Meira no papel principal. Em 1985, Fábio
Barreto dirigiu “O Rei do Rio”. Três anos depois, o cineasta cubano Pastor
Vega levou às telas “Amor em Campo Minado”, originalmente concebida
para o teatro, demonstrando a força e a permanência de sua dramaturgia em
diferentes formatos audiovisuais.
Entre 1960 e 1964, Dias Gomes escreveu peças
fundamentais de sua carreira, como “A Invasão”, “O Berço do Herói”
e “O Santo Inquérito”, reafirmando seu interesse por temas sociais,
políticos e históricos. Com a instauração da ditadura militar em 1964, teve
seus direitos políticos cassados e passou a enfrentar um dos períodos mais
difíceis de sua trajetória. Encontrou apoio na Editora Civilização
Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, um importante foco de
resistência intelectual ao regime. Na editora, exerceu o cargo de diretor de
relações públicas e, ao lado do poeta Moacyr Félix, participou da
criação da influente Revista Civilização Brasileira, publicada entre
1965 e 1968. A repressão, entretanto, intensificou-se. Sua peça “O Berço do
Herói”, dirigida por Antônio Abujamra, foi proibida na própria noite
de estreia. Em 1966, sua residência foi invadida e revistada por militares. No
ano seguinte, mesmo após o reconhecimento internacional, a exibição de “O
Pagador de Promessas” foi proibida em todo o território nacional, situação
que perdurou até 1972. A censura também atingiu “A Invasão”, cuja
liberação só ocorreria em 1978, tornando Dias Gomes um dos maiores símbolos da
resistência artística brasileira diante da repressão política.
Em 1969, Dias Gomes iniciou uma nova etapa de
sua carreira ao ingressar no SBT, dando início à sua trajetória na televisão,
meio que ampliaria significativamente o alcance de sua dramaturgia e o
consolidaria como um dos autores mais influentes da história do entretenimento
brasileiro.
A primeira telenovela escrita por Dias Gomes
para a emissora, assinada sob o pseudônimo de Stela Calderón, foi uma
adaptação do romance “A Ponte dos Suspiros”, de Michel Zevaco,
exibida no horário das dez. Ambientada na Veneza do século XVI, a trama
acompanha Rolando Candiano (Carlos Alberto), herdeiro do dogado
veneziano, que vê sua vida ser destruída ao ser traído pelo capitão Altieri
(Jardel Filho), antigo amigo e rival apaixonado por Leonor Dandolo
(Yoná Magalhães), noiva de Rolando. Acusado injustamente de traição e de
assassinato, Rolando é condenado pela Inquisição e encarcerado na temida Ponte
dos Suspiros, enquanto seu pai, Lourenço Candiano (Paulo Gonçalves),
também é destituído do poder. Aproveitando-se da queda da família, Altieri
ascende politicamente ao lado de Foscari (Mário Lago), novo doge
de Veneza, e tenta obrigar Leonor a compartilhar seu destino, embora jamais
consiga conquistar seu afeto. Paralelamente, Impéria (Arlete Salles),
obcecada por Rolando, transforma seu amor não correspondido em perseguição e
denuncia Leonor ao Santo Ofício, acusando-a de heresia e de assassinato, o que
leva a jovem a enfrentar um julgamento que pode culminar na fogueira. Marcada
por disputas políticas, conspirações e paixões destrutivas, a novela constrói
um retrato de uma sociedade dominada pela intolerância, pela ambição e pelo
abuso do poder, mostrando como interesses pessoais podem manipular a justiça e
determinar o destino de vidas inteiras.
Sua segunda novela, “Verão Vermelho”
(1969), foi a primeira assinada por Dias Gomes com o próprio nome e já
evidenciava uma dramaturgia voltada para questões sociais sensíveis, ao abordar
temas como o desquite, a reforma agrária e o candomblé. Ambientada na Bahia, a
trama acompanha Adriana (Dina Sfat), que, após se casar com Carlos
Serrano (Jardel Filho), passa a enfrentar um casamento marcado pela
frieza do marido, pela perseguição da sogra Jandira (Ida Gomes) e
pelo assédio constante do cunhado Irineu (Emiliano Queiroz). Em
meio às dificuldades, Adriana conhece o médico Flávio (Paulo Goulart),
por quem desenvolve um sentimento profundo, embora ambos tentem resistir à
atração em respeito ao compromisso dela. A violenta disputa por terras entre as
famílias Serrano e Morais culmina em um massacre ordenado por Jandira, do qual
apenas Raul (Carlos Vereza) sobrevive. Anos depois, já adulto,
ele retorna disposto a buscar justiça pela morte de seus familiares, enquanto
Adriana reencontra Flávio e vê antigos sentimentos ressurgirem em meio ao
desgaste definitivo de seu casamento. Gomes constrói um retrato das
desigualdades sociais e das estruturas conservadoras que condicionam o destino
de seus personagens, mostrando como escolhas individuais e tensões coletivas
permanecem interligadas ao longo das gerações.
