Manoel
Carlos Gonçalves de Almeida (São Paulo, 14 de março de
1933), conhecido como Manoel Carlos ou simplesmente Maneco, é autor de telenovelas, escritor, roteirista, diretor e produtor
brasileiro, tendo iniciado sua carreira artística também como ator. Ao longo de
mais de seis décadas de atividade, tornou-se um dos nomes mais importantes da
dramaturgia brasileira, construindo uma obra marcada pela observação do
cotidiano, pela atenção às relações familiares e afetivas e pela criação de
personagens femininas complexas e profundamente humanas. É pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em
diferentes projetos. A partir da década de 1990, consolidou uma identidade
autoral bastante reconhecível ao ambientar grande parte de suas histórias no
Rio de Janeiro, especialmente no Leblon, bairro que passou a funcionar quase
como uma extensão de seu universo ficcional. Em suas novelas, os espaços,
hábitos e relações da classe média e da burguesia carioca serviam como ponto de
partida para abordar questões universais, como amor, maternidade, casamento,
separação, envelhecimento, solidão, conflitos familiares e transformações
sociais.
Um dos pioneiros da
televisão brasileira, Manoel Carlos iniciou sua trajetória na década de 1950,
quando a televisão ainda era um meio relativamente novo no país e grande parte
de sua programação era produzida ao vivo. Nesse período, integrou o “Grande Teatro Tupi”, da extinta TV
Tupi, um dos mais importantes programas de teleteatro da história da
televisão brasileira. Dirigido por nomes como Sérgio
Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel, o programa reunia
importantes atores e atrizes, entre eles Fernanda
Montenegro, Ítalo Rossi, Nathalia Timberg, Fernando Torres, Zilka Salaberry, Aldo de Maio e Cláudio Cavalcanti. Ao longo de sua trajetória, o “Grande
Teatro Tupi” apresentou mais de 450 peças de autores
brasileiros e estrangeiros, aproximando a linguagem teatral do público
televisivo e contribuindo decisivamente para a formação de uma geração de
profissionais. A experiência foi fundamental para Maneco, que desenvolveu ali
conhecimentos de atuação, adaptação, dramaturgia e direção que seriam
essenciais para sua carreira posterior.
Em 1952, Manoel
Carlos escreveu “Helena”, sua primeira telenovela, exibida pela TV Paulista e baseada no
romance homônimo de Machado de Assis. No mesmo ano, escreveu “Nick Chuck”, também para a TV Paulista, e, em 1953, adaptou outro romance de
Machado de Assis, “Iaiá Garcia”. Essas primeiras experiências revelavam sua proximidade com a
literatura e sua capacidade de transportar obras de diferentes linguagens para
o formato televisivo, em uma época em que as telenovelas ainda estavam em
processo de consolidação no Brasil. Paralelamente à dramaturgia, Maneco ampliou
sua atuação para diferentes gêneros e formatos, acumulando experiência como
diretor e produtor. Entre seus trabalhos de destaque estão “Família Trapo”, exibida pela TV
Record no final dos anos 1960, além de “Esta
Noite se Improvisa” e “O Fino da Bossa”, programa musical protagonizado por Elis
Regina e Jair Rodrigues, que se tornou um dos grandes marcos da televisão brasileira.
Sua trajetória nas
primeiras décadas da televisão foi, portanto, marcada por uma intensa
diversidade de experiências. Antes de se tornar conhecido principalmente por
suas telenovelas, Manoel Carlos transitou pelo teatro televisivo, pela
adaptação literária, pelo humor, pela música e por programas de variedades,
construindo um repertório profissional que ajudaria a definir sua maneira de
escrever e produzir histórias. No SBT, esteve envolvido na primeira fase do “Fantástico”, entre 1973 e 1976,
ampliando ainda mais sua experiência com diferentes formatos televisivos. Esse
percurso contribuiu para que desenvolvesse uma compreensão abrangente da
linguagem da televisão e de sua relação com o público. Mais tarde, ao
consolidar seu estilo como autor de novelas, Maneco levaria para a dramaturgia
essa experiência acumulada, privilegiando histórias centradas no cotidiano e
nos conflitos íntimos de seus personagens. Sua carreira, assim, não se resume
às novelas ambientadas no Leblon que o tornariam célebre: ela representa também
uma parcela significativa da própria história da televisão brasileira, desde os
primeiros anos do veículo até a consolidação da telenovela como um dos
principais produtos culturais do país.