Na sequência, Dias Gomes escreveu também “Assim
na Terra como no Céu” (1970), novela em que retratava a moda, os hábitos e
os costumes da juventude dourada carioca. O ponto de partida da narrativa é a
decisão do padre Vitor Mariano (Francisco Cuoco) de abandonar a
batina para se casar com Nívea (Renata Sorrah). Pouco antes da
cerimônia, porém, a jovem é encontrada morta, dando início a um mistério que
mobiliza Vitor, o jornalista Araquém Teixeira (Ivan Cândido) e o
delegado Zélio Fontoura (Urbano Lóes). As investigações revelam
que, dias antes do crime, Nívea aceitara posar para uma revista estrangeira na
tentativa de ajudar o pai, Emiliano (Paulo Padilha), a saldar um
desfalque descoberto por seu patrão, o poderoso banqueiro Oliveira Ramos
(Mário Lago). À medida que o caso avança, uma série de suspeitos entra
em cena, entre eles Ricardinho (Carlos Vereza), inconformado com
o fim do namoro, Renatão (Jardel Filho), envolvido no acordo das
fotografias, Samuca (Paulo José), intermediário da negociação, Suzi
(Maria Cláudia) e a atriz Jurema de Alencar (Arlete Salles).
Em meio à investigação, Vitor acaba se aproximando de Helô (Dina Sfat), melhor
amiga da vítima, enquanto outros conflitos familiares, amorosos e financeiros
se entrelaçam ao assassinato. A novela utiliza o crime como ponto de
convergência para discutir hipocrisia, ambição e os contrastes morais presentes
na alta sociedade carioca.
“Bandeira 2” (1971) marcou a televisão
brasileira ao apresentar pela primeira vez um bicheiro como protagonista, o carismático
Tucão (Paulo Gracindo), figura que dominava o bairro de Ramos, na
Zona Norte do Rio de Janeiro. A novela inspirou posteriormente a peça “O Rei
de Ramos”, com músicas de Chico Buarque e Francis Hime,
encenada em 1979 no Rio de Janeiro, novamente com Paulo Gracindo no
papel principal. Na trama, Tucão trava uma disputa implacável pelo controle do
jogo do bicho contra seu maior rival, Jovelino Sabonete (Felipe
Carone), sem imaginar que seus filhos, Taís (Elizângela) e Márcio
(Stepan Nercessian), vivem um romance proibido que desafia a rivalidade
entre as duas famílias. Em outra frente, Noeli (Marília Pêra),
uma taxista desquitada e independente, cruza o caminho de Zelito (José
Wilker), filho introspectivo de Tucão, que encontra na pintura uma forma de
lidar com seu isolamento. Enquanto o poderoso bicheiro tenta aproximá-los na
esperança de mudar o comportamento do rapaz, personagens como Quidoca (Milton
Moraes), fiel braço direito de Tucão, e Zé Catimba (Grande Otelo),
figura tradicional da Imperatriz Leopoldinense, ajudam a compor o
universo popular que cerca a narrativa. O folhetim explora as fronteiras entre
poder, lealdade, violência e afeto, revelando como as disputas por influência
acabam interferindo nas relações familiares e nos destinos individuais.
Em 1973, Dias Gomes escreveu a primeira novela
brasileira produzida em cores, “O Bem-Amado”. Repleta de personagens
marcantes, a obra deu origem a um seriado que permaneceu no ar durante cinco
anos. Também entrou para a história como a primeira novela nacional exportada
em sua versão gravada, já que, até então, apenas os roteiros eram
comercializados para outros países. Apesar do enorme sucesso, sofreu
interferências da Censura Federal, que proibiu, entre outras imposições, que Odorico
(Paulo Gracindo) e Zeca Diabo (Lima Duarte) fossem
chamados de Coronel e Capitão, respectivamente. Ambientada na
fictícia Sucupira, no litoral baiano, a novela coloca no centro da narrativa o
prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político
populista e corrupto obcecado em inaugurar o cemitério da cidade, mas frustrado
pela falta de um morto que justifique sua abertura. Enquanto enfrenta a
oposição liderada pela família Medrado, por Lulu Gouveia (Lutero Luiz)
e pelo jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella),
Odorico conta com a lealdade do atrapalhado secretário Dirceu Borboleta
(Emiliano Queiroz) e das irmãs Cajazeiras, Doroteia (Ida Gomes),
Dulcineia (Dorinha Duval) e Judiceia (Dirce Migliaccio),
que escondem uma curiosa relação com o prefeito. Na tentativa de concretizar
seu objetivo, ele chega a convocar o lendário matador Zeca Diabo (Lima
Duarte), sem imaginar que o antigo pistoleiro abandonou a violência e
deseja apenas levar uma vida pacífica. Ao mesmo tempo, o idealista médico Juarez
Leão (Jardel Filho) transforma-se em um obstáculo permanente ao
salvar vidas e ainda conquista o coração de Telma (Sandra Bréa),
filha de Odorico. Com humor satírico e personagens caricatos, a novela utiliza
o absurdo para expor práticas políticas oportunistas, a manipulação do poder e
os mecanismos do coronelismo, convertendo Sucupira em uma alegoria da realidade
brasileira.
No ano seguinte, Gomes escreveu “O Espigão”
(1974), considerada a primeira novela brasileira a abordar questões ambientais,
utilizando a ficção para criticar o avanço desenfreado da urbanização, o
progresso tecnológico das grandes cidades e a crescente desumanização das
relações sociais. A narrativa tem como eixo o ambicioso empresário Lauro
Fontana (Milton Moraes), que sonha construir o maior hotel do país
sobre um amplo terreno em Botafogo, no Rio de Janeiro. Para viabilizar o
projeto, ele precisa convencer os irmãos Camará a vender o antigo casarão da
família. Enquanto Marcito (Carlos Eduardo Dolabella) vê na
negociação uma oportunidade de enriquecer, Urânia (Vanda Lacerda),
Baltazar (Ary Fontoura) e Tina (Susana Vieira)
resistem por respeito ao desejo do pai e pela preservação da área verde que
cerca a propriedade. Paralelamente, Lauro enfrenta conflitos em sua vida
pessoal ao lado da esposa Cordélia (Suely Franco), frustrada pela
impossibilidade de o casal ter filhos, e aproxima-se da golpista Lazinha
Chave de Cadeia (Betty Faria), ao mesmo tempo em que desperta a
vingança de sua antiga amante Elka Escobar (Rosamaria Murtinho),
agora aliada de seu maior concorrente. Em outro núcleo, Léo (Cláudio
Marzo), defensor da natureza, e Dora (Débora Duarte) vivem
dificuldades que acabam cruzando o caminho do empresário em meio à disputa pela
guarda de um bebê e aos interesses de diferentes personagens. O autor usa a
novela para questionar os limites da modernização, discutindo o preço do
progresso quando ele ameaça a memória, os vínculos humanos e o equilíbrio entre
cidade e natureza.
Apesar da sucessão de êxitos que consolidava
Dias Gomes como um dos principais autores da televisão brasileira, 1975 marcou
um novo e decisivo confronto com a Censura Federal. Naquele ano, “Roque
Santeiro”, adaptação da peça teatral “O Berço do Herói”, foi
proibida na véspera de sua estreia na faixa das 21h, quando já contava com 51
capítulos escritos e cerca de 20 gravados. A interrupção abrupta transformou-se
em um dos episódios mais emblemáticos da censura durante a ditadura militar.
Apenas uma década depois, o autor descobriria que a proibição fora motivada por
uma conversa telefônica interceptada pelo Serviço Nacional de Informações
(SNI), na qual teria comentado com Nelson Werneck Sodré que conseguira
driblar os censores ao adaptar para a televisão uma obra anteriormente vetada.
Diante da decisão do governo, o SBT precisou reorganizar sua programação às
pressas e substituiu a produção por “Sangue e Areia”, de Janete Clair,
que originalmente seria exibida às 22 horas e possuía apenas sete capítulos
gravados. O veto de “Roque Santeiro” tornou-se um dos casos mais
simbólicos da interferência do regime militar sobre a produção cultural
brasileira, evidenciando os limites impostos à liberdade criativa mesmo em
obras já aprovadas para exibição.
Frustrado com o veto de “Roque Santeiro”,
Dias Gomes reaproveitou parte de seus personagens em “Saramandaia”,
exibida em 1976. A novela introduziu de forma marcante o realismo fantástico na
teledramaturgia brasileira, incorporando à narrativa elementos característicos
da literatura latino-americana por meio de personagens que explodiam, incendiavam-se,
criavam asas ou expeliam formigas pelo nariz. Ambientada na fictícia Bole-Bole,
na zona canavieira da Bahia, a história gira em torno do plebiscito que
decidirá se a cidade passará a se chamar Saramandaia. A disputa coloca
frente a frente os Mudancistas, liderados por Tenório Tavares (Sebastião
Vasconcelos), o prefeito Lua Viana (Antônio Fagundes) e João
Gibão (Juca de Oliveira), e os Tradicionalistas, comandados por Zico
Rosado (Castro Gonzaga), em um conflito movido por interesses
políticos e econômicos muito além da questão simbólica do nome. Enquanto a
rivalidade se intensifica, acontecimentos extraordinários passam a fazer parte
da rotina da cidade. João Gibão esconde um par de asas sob a corcunda. Dona
Redonda (Wilza Carla) explode de tanto comer, Zico Rosado solta
formigas pelo nariz, Seu Cazuza (Rafael de Carvalho) põe o
coração para fora da boca quando se emociona, Marcina (Sônia Braga)
entra em combustão ao despertar seu desejo e o professor Aristóbulo (Ary
Fontoura) transforma-se em lobisomem nas noites de lua cheia. À medida que
o embate pelo futuro da cidade alimenta superstições, disputas de poder e
manipulações da fé popular, o autor utiliza o insólito como linguagem para
satirizar a política, o coronelismo e o comportamento coletivo, transformando o
fantástico em uma poderosa metáfora da realidade brasileira.