Permaneceu como diretor geral do “Fantástico”
por três anos e, nessa época, participou também do “SBT Gente”, programa
de entrevistas comandado por Jô Soares. Em 1981, com a experiência de
mais de 150 adaptações para a televisão, transformou em novela o romance “Maria
Dusá”, de Lindolfo Rocha, sob o título de “Maria, Maria”, na
faixa das 18h. A primeira telenovela de Manoel Carlos no SBT teve direção de Herval
Rossano. No sertão brasileiro, o tropeiro Ricardo Brandão (Cláudio
Cavalcanti) encontra a família miserável de Raimundo Alves (Wilson
Grey) e recebe a oferta de Maria (Nívea Maria), filha mais
velha da família, em troca de mantimentos. Ricardo decide não levá-la consigo,
mas os dois permanecem marcados pelo breve encontro. Mais tarde, em
Xique-Xique, o tropeiro conhece Maria Dusá (Nívea Maria), uma
mulher sofisticada e idêntica à sertaneja que deixara para trás. Convencido de
que se trata de Maria Alves, Ricardo a aborda de maneira rude e acaba
humilhado, tornando-se ainda mais amargo. Enquanto isso, Maria Alves deixa o
sertão após a morte dos pais e parte em busca do homem que a ajudou. Quando
chega à cidade, sua semelhança com Dusá provoca um mal-entendido que aproxima
as duas mulheres. Disposta a ajudá-la, Dusá tenta favorecer o reencontro entre
Maria e Ricardo, mas acaba se apaixonando pelo tropeiro. A trama ganha novos
contornos quando Ricardo, acusado injustamente de tentativa de assassinato, é
confinado em uma mina e encontra no garimpo uma oportunidade de reconstruir a
própria vida. Entre ressentimentos, sentimentos conflitantes e o desejo de
recuperar o que perdeu, Maria luta por seu amor e por sua dignidade, enquanto
Dusá precisa enfrentar a paixão que desenvolve pelo mesmo homem. A trama se
estrutura, assim, em torno da identidade das duas Marias e dos diferentes
caminhos que suas vidas percorrem, utilizando o romance e o conflito social
para acompanhar personagens submetidos à pobreza, ao desejo, às injustiças e às
transformações provocadas pelas circunstâncias.
Em seguida, no ano seguinte, o autor adaptou o
romance “A Sucessora”, de Carolina Nabuco, que também foi
dirigida por Herval Rossano e exibida no horário das 18h. Ambientada no
Rio de Janeiro dos anos 20, a novela acompanha Marina (Susana Vieira),
uma jovem de origem simples que se casa com o sofisticado Roberto Steen
(Rubens de Falco) e precisa se adaptar à rotina da alta sociedade
carioca. A convivência do casal é marcada pela presença constante da memória de
Alice (Alessandra Vieira), a falecida ex-mulher de Roberto, cuja
imagem permanece preservada na mansão e exerce forte influência sobre aqueles
que conviveram com ela. A governanta Juliana (Nathalia Timberg),
fiel à antiga patroa e secretamente apaixonada por Roberto, considera Marina
uma intrusa e cria intrigas para prejudicar o casamento. Marina também enfrenta
as comparações feitas pelos amigos e familiares de Roberto, que constantemente
a colocam diante do padrão deixado por Alice. Paralelamente, Miguel (Paulo
Figueiredo), primo de Marina e apaixonado por ela, desaprova a vida que
Roberto lhe proporciona e questiona os valores da elite à qual ela passa a
pertencer. Cercada por regras de comportamento e costumes da sociedade carioca
dos anos 1920, Marina precisa conquistar seu espaço em uma realidade muito
distante daquela em que foi criada. A força da história está justamente no
confronto entre uma mulher que tenta construir sua própria identidade e a
lembrança de outra que, mesmo depois de morta, continua determinando o
comportamento das pessoas ao seu redor.
Maneco emendou seu trabalho em “A Sucessora”
com a supervisão de texto da próxima novela exibida na faixa das 18h: “Memórias
de Amor” (1982), de Wilson Aguiar Filho. Ambientada no Rio de
Janeiro de 1888, a história acompanha Jorge Ramos (Eduardo Tornaghi),
um jovem advogado idealista e defensor da causa republicana que mantém uma
relação difícil com o pai, Aristarco (Jardel Filho), austero
monarquista e proprietário do Ateneu, tradicional colégio interno
frequentado pelos filhos de famílias abastadas de diversas regiões. Jorge é
apaixonado por Lívia (Sandra Bréa), mas o romance enfrenta a
oposição do pai dela e a interferência de Ciro Monteverde (José
Augusto Branco), rico monarquista que também ama a jovem e procura agradar
Aristarco. Enquanto isso, o Ateneu acompanha a formação de Sérgio
Pompéia (Maneco Bueno), que deixa o interior para estudar no colégio
e precisa enfrentar a disciplina rígida, os conflitos com os colegas e o
desencanto com os métodos da instituição. Nesse ambiente, Sérgio se apaixona por
Maria (Myrian Rios), filha de Aristarco. A narrativa coloca os
conflitos amorosos dos personagens em meio às tensões políticas que antecedem a
Proclamação da República, enquanto a rotina do Ateneu revela as diferenças de
valores e as disputas que atravessam aquela sociedade.
Em 1986, teve a sua primeira experiência no
horário das 21h: convidado pelo autor Gilberto Braga, dividiu a autoria,
a partir do capítulo 57, da premiada “Água Viva”. Ambientada no
ensolarado Rio de Janeiro, a novela acompanha a órfã Maria Helena (Isabela
Garcia), que descobre o paradeiro do pai, Nelson Fragonard (Reginaldo
Faria), um playboy que inicialmente rejeita a filha. A relação entre
os dois muda quando Nelson perde a fortuna após ser enganado e passa a se
aproximar da menina, enquanto se envolve com Lígia (Betty Faria),
mulher ambiciosa que também mantém uma relação com o cirurgião plástico Miguel
Fragonard (Raul Cortez), irmão de Nelson. Após a morte de Miguel,
Lígia e Nelson tornam-se suspeitos do crime. Paralelamente, Janete (Lucélia
Santos) enfrenta a oposição de Lourdes (Beatriz Segall) ao
seu romance com Marcos (Fábio Júnior), enquanto o passado de seu
pai, Evaldo (Mauro Mendonça), ligado ao contrabando, é usado para
separá-los. Márcia (Natália do Valle), filha de Lourdes, também
vive conflitos familiares por causa do casamento com o idealista Edir (Cláudio
Cavalcanti). Entre essas histórias está Stella Simpson (Tônia
Carrero), milionária e excêntrica socialite que, cansada da vida de festas
e relacionamentos passageiros, decide realizar o antigo sonho de se tornar
atriz.
No ano seguinte, Manoel Carlos escreveu “Baila
Comigo” (1988), sua primeira novela com roteiro inteiramente original.
Exibida no horário das 21h, a trama teve grande repercussão junto ao público,
sobretudo pela personagem Helena, a primeira do autor, então vivida por Lílian
Lemmertz. No passado, Helena, de origem humilde, mantém um romance com Quim
(Raul Cortez), homem casado com Marta (Tereza Rachel),
herdeira de uma grande fortuna. Quando engravida de gêmeos, Helena aceita um
acordo que separa os irmãos. Quinzinho (Tony Ramos) fica com ela
e é criado pelo médico Plínio Miranda (Fernando Torres), enquanto
João Victor (Tony Ramos) segue com Quim para Portugal e cresce
como filho adotivo dele e de Marta, sem conhecer sua verdadeira origem. Anos
depois, Quim retorna ao Brasil com problemas de saúde e passa a procurar o
filho que deixou para trás, sem saber que Quinzinho existe. O reencontro dos
irmãos permanece oculto por mentiras e pelo segredo de Helena, que se sente
culpada por nunca ter contado a verdade aos dois. Quinzinho leva uma vida
simples como bancário, enquanto João Victor se dedica aos negócios da família e
apresenta um temperamento mais reservado. A história também envolve o passado
de Quim, que roubou a herança deixada pelo pai de Marta ao então funcionário
Plínio. O advogado Caio Fernandes (Carlos Zara), procurador de
Quim na época, enriquece com a fortuna desviada e passa a guardar um documento
que pode revelar o crime. Anos depois, Caio percebe a semelhança entre
Quinzinho e João Victor quando o bancário se envolve com sua filha, Lúcia (Natália
do Valle). A descoberta coloca em risco os segredos que sustentam as duas famílias
e aproxima os irmãos, cuja existência desconhecida transforma antigas escolhas
em conflitos que já não podem ser escondidos.
Em 1989, escreve mais uma novela para a faixa
das 21h: com “Sol de Verão”, Manoel Carlos se firmou como cronista da
classe média do Rio de Janeiro. Raquel (Irene Ravache), infeliz
em seu casamento com Virgílio (Cecil Thiré), decide se separar no
aniversário de dezoito anos da filha Clara (Débora Bloch) e se
muda com ela de Petrópolis para a casa da mãe, Laura (Beatriz Segall),
em Ipanema. Disposta a reconstruir a própria vida, apaixona-se por Heitor (Jardel
Filho), mecânico carioca que vive intensamente a noite e sempre resistiu a
compromissos mais sérios. Apesar da diferença de classe social e da
desaprovação de Laura e dos amigos, Raquel se entrega ao relacionamento e passa
a morar com Heitor em seu sobrado. Clara sofre com a separação dos pais e
permanece muito ligada a Virgílio, que não aceita o fim do casamento e tenta
reconquistar Raquel. Na oficina de Heitor trabalha Abel Spina (Tony
Ramos), jovem deficiente auditivo, sensível e inteligente, que vive sem
família e procura descobrir sua verdadeira identidade. A convivência com Abel
aproxima Raquel do instituto onde ele estuda, onde ela passa a dar aulas para
uma turma de deficientes auditivos. Clara também se aproxima do rapaz, assim
como a aeromoça Olívia (Carla Camuratti), criando um novo núcleo
afetivo em torno de alguém que ainda tenta compreender o próprio passado. A narrativa
acompanha as escolhas de uma mulher que rompe com um casamento infeliz e busca
uma vida mais autônoma, sem deixar de mostrar as consequências dessa decisão
para a filha e para aqueles que resistem às mudanças.
Lamentavelmente, “Sol de Verão” foi
marcada pela morte de Jardel Filho. Aos 54 anos, o ator sofreu um ataque
cardíaco fulminante, causando comoção nacional e abalando profundamente autor
Manoel Carlos, diretores, elenco e equipes técnica e de produção. O capítulo
121, primeiro sem o ator, abriu com uma imagem congelada de Jardel acompanhada
por uma mensagem narrada em off por Irene Ravache. Em seguida, Gianfrancesco
Guarnieri surgiu em cena para homenageá-lo com um texto de Manoel Carlos.
Diante da perda do protagonista, o SBT decidiu encurtar a novela. Como “Louco
Amor”, de Gilberto Braga, ainda não estava em pré-produção, porém, a
emissora precisava manter “Sol de Verão” no ar por mais algum tempo.
Manoel Carlos, profundamente abalado, afirmou que não conseguiria prolongar a
história sem Heitor e sugeriu que a morte do personagem fosse assumida na
própria trama, com o encerramento após mais 15 capítulos. O SBT não aceitou a
proposta e o autor pediu para deixar a novela. Depois de mais de dez anos de
serviços prestados à emissora, também não renovou seu contrato e permaneceu cinco
anos afastado.