Naquele ano, a obra de Gomes consolidou sua
projeção internacional, ampliando o reconhecimento que já vinha conquistando
fora do Brasil. O prestígio alcançado por suas peças levou o autor a ser
convidado para participar de um seminário dedicado à sua produção dramatúrgica
na Penn State University, no estado norte-americano da Pensilvânia. O
evento reuniu pesquisadores e estudiosos interessados em discutir sua
dramaturgia, destacando a relevância de sua escrita para além das fronteiras
brasileiras e reafirmando o alcance universal de temas como poder,
autoritarismo, desigualdade social e resistência, recorrentes em sua obra.
Dias Gomes voltou a abordar a temática
ecológica em 1978 ao escrever, em parceria com Walter George Durst, a
novela “Sinal de Alerta”, que denunciava a degradação ambiental
provocada pelo desenvolvimento industrial descontrolado. Última produção do
núcleo das 22 horas do SBT, a obra coloca no centro da narrativa o empresário Tião
Borges (Paulo Gracindo), um industrial que construiu sua fortuna à
frente da Fertilit, fábrica de fertilizantes e inseticidas responsável por
contaminar o bairro onde está instalada. A poluição provocada pela empresa
desperta a reação dos moradores e dos trabalhadores, liderados pela operária Consuelo
(Isabel Ribeiro) e pelo idealista Nilo Bastos (Eduardo Conde),
que organizam manifestações em defesa da comunidade. Em paralelo, Tião enfrenta
uma batalha pessoal contra a ex-esposa Talita Borges (Yoná Magalhães),
jornalista e proprietária de um jornal que promove uma campanha pública contra
a Fertilit e se recusa a conceder o divórcio desejado pelo empresário. Enquanto
ele planeja uma nova vida ao lado da jovem Sulamita (Vera Fischer),
outros personagens têm suas trajetórias atravessadas pelos impactos sociais e
humanos da atuação da fábrica, entre eles o cineasta Chico Tibiriçá (Carlos
Eduardo Dolabella), o roteirista Rudi Caravaglia (Jardel Filho),
Selma (Renata Sorrah) e Vera (Bete Mendes). A novela
relaciona degradação ecológica, interesses econômicos e conflitos sociais,
evidenciando como a busca pelo lucro pode comprometer tanto o meio ambiente
quanto a qualidade de vida das pessoas.
Em 1983, Dias Gomes enfrentou uma perda pessoal
profunda com a morte de sua esposa, a novelista Janete Clair, vítima de
câncer. Após o falecimento da autora, foi convidado pelo SBT para supervisionar
a reta final de “Eu Prometo”, seu último trabalho na televisão,
orientando a então estreante Gloria Perez, que havia sido assistente de
Janete e assumiu a responsabilidade de concluir a novela. A história acompanha
o deputado Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), político ambicioso
que busca chegar ao Senado enquanto tenta preservar sua imagem pública. Ao
mesmo tempo em que enfrenta a oposição de um rival e vive um casamento
desgastado, envolve-se com outra mulher e vê antigos segredos familiares
ressurgirem com o retorno do irmão Justo Dinard (Marcos Paulo).
Dois anos depois, Gomes assumiu a coordenação
da recém-criada Casa de Criação Janete Clair, iniciativa concebida pelo
SBT para estruturar um núcleo de desenvolvimento de textos e renovar a
linguagem da dramaturgia da emissora. O projeto reunia escritores e roteiristas
de diferentes áreas, entre eles Ferreira Gullar, Antônio Mercado
e Doc Comparato, além de outros profissionais convidados, com a proposta
de estimular novas abordagens narrativas, formar autores e ampliar o repertório
temático das produções nacionais. A intenção era romper com fórmulas já
consolidadas na televisão brasileira, investindo em formatos inovadores e em
histórias que refletissem de maneira mais crítica e contemporânea a realidade
do país. Apesar da ambição e do prestígio de seus integrantes, a iniciativa
enfrentou dificuldades para transformar essas propostas em resultados
duradouros dentro da estrutura da emissora. Assim, embora tenha representado
uma das mais ousadas tentativas de repensar os rumos da teledramaturgia
brasileira na década de 1980, a Casa de Criação Janete Clair foi
descontinuada após apenas três anos de funcionamento.