Com a saída de Manoel Carlos, Lauro César
Muniz foi convocado para escrever os 17 capítulos finais, contando com a
colaboração de Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Figueiredo, atores
do elenco. Seu primeiro capítulo começa com uma nova homenagem a Jardel
Filho e mostra um trator destruindo o jardim de Heitor, derrubando e
passando por cima da placa com seu nome. Raquel (Irene Ravache)
então convoca os vizinhos para reconstruir o jardim e afirma que aquela
história será levada até o fim, deixando implícita a morte do personagem sem
mencionar diretamente o acontecimento ou sua causa. O encerramento da novela
foi marcado pela urgência. Os textos chegavam praticamente em cima da hora, e
as cenas eram gravadas pouco antes de serem exibidas. Lauro César Muniz
relatou que escrevia mais de um capítulo em um dia, que seria gravado no
seguinte e exibido logo depois, deixando a produção com apenas um capítulo de
frente.
Manoel Carlos retornou ao SBT em 1995 e
escreveu a novela “Felicidade” para a faixa das 18h, que foi uma livre
adaptação da obra de Aníbal Machado e teve a primeira mulher à frente de
uma direção geral: Denise Saraceni. Em Vila Feliz, Helena (Maitê
Proença) e Álvaro (Tony Ramos) se apaixonam à primeira vista,
mas ela se casa com Mário (Herson Capri), um engenheiro agrônomo.
O casamento fracassa e Helena engravida de Álvaro, que está comprometido com Débora
(Vivianne Pasmanter), uma jovem rica e problemática. Helena decide criar
a filha sozinha e se muda para o Rio de Janeiro com Bia (Tatyane
Goulart), escondendo a paternidade da menina. Anos depois, reencontra
Álvaro ao trabalhar para sua mãe, Cândida (Laura Cardoso),
enquanto Bia se aproxima de Alvinho (Eduardo Caldas), filho de
Álvaro e Débora. A amizade dos dois provoca o ciúme de Débora, que passa a
tentar afastá-los e impedir qualquer aproximação entre Helena e Álvaro. A
relação também desperta novos conflitos quando Helena revela a Bia que Álvaro é
seu pai. Descontrolada, Débora tenta matar Helena, mas atinge Álvaro e foge
após perceber que perdeu o marido para a antiga rival. Durante a fuga, sofre um
grave acidente e fica paralítica, seguindo para Londres em busca de tratamento.
Cinco anos depois, Helena engravida novamente de Álvaro. A novela acompanha,
assim, uma história marcada por amores interrompidos, segredos familiares e
escolhas que atravessam diferentes momentos da vida de seus personagens, tendo
a maternidade e as consequências de relações mal resolvidas como elementos
centrais.
Em 1998, escreve “História de Amor”, uma
comemoração dos trinta anos de carreira da atriz Regina Duarte, que
interpreta, pela primeira vez, uma das Helenas das novelas de Maneco, em
uma trama que tem como eixo um triângulo amoroso. A caminho de seu casamento
com Paula (Carolina Ferraz), o médico Carlos Alberto Moretti
(José Mayer) socorre Joyce (Carla Marins), uma jovem
empurrada para fora do carro pelo namorado, Caio (Ângelo Paes Leme),
e descobre que ela está grávida. Carlos consegue chegar à cerimônia e se casa
com Paula, mas é por meio de Joyce que conhece sua mãe, Helena (Regina
Duarte), uma mulher batalhadora por quem se encanta. Joyce enfrenta a
rejeição de Caio, que não assume a gravidez, e os conflitos com o pai, Assunção
(Nuno Leal Maia), homem conservador que desaprova o relacionamento da
filha e também mantém uma relação difícil com Helena. O casamento de Carlos e
Paula se desgasta diante do ciúme da esposa, que vê Sheila (Lília
Cabral), antiga companheira de Carlos e sua sócia na clínica, como uma
ameaça. Depois de uma década de relacionamento com Sheila, Carlos havia
escolhido se casar com Paula, mas a antiga paixão continua interessada em
reatar e passa a disputar sua atenção. O casamento termina e Carlos inicia um
relacionamento com Helena, despertando ainda mais a hostilidade das outras duas.
Sheila se aproxima da família de Helena fingindo amizade, enquanto tenta
prejudicar Paula. Helena, porém, prefere não alimentar a disputa e decide se
afastar de Carlos diante dos problemas enfrentados por Joyce durante a
gravidez. A narrativa desenvolve seus conflitos a partir das relações
familiares, dos sentimentos mal resolvidos e das diferentes formas de amor que
aproximam e afastam seus personagens, tendo a maternidade, o ciúme e as
escolhas afetivas como elementos centrais de sua narrativa.