Além dos argumentos, a atenção do autor também
voltou-se para minisséries e seriados. Destes, escreveu 96 episódios de “O
Bem-Amado” entre 1986 e 1991. Ambientada na pequena cidade litorânea de
Sucupira, na Bahia, a série acompanha as manobras do prefeito Odorico
Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político corrupto e ardiloso que
recorre a todo tipo de artifício para preservar o poder e obter vantagens. Ao
seu lado estão o fiel secretário Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz)
e as conservadoras Irmãs Cajazeiras, Doroteia (Ida Gomes), Judiceia
(Dirce Migliaccio) e Zuzinha (Kleber Macedo), que
sustentam a base política do prefeito apesar do discurso moralista. Em oposição
a Odorico estão Lulu Gouveia (Lutero Luiz), sua esposa Conchita
(Suely Franco), os jornalistas Neco Pedreira (Carlos Eduardo
Dolabella) e Tuca Medrado (Fátima Freire) e, principalmente, Zeca
Diabo (Lima Duarte), ex-matador de aluguel que se torna seu
adversário mais temido.
Em 1987, Dias Gomes escreveu os 40 capítulos da
mini-novela “Expresso Brasil”, concebida como uma ação publicitária do Grupo
Têxtil Vicunha e exibida em pequenos episódios diários entre o Jornal
Nacional e a novela das nove. Dirigida por Paulo José, a produção
transformava uma viagem de trem em um encontro entre personagens marcantes da
teledramaturgia brasileira, reunindo principalmente figuras criadas pelo
próprio autor. Ao longo do percurso, reapareciam Tucão, Odorico
Paraguaçu e Padre Hipólito, todos interpretados por Paulo
Gracindo, além de Zeca Diabo e Sinhozinho Malta, vividos por Lima
Duarte. A viagem também reunia Viúva Porcina (Regina Duarte),
Professor Aristóbulo (Ary Fontoura), Zico Rosado (Castro
Gonzaga), Dona Redonda (Wilza Carla), Jovelino Sabonete
(Felipe Carone), Maria Machadão (Eloísa Mafalda), Nacib
(Armando Bógus), Tonico Bastos (Fúlvio Stefanini) e outros
personagens consagrados da televisão, ao lado do bilheteiro (Luís Magnelli)
e de uma misteriosa passageira (Luísa Brunet), únicos papéis inéditos da
história. O desfecho rompe a fronteira entre ficção e realidade quando os
personagens descobrem que seu criador está no mesmo trem e passam a
persegui-lo, culminando na participação do próprio Dias Gomes em cena. A
obra celebra a memória da televisão brasileira e propõe uma reflexão
bem-humorada sobre a relação entre autor, criação e permanência de figuras que
ultrapassam os limites de suas histórias originais.
Ao completar 50 anos de carreira artística em
1989, Dias Gomes teve sua obra reunida em sete volumes publicados pela editora Bertrand
Brasil.
Em 1990, Dias Gomes uniu-se a Ferreira
Gullar e Lauro César Muniz para escrever a novela “Araponga”,
mais uma tentativa de renovar a estrutura das telenovelas brasileiras ao
incorporar o ritmo ágil e a dinâmica narrativa das minisséries. A trama tem
início com a morte do senador Petrônio Paranhos (Paulo Gracindo),
que sofre uma síncope durante uma entrevista concedida à jornalista Magali
Santanna (Christiane Torloni) em um quarto de motel. O caso desperta
o interesse do detetive Aristênio Catanduva (Tarcísio Meira),
conhecido pelo codinome Araponga, um agente da Polícia Federal
nostálgico dos tempos da ditadura militar e obcecado por teorias
conspiratórias. Enquanto conduz uma investigação repleta de pistas falsas e
suspeitos improváveis, Araponga conta com as informações duvidosas do malandro Tuca
Maia (Taumaturgo Ferreira), ao mesmo tempo em que se aproxima de
Magali, colocando em conflito seus deveres profissionais e seus sentimentos. Em
meio à apuração, surgem interesses políticos, disputas de poder e uma rede de
manipulações que envolve militares, empresários e figuras influentes, ampliando
o mistério em torno da morte do senador. A novela examina os resquícios do
autoritarismo, a cultura da vigilância e a fabricação de conspirações,
refletindo sobre como paranoia, poder e desinformação podem moldar a percepção
da realidade.
Após uma eleição bastante disputada contra Gilberto
Mendonça Teles, foi eleito para a cadeira de número 21 da Academia
Brasileira de Letras em 1991, consolidando definitivamente seu prestígio
como um dos principais dramaturgos e escritores brasileiros. A eleição
representou o reconhecimento institucional de uma trajetória marcada por
contribuições decisivas ao teatro, à televisão e à literatura nacional.