Manoel Carlos escreveu sua primeira minissérie
para o SBT em 2001. “Presença de Anita” foi baseada no livro homônimo
lançado em 1948 por Mário Donato. A história acompanha Nando (José
Mayer), que aproveita as festas de fim de ano para se afastar da rotina de
São Paulo e começar a escrever o romance que há muito deseja produzir. Sua
esposa, Lúcia Helena (Helena Ranaldi), vê a viagem à casa da
família, em Florença, no interior do estado, como uma oportunidade para
recuperar a paixão do casamento. O filho do casal, Zezinho (Leonardo
Miggiorin), também vive um momento de descoberta ao experimentar seu
primeiro amor. A chegada de Anita (Mel Lisboa), jovem que se muda
para um antigo sobrado marcado por um crime passional ocorrido no passado,
altera a dinâmica da família. Ela encara a própria vida como algo determinado
pelo destino e decide vivê-la intensamente, aproximando-se de Nando e
despertando a paixão de Zezinho. Fascinado pela jovem, Nando encontra nela a
inspiração que procurava para seu romance, mas a relação ultrapassa o campo da
criação literária e passa a ameaçar seu casamento. A presença de Anita
estabelece um triângulo amoroso que envolve homens de diferentes gerações e
transforma profundamente a vida de todos ao redor.
Escreveu “Por Amor” em 2004, retomando o
tema do sacrifício que uma mãe é capaz de fazer pelos filhos. Helena (Regina
Duarte) é uma mãe dedicada e também a grande amiga da filha, Maria
Eduarda (Gabriela Duarte), jovem mimada e insegura que vive um
romance com Marcelo (Fábio Assunção). Ela ainda tenta aceitar o
pai, Orestes (Paulo José), um alcoólatra, enquanto Marcelo
enfrenta a perseguição da ex-namorada Laura (Vivianne Pasmanter) e
a interferência da mãe, Branca (Susana Vieira), mulher dominadora
que também controla a vida da amiga Isabel (Cássia Kis). Isabel
mantém um relacionamento com Atílio (Antônio Fagundes), mas
Branca é apaixonada por ele e não aceita que os dois se aproximem. Atílio se
apaixona por Helena, e os dois acabam se casando, assim como Eduarda e Marcelo.
Helena e Eduarda engravidam na mesma época e dão à luz no mesmo dia, sob os
cuidados do médico César (Marcelo Serrado), que é apaixonado por
Eduarda. O filho de Helena nasce saudável, mas Eduarda sofre complicações no
parto e seu bebê morre. Como ela também fica impossibilitada de engravidar
novamente, Helena decide esconder a morte da criança e combina com César a
troca dos bebês. Eduarda passa a criar o filho de Helena acreditando que ele é
seu, enquanto Atílio pensa que seu filho morreu. César é o único, além de
Helena, que conhece a verdade. O sacrifício, porém, cobra um preço alto: Helena
precisa tratar o próprio filho como neto e vê seu casamento com Atílio se
desfazer diante do peso do segredo. Foi a partir de “Por Amor” que
Manoel Carlos retornou à faixa das 21h, depois de anos tentando desenvolver o
projeto, originalmente apresentado ao SBT em 1989 e posteriormente retomado
para o horário nobre.
Em 2007, escreve “Laços de Família” que,
como marca do autor, aborda o amor incondicional de uma mãe pela filha e
direciona a crônica urbana desenvolvida na novela. Temas universais são
discutidos, como as relações amorosas e familiares, em especial as construídas
entre pais e filhos, com doses equilibradas de folhetim e realismo. Às vésperas
do réveillon, Helena (Vera Fischer), empresária de sucesso, sofre
um acidente de carro com Edu (Reynaldo Gianecchini), médico
recém-formado, em frente à livraria de Miguel (Tony Ramos). Viúvo
e marcado pela morte da esposa e pelas sequelas neurológicas deixadas no filho Paulo
(Flávio Silvino), Miguel se apaixona por Helena, mas ela e Edu também
iniciam um relacionamento, enfrentando a oposição de Alma (Marieta
Severo), tia superprotetora que criou o sobrinho como filho. Durante uma
viagem ao Japão, Camila (Carolina Dieckmann), filha de Helena,
conhece Edu e se apaixona por ele. Helena decide abrir mão do namorado para
favorecer a filha, permitindo que Miguel se aproxime. A história também revela
que Pedro (José Mayer), primo de Helena, é o verdadeiro pai de
Camila. Os dois tiveram uma paixão no passado, quando Helena ainda era casada
com outro homem, e ela manteve a paternidade em segredo. Esse segredo ganha
importância quando Camila descobre que tem leucemia e precisa de um transplante
de medula óssea compatível. Helena, que já está apaixonada por Miguel, decide
novamente sacrificar a própria vida amorosa e ter um filho com Pedro para que o
bebê possa ser doador da irmã. A decisão encerra seu relacionamento com Miguel
e retoma o conflito central da novela, no qual o amor materno leva Helena a
fazer escolhas extremas para preservar a vida da filha. A força do drama está
justamente nas consequências dessas escolhas, enquanto os vínculos familiares,
os desejos individuais e os segredos do passado se chocam continuamente.
Em 2009, lançou sua segunda minissérie na
emissora, “Maysa: Quando Fala o Coração”, atração que retratou a vida e
obra da cantora e compositora Maysa Figueira Monjardim, mãe do diretor
geral da minissérie, Jayme Monjardim. Vida essa que foi interrompida por
um trágico acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói, em 1977, quando ela
tinha 40 anos de idade. Interpretada por Larissa Maciel, Maysa é
apresentada desde a juventude como uma mulher de personalidade forte,
apaixonada pela música e disposta a contrariar as expectativas impostas pela
família e pela sociedade. Aos dezoito anos, casa-se com André Matarazzo
(Eduardo Semerjian), quinze anos mais velho e herdeiro de uma família
rica, mas o casamento não a impede de perseguir o sonho de se tornar cantora.