Apenas em 1992, com a liberdade propiciada pela
abertura política, “Roque Santeiro” pôde ir ao ar. A novela atraiu
milhões de espectadores interessados em acompanhar a trajetória de Roque
Santeiro (José Wilker), Sinhozinho Malta (Lima Duarte)
e da Viúva Porcina (Regina Duarte), constituindo um marco na
história da teledramaturgia brasileira. Autor da versão original, Dias Gomes
escreveu apenas os 50 primeiros e os 50 últimos capítulos da nova versão,
deixando o desenvolvimento dos 109 capítulos centrais a cargo de Aguinaldo
Silva. Ambientada na fictícia Asa Branca, a narrativa acompanha o retorno
de Roque, artesão de santos transformado em mártir após ser dado como morto ao
enfrentar o bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). Ao reaparecer
dezessete anos depois, ele ameaça desmontar o mito que fez prosperar a cidade e
sustentou os interesses de seus principais líderes. Entre eles estão o padre Hipólito
(Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura),
o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e o poderoso
fazendeiro Sinhozinho Malta, responsável por incentivar Porcina a fingir que
fora esposa do suposto santo para fortalecer sua imagem e ampliar os lucros
obtidos com a devoção popular. O retorno de Roque também reacende o amor de Mocinha
Abelha (Lucinha Lins), sua antiga noiva, enquanto abala a relação
entre Sinhozinho e Porcina, que acaba se apaixonando pelo homem cuja morte
ajudou a transformar em lenda. Paralelamente, a chegada de Matilde (Yoná
Magalhães), que instala uma boate na cidade, de uma equipe de cinema
interessada em filmar a saga do falso herói e de outros visitantes altera o
cotidiano de Asa Branca e amplia os conflitos entre conservadorismo, interesses
econômicos e mudanças sociais. Sátira à exploração política e comercial da fé
popular, o folhetim utiliza a cidade como um microcosmo do Brasil para discutir
coronelismo, manipulação religiosa, oportunismo político e a construção de
mitos como instrumentos de poder.
Em 1994, retornou à faixa das 21h com “Mandala”.
A trama é ambientada no Rio de Janeiro e é composta de duas fases: a renúncia
de Jânio Quadros, em agosto de 1961, e a Campanha da Legalidade,
organizada para assegurar a posse de João Goulart. Nesse contexto, são
apresentados Jocasta (Giulia Gam) e seu pai, o militante comunista
Túlio Silveira (Gianfrancesco Guarnieri). Aos 18 anos, ela é
estudante de Sociologia, filiada ao Partido Comunista Brasileiro e
participa ativamente da campanha legalista. Também é apaixonada por Laio
(Taumaturgo Ferreira), um rapaz de família rica que estuda Psicologia, é
místico e não toma nenhuma decisão sem consultar seu guru Argemiro (Marco
Antônio Pâmio). Quando Jocasta engravida, Laio recorre aos búzios e recebe
a profecia de que o filho o matará e manterá uma relação amorosa com a própria
mãe. Aterrorizado, ele desaparece com o bebê logo após o nascimento, contando
com a cumplicidade de Argemiro. Vinte e cinco anos depois, Jocasta (Vera
Fischer) tornou-se uma mulher bem-sucedida, mas permanece obcecada pela
busca do filho desaparecido. Laio (Perry Salles) expandiu os
negócios da família ao se aproximar do jogo clandestino, enquanto Argemiro
(Carlos Augusto Strazzer) continua exercendo forte influência sobre sua
vida. Sem conhecer sua verdadeira origem, Édipo (Felipe Camargo),
criado por um casal adotivo e dotado de poderes paranormais, cruza o caminho do
pai biológico e acaba provocando sua morte após um desentendimento. Em seguida,
aproxima-se de Jocasta sem imaginar que ela é sua mãe, ao mesmo tempo em que
desperta o interesse do bicheiro Tony Carrado (Nuno Leal Maia) e
se torna o principal adversário de Argemiro. Inspirada no mito grego de Édipo e
transportando-o para a realidade política e social brasileira, a novela reflete
sobre destino, livre-arbítrio, culpa e poder, mostrando como a tentativa de
escapar de uma profecia pode conduzir justamente à sua realização.
Gomes escreveu a minissérie “As Noivas de
Copacabana”, que foi ao ar em 1998, narrando a história de um psicopata
vivido por Miguel Falabella. O assassino é Donato Menezes, um
respeitado restaurador de obras de arte que leva uma vida aparentemente
tranquila ao lado da noiva Cinara (Patrícia Pillar) e da tia Eulália
(Yara Lins), enquanto esconde a identidade de um serial killer
que escolhe mulheres de diferentes origens por meio de anúncios de vestidos de
noiva nos classificados. Após seduzi-las, ele segue um ritual macabro: convence
as vítimas a vestir o traje de casamento, estrangula cada uma durante o
encontro e abandona os corpos na porta de uma igreja. A investigação é
conduzida pelo detetive França (Reginaldo Faria), que tenta
provar a autoria dos crimes ao mesmo tempo em que enfrenta uma crise em seu
casamento com Mariana (Zezé Polessa). Durante a caçada, ele se
aproxima de Leiloca (Branca de Camargo) e a transforma em isca
para atrair o criminoso, enquanto novas vítimas entram na mira de Donato.