Contra a vontade do marido, investe na carreira e rapidamente conquista espaço
no rádio, transformando suas canções de forte carga emocional em sucessos
nacionais. A decisão de seguir profissionalmente na música também provoca o fim
do casamento. Mesmo diante das críticas de uma sociedade que condenava mulheres
separadas, Maysa recusa-se a receber pensão do ex-marido e preocupa-se em
garantir apenas o direito do filho, Jayme (André Matarazzo, na
infância, e Jayme Matarazzo, na juventude). Livre das convenções que
tentam limitá-la, ela constrói uma carreira marcada por discos de ouro,
romances e sucessos, mas também por polêmicas alimentadas pelo conservadorismo
da imprensa e de parte do público. Seu relacionamento com Ronaldo Bôscoli
(Mateus Solano) também ocupa espaço importante nessa trajetória,
enquanto a cantora passa a viver intensamente tanto a vida profissional quanto
a pessoal. A minissérie acompanha, assim, uma mulher que transforma a própria
inquietação em força para construir uma carreira independente, recusando o
papel que a sociedade esperava dela e pagando um preço alto pelas escolhas que
faz.
No fim de 2009, retorna ao horário das 21h e escreve
“Mulheres Apaixonadas”, um de seus maiores sucessos. O folhetim aborda
temas fortes como lesbianismo, preconceito social e contra os idosos, celibato,
alcoolismo, violência doméstica, traição, câncer, relacionamentos entre
mulheres mais velhas e homens jovens e os tormentos provocados pelo ciúme. Helena
(Christiane Torloni) começa a questionar sua felicidade no casamento com
Téo (Tony Ramos), saxofonista de jazz, com quem vive ao lado do
filho pequeno Lucas (Victor Cugula) e dirige a Escola Ribeiro
Alves (ERA), propriedade do marido e de sua irmã Lorena (Susana
Vieira). A rotina aparentemente estável do casal perde força quando Helena
reencontra César (José Mayer), seu antigo amor, agora viúvo e
neurocirurgião no Rio de Janeiro. O reencontro faz Helena reconsiderar as
escolhas que tomou no passado, enquanto ela descobre que Lucas, seu filho
adotivo, é fruto de um antigo relacionamento de Téo com Fernanda (Vanessa
Gerbelli), revelação que altera sua percepção sobre o próprio casamento.
Téo também mantém uma ligação com Pérola (Elisa Lucinda), cantora
de sua banda de jazz e mãe de Luciana (Camila Pitanga), sua
filha de um relacionamento anterior. Hilda (Maria Padilha), irmã
de Helena, vive um casamento feliz com Leandro (Eduardo Lago),
mas descobre uma doença que ameaça sua estabilidade. Heloísa (Giulia
Gam), por sua vez, enfrenta um ciúme doentio de Sérgio (Marcello
Antony), que leva seu comportamento a extremos e a aproxima de um grupo de
apoio para mulheres que sofrem com a dependência emocional. Lorena, irmã de
Téo, desperta para uma nova paixão ao se envolver com Expedito (Rafael
Calomeni), rapaz bem mais jovem e filho de um de seus empregados. Raquel
(Helena Ranaldi), professora de Educação Física que deixa São Paulo para
recomeçar no Rio, também se apaixona por um homem mais jovem, o aluno Fred
(Pedro Furtado), mas tem sua nova vida ameaçada pela chegada do violento
ex-marido Marcos (Dan Stulbach). As relações familiares e
afetivas se cruzam em conflitos marcados por desejos, inseguranças,
preconceitos e segredos, fazendo da novela um amplo retrato das diferentes
formas de amor, das crises conjugais e das pressões sociais que atravessam a
vida de seus personagens.
Manoel Carlos escreveu o sucesso “Páginas da
Vida” em 2013. Nanda (Fernanda Vasconcellos), que vai estudar
Artes na Holanda por meio de uma bolsa de estudos, revela à amiga Olívia
(Ana Paula Arósio) que está grávida de Léo (Thiago Rodrigues).
Depois de retornar ao Brasil, Nanda sofre um acidente e morre no hospital, mas Helena
(Regina Duarte), médica que atende a jovem, consegue salvar seus filhos
gêmeos. Uma das crianças, Clara (Joana Mocarzel), nasce com Síndrome
de Down e é rejeitada pela avó Marta (Lília Cabral), enquanto
o menino Francisco (Gabriel Kaufmann) fica sob os cuidados dos
avós Marta e Alex (Marcos Caruso). Helena decide adotar Clara e
passa a criar a menina em segredo, fazendo dela a razão de sua existência. A
médica também enfrenta os sentimentos de Diogo (Marcos Paulo),
uma paixão do passado, e Greg (José Mayer), seu ex-marido. Anos
depois, Léo retorna ao Brasil ao descobrir que tem um filho e, com o apoio de
Olívia, decide lutar pela guarda de Francisco. Alex não aceita abrir mão do
neto, enquanto Marta tenta garantir que o menino fique com o pai, movida também
pelo interesse financeiro. A disputa ganha outra dimensão quando Marta, a única
pessoa além de Helena que conhece a verdade, sabe que Clara está viva e próxima
da família. O dilema da médica passa a ser revelar a existência da menina e
correr o risco de perder sua guarda ou continuar escondendo a adoção. A
narrativa coloca no centro os vínculos familiares, a maternidade, o preconceito
contra pessoas com Síndrome de Down e as consequências de decisões tomadas em
nome da proteção de uma criança.
Estreou em 2016 sua 7ª novela às 21h: em “Viver
a Vida”, Helena (Taís Araújo), uma top model de
sucesso, retorna à sua cidade natal, Búzios, onde se encanta por Marcos
(José Mayer), empresário e pai de Luciana (Alinne Moraes),
jovem modelo que vê Helena como rival tanto nas passarelas quanto na disputa
pelo afeto do pai. Com o casamento, Helena precisa lidar com a resistência da
enteada, que sonha em alcançar o mesmo reconhecimento profissional e não aceita
facilmente a nova relação de Marcos. Divorciado de Tereza (Lília
Cabral), Marcos ainda convive com o ressentimento da ex-mulher, que
abandonou a carreira de modelo para se casar e guarda mágoas ao ver o ex-marido
ao lado de uma mulher mais jovem que também construiu uma carreira nas
passarelas. Luciana namora Jorge (Mateus Solano), arquiteto que
desaprova sua escolha profissional, enquanto o irmão gêmeo dele, Miguel
(Mateus Solano), é um médico bem-humorado que vive uma relação instável
com Renata (Bárbara Paz), que enfrenta problemas relacionados ao
álcool e à alimentação. Durante uma viagem ao Oriente Médio para um desfile
internacional, Luciana se desentende com Helena e acaba viajando separada dela.
O ônibus em que está sofre um grave acidente, deixando a jovem tetraplégica e
interrompendo seu sonho de seguir como modelo. De volta ao Brasil, Helena passa
a carregar a culpa por ter insistido para que Luciana fizesse a viagem e ainda
precisa enfrentar a revolta de Tereza, que havia confiado a ela os cuidados da
filha. A partir da mudança radical na vida de Luciana, as relações familiares e
afetivas dos personagens são colocadas à prova, enquanto a narrativa acompanha
os conflitos provocados pela deficiência, pela culpa, pelas expectativas
profissionais e pelas dificuldades de adaptação a uma nova realidade.
Maneco retornou ao horário das 21h em 2020 com
“Em Família”, anunciada por ele como sua última novela. A trama
apresenta duas famílias unidas por laços de sangue, afeto, ciúme, culpa e
inveja. Chica (Juliana Araripe) e Selma (Camila
Raffantti) são irmãs casadas com Ramiro (Oscar Magrini) e Itamar
(Nelson Baskerville), respectivamente. Chica e Ramiro têm três filhos, Clara
(Luana Marquezine), Felipe (Vinni Mazzola) e Helena
(Júlia Dalavia), enquanto Selma e Itamar têm Laerte (Eike
Duarte). Criados juntos em Goiás, Helena e Laerte desenvolvem desde a
infância uma paixão intensa, marcada por constantes conflitos e pelo ciúme
excessivo dele. Virgílio (Arthur Aguiar), amigo do casal, ama
Helena em segredo e se torna um dos principais alvos da desconfiança de Laerte.
Com o passar dos anos, Helena (Bruna Marquezine) e Laerte
(Guilherme Leicam) permanecem envolvidos, mas uma tragédia interrompe
definitivamente os planos do casal e os leva a seguir caminhos diferentes.
Helena se casa com Virgílio (Nando Rodrigues) e deixa Goiás rumo
ao Rio de Janeiro, enquanto Laerte parte para o exterior e constrói uma
carreira de sucesso como flautista. Muitos anos depois, Helena (Júlia
Lemmertz) vive no Rio com Virgílio (Humberto Martins) e a
filha Luiza (Bruna Marquezine), quando Laerte (Gabriel
Braga Nunes) retorna ao Brasil. O reencontro desperta sentimentos e
ressentimentos que permaneciam mal resolvidos. A situação se torna ainda mais
delicada quando Laerte se apaixona por Luiza, que guarda uma impressionante
semelhança com a mãe na juventude. A nova relação faz o passado voltar à vida e
coloca em choque o amor que Laerte sentiu por Helena, a família que ela construiu
e os limites que ele está disposto a ultrapassar para se aproximar da filha de
sua antiga paixão. A narrativa concentra seus principais conflitos nos efeitos
duradouros de um amor marcado pelo ciúme e pela obsessão, mostrando como
escolhas feitas na juventude continuam repercutindo muitos anos depois.
HELENA E
PERSONAGENS MARCANTES
Uma das marcas mais reconhecíveis da
dramaturgia de Manoel Carlos é a escolha do nome Helena
para suas protagonistas. A preferência não está ligada a uma mulher específica
de sua vida ou de sua trajetória profissional. Segundo o próprio autor, o nome
simplesmente lhe transmite a imagem de uma mulher forte, decidida e capaz de
conduzir a própria história, associação que ele relaciona à figura de Helena de
“Troia”. A recorrência do nome acabou criando uma espécie de assinatura
dentro de sua obra. A cada novela, porém, a personagem assume uma
personalidade, uma trajetória e conflitos próprios, sem funcionar como uma
repetição da anterior. Há Helenas marcadas pela maternidade, outras pelos
dilemas amorosos, pelos conflitos familiares, pela culpa ou pela necessidade de
reconstruir a própria vida. Em algumas histórias, a personagem enfrenta
escolhas íntimas que afetam toda a família. Em outras, torna-se o centro de
discussões sobre casamento, envelhecimento, preconceito, autonomia e
transformações sociais. Essa permanência do nome, portanto, contrasta com a
diversidade das mulheres que o carregam. Somente em “Maria, Maria”
(1981), “A Sucessora” (1982) e “Sol de Verão” (1989) o autor não
utilizou uma Helena como personagem principal.