Escreveu também a minissérie “Decadência”
(1999), que denunciava os abusos de algumas seitas religiosas. A trama
acompanha a derrocada da tradicional família Tavares Branco entre 1970 e 1992,
período marcado por acontecimentos como a Ditadura Militar, a morte de Tancredo
Neves, a eleição e o impeachment de Fernando Collor, enquanto os
conflitos familiares e a ruína financeira expõem a decadência de seus antigos
privilégios. A pedido de um padre, o desembargador Albano Tavares Branco
(Rubens Corrêa) acolhe o órfão Mariel (Tiago Queiróz),
criado por Jandira (Zezé Polessa) nos fundos da mansão. Já adulto,
Mariel (Edson Celulari) torna-se motorista da família e se
apaixona por Carla (Adriana Esteves), mas é expulso da casa após
ser acusado de estupro. Anos depois, reencontra Jandira, aproxima-se de uma
igreja evangélica e funda o Templo da Divina Chama, transformando-se
rapidamente em um líder neopentecostal milionário ao explorar a fé de seus
seguidores. Mesmo enriquecido, ele permanece obcecado pelos Tavares Branco e
pelo amor de Carla, que rejeita seus métodos e suas ambições por defender
valores e posições políticas opostos aos dele.
Três anos depois de “Mandala”, Dias
Gomes retornou aos roteiros de novelas, desta vez em um horário até então
inédito para sua carreira, às 18h, em parceria com Marcílio Moraes. “Irmãos
Coragem” (1998) foi um remake da trama original de Janete Clair,
levada ao ar na faixa das 21h em 1977. Ambientada na fictícia cidade mineira de
Coroado, a novela acompanha os irmãos João Coragem (Marcos Palmeira),
Jerônimo (Ilya São Paulo) e Duda (Marcos Winter),
que desafiam o poder do fazendeiro Pedro Barros (Cláudio Marzo),
autoridade máxima da região. O conflito se inicia quando João, um garimpeiro
simples e determinado, encontra um grande diamante, imediatamente cobiçado por
Pedro, que passa a perseguir toda a família Coragem, formada também por Sebastião
(Orlando Vieira), Sinhana (Laura Cardoso) e Potira
(Dira Paes), irmã de criação dos três irmãos. Enquanto João decide
enfrentar o coronel pelas armas para recuperar a pedra e combater suas
injustiças, Jerônimo ingressa na política de oposição na tentativa de
enfraquecer o domínio do fazendeiro, dividido entre a paixão reprimida por
Potira e o relacionamento com Lídia (Isabela Garcia).
Paralelamente, Duda, jogador de futebol de sucesso, retorna à cidade e revive o
romance com Ritinha (Gabriela Duarte), mas vê sua vida
transformada por novos relacionamentos e pelas consequências de suas escolhas.
O confronto se intensifica com a chegada de Lara (Letícia Sabatella),
filha de Pedro Barros, que desenvolve diferentes personalidades e se apaixona
por João, despertando ainda mais a fúria do pai. Transformado no centro da
disputa pelo poder em Coroado, o diamante torna-se o símbolo da resistência dos
Coragem contra a opressão, enquanto a novela articula conflitos familiares,
políticos e afetivos para refletir sobre justiça, liberdade e a luta contra o
autoritarismo.
Ainda em 1998, Dias Gomes escreveu a
autobiografia “Apenas um Subversivo”, publicada pela editora Bertrand
Brasil. Também adaptou o romance “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de
Jorge Amado, para uma minissérie exibida em 1999. A protagonista é Flor
(Giulia Gam), professora de culinária casada com o boêmio Vadinho
(Edson Celulari), cuja vida dedicada à farra, ao jogo e aos excessos
termina com uma morte súbita durante o Carnaval. Viúva, Flor revive as
lembranças da intensa relação que tiveram e acaba se casando com o farmacêutico
Teodoro (Marco Nanini), homem íntegro, religioso e dedicado, que
lhe oferece estabilidade, mas não desperta a mesma paixão. Consumida pela
saudade, ela provoca involuntariamente o retorno do espírito de Vadinho,
visível apenas para ela, passando a dividir sua vida entre o marido falecido e
o atual. A adaptação preserva o tom bem-humorado e fantástico da obra de Jorge
Amado para refletir sobre os conflitos entre desejo e convenções sociais,
contrapondo paixão e segurança afetiva ao questionar a possibilidade de
conciliar diferentes formas de amar.
Dias Gomes faleceu em 18 de maio de 1999, aos
76 anos, vítima de um acidente de carro em São Paulo. Sua morte interrompeu uma
das trajetórias mais influentes da dramaturgia brasileira, construída ao longo
de mais de cinco décadas de intensa produção para o teatro, a televisão, o
rádio e a literatura. Autor de obras que marcaram gerações e ajudaram a
consolidar a teledramaturgia nacional como espaço de reflexão social e
política, deixou um legado caracterizado pela combinação entre crítica aos
mecanismos de poder, humor, realismo fantástico e personagens que se tornaram
referências da cultura brasileira.
O derradeiro trabalho assinado por Dias Gomes
exibido no SBT foi “O Fim do Mundo” (2003), com 35 capítulos exibidos às
21h, tornando-se a novela mais curta da faixa. Os capítulos haviam sido
escritos e entregues pelo autor em 1997 e permaneceram à espera de produção até
serem utilizados como um “tapa-buraco” entre “Explode Coração”, de Glória
Perez, cujo encerramento foi antecipado devido à problemas pessoais da
autora, e “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa, que ainda não
estava pronta para estrear. Ambientada na fictícia Tabacópolis, a trama
acompanha a comoção provocada pela profecia do vidente Joãozinho de Dagmar
(Paulo Betti), que anuncia a iminência do fim do mundo. Enquanto
acontecimentos inexplicáveis reforçam a crença na previsão e mergulham a cidade
no caos, a prefeita Florisbela Mendonça (Vera Holtz) tenta conter
o pânico da população. Em meio à histeria coletiva, Tião Socó (José
Wilker) busca realizar antigos desejos ao investir na sedução da cunhada
Gardênia (Bruna Lombardi), para desespero do marido dela, Tonico
Laranjeira (Otávio Augusto). Ao mesmo tempo, Letícia (Paloma
Duarte), filha de Tião, rompe o noivado com Josias (Guilherme
Fontes) ao se apaixonar pelo peão Rosalvo (Maurício Mattar),
desencadeando uma violenta vingança, enquanto Lucilene (Patrícia
França) tenta consolidar a carreira de cantora e provar a inocência do
namorado Nado (Marcos Winter), acusado de assassinato. Com
realismo fantástico, humor e crítica social, a novela utiliza a expectativa do
apocalipse para revelar a hipocrisia, os desejos reprimidos, o fanatismo e as
contradições que emergem quando uma comunidade acredita estar diante de seus
últimos dias.
Em 2019, a direção de dramaturgia do SBT
decidiu prestar homenagem a Dias Gomes produzindo uma nova versão de um de seus
maiores clássicos, na faixa das 22h: “Saramandaia”. Adaptada por Ricardo
Linhares, a novela preserva a essência da obra original ao modernizar seus
conflitos e personagens. O folhetim se passa na pequena Bole-Bole, onde a
população se divide entre os Mudancistas, liderados por João Gibão (Sérgio
Guizé) e pelo prefeito Lua Viana (Fernando Belo), que
defendem a mudança do nome da cidade para Saramandaia, e os Tradicionalistas,
comandados pelo coronel Zico Rosado (José Mayer), que lutam para
manter a tradição. Enquanto o embate político mobiliza os moradores, fenômenos
insólitos fazem parte da rotina local: João Gibão possui asas, Zico Rosado
expele formigas pelo nariz, Dona Redonda (Vera Holtz) corre o
risco de explodir de tanto comer, Tibério Vilar (Tarcísio Meira)
cria raízes por nunca sair de casa, Cazuza (Marcos Palmeira)
ameaça pôr o coração pela boca quando se emociona, Marcina (Chandelly
Braz) entra em combustão ao sentir desejo e o professor Aristóbulo
Camargo (Gabriel Braga Nunes) transforma-se em lobisomem. A volta da
empresária Vitória Vilar (Lília Cabral) reacende a antiga
rivalidade entre as famílias Vilar e Rosado e revive seu romance interrompido
com Zico, desencadeando novos conflitos e revelações sobre o passado.
TRABALHOS DE DIAS GOMES NO SBT
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
A Ponte dos Suspiros
|
09/06/1969
|
09/01/1970
|
155
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Verão Vermelho
|
12/01/1970
|
17/07/1970
|
135
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Assim na Terra como no Céu
|
20/07/1970
|
12/03/1971
|
170
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Bandeira 2
|
25/10/1971
|
07/07/1972
|
185
|
22h30
|
Autor principal
|
|
O Bem-Amado
|
15/01/1973
|
28/09/1973
|
185
|
22h30
|
Autor principal
|
|
O Espigão
|
18/03/1974
|
18/10/1974
|
155
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Saramandaia
|
22/03/1976
|
29/10/1976
|
160
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Sinal de Alerta
|
24/04/1978
|
20/10/1978
|
130
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Araponga
|
15/10/1990
|
15/03/1991
|
110
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Roque Santeiro
|
23/03/1992
|
20/11/1992
|
209
|
21h15
|
Autor principal
|
|
Mandala
|
11/07/1994
|
10/02/1995
|
185
|
21h15
|
Autor principal
|
|
Irmãos Coragem
|
30/03/1998
|
25/09/1998
|
155
|
18h15
|
Autor principal
|
|
O Fim do Mundo
|
03/02/2003
|
14/03/2003
|
35
|
21h15
|
Autor principal
|
OUTRAS FUNÇÕES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Eu Prometo
|
19/09/1983
|
17/02/1984
|
110
|
22h30
|
Supervisão
|
|
07/01/2019
|
22/03/2019
|
55
|
22h30
|
Autor original
|

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