A primeira Helena de Maneco foi Lílian
Lemmertz, em “Baila Comigo” (1988). Depois vieram Maitê Proença,
em “Felicidade” (1995); Regina Duarte, em “História de Amor”
(1998), “Por Amor” (2004) e “Páginas da Vida” (2013); Vera
Fischer, em “Laços de Família” (2007); Christiane Torloni, em
“Mulheres Apaixonadas” (2009); Taís Araújo, em “Viver a Vida”
(2016); e Júlia Lemmertz, em “Em Família” (2020). A escolha de Regina
Duarte para três Helenas evidencia o vínculo particular da atriz com essa
personagem dentro da obra do autor. Questionado sobre qual delas seria sua
favorita, Maneco evita estabelecer uma hierarquia e demonstra carinho por
todas, destacando Lílian Lemmertz, Vera Fischer, Maitê Proença, Christiane
Torloni, Taís Araújo e Júlia Lemmertz, além das três interpretações de Regina
Duarte. A declaração reforça uma característica importante de sua escrita:
embora o nome seja recorrente, cada atriz imprime uma identidade própria à
personagem e ajuda a estabelecer uma nova versão da mulher que o autor deseja colocar
no centro de sua narrativa.
Outra figura recorrente em suas novelas é a
jovem mimada, insegura e frequentemente ingrata, que costuma estabelecer uma
relação de tensão com a protagonista. Esse perfil aparece em Joyce (Carla
Marins), em “História de Amor” (1998); Maria Eduarda (Gabriela
Duarte), em “Por Amor” (2004); Camila (Carolina Dieckmann),
em “Laços de Família” (2007); Marina (Paloma Duarte), em “Mulheres
Apaixonadas” (2009); Olívia (Ana Paula Arósio), em “Páginas
da Vida” (2013); Luciana (Alinne Moraes), em “Viver a Vida”
(2016); e Luiza (Bruna Marquezine), em “Em Família” (2020).
Embora essas personagens tenham características em comum, suas histórias
assumem conflitos diferentes e servem para estabelecer relações de confronto,
identificação ou espelhamento com as protagonistas. Luciana, por exemplo, vê
Helena como rival na carreira e na relação com o pai, enquanto Luiza se torna
objeto da obsessão de Laerte justamente por carregar a imagem da Helena que ele
amou no passado. Assim, a repetição de determinados perfis não significa
necessariamente repetição de personagens, mas a retomada de conflitos que
interessam ao autor e que podem ser reorganizados dentro de novas estruturas
familiares e afetivas.
O repertório de Manoel Carlos também é marcado
pela repetição de determinados nomes, que reaparecem ao longo de sua produção
como parte de um vocabulário próprio. Marta, Eduarda,
Luciana, Sandra, Marcos, Miguel,
Gracinha, Ingrid e Onofre estão entre
os nomes que retornam em diferentes trabalhos. O caso de Dr. Moretti
possui um significado particularmente pessoal: segundo o autor, o nome pertence
ao médico que teria salvado sua vida e acabou sendo incorporado às suas
histórias como uma espécie de homenagem. O mesmo ocorre com Rita de
Cássia, nome associado à santa de sua devoção. Essas escolhas mostram
que a recorrência em sua obra não se limita às protagonistas. Nomes, tipos de
personagens e determinadas situações reaparecem como elementos de continuidade
dentro de uma dramaturgia construída a partir de relações humanas
reconhecíveis. O resultado é um universo autoral em que o público encontra ecos
de personagens e conflitos anteriores, mas também novas interpretações desses
mesmos temas.
LEGADO
Manoel Carlos faleceu aos 92 anos em
10 de janeiro de 2026. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, construiu
uma obra que ultrapassou o entretenimento e transformou o cotidiano em
matéria-prima para discutir a condição humana. Sua visão de mundo partia da
ideia de que os grandes conflitos não precisavam estar necessariamente em
acontecimentos extraordinários, mas podiam surgir dentro de uma família, de um
casamento, de uma amizade ou de uma relação entre pais e filhos. A intimidade
era seu principal território. Seus personagens amavam, traíam, envelheciam,
adoeciam, sofriam, recomeçavam e precisavam lidar com as consequências de suas
próprias escolhas. O Rio de Janeiro, especialmente o Leblon, tornou-se o espaço
recorrente desse universo, mas funcionava menos como simples cenário do que
como uma extensão da vida de seus personagens.
A importância de Maneco está também na maneira
como ele colocou questões sociais dentro de histórias essencialmente humanas.
Seus textos deram espaço a discussões sobre maternidade, relações familiares,
preconceito, violência, envelhecimento, sexualidade, doenças, dependência
emocional, desigualdade e mudanças nos costumes, sem abandonar a estrutura
popular da teledramaturgia. As mulheres ocupam posição central nesse projeto.
Suas protagonistas são fortes, mas não idealizadas. Elas erram, hesitam, sentem
culpa, enfrentam contradições e precisam reconstruir a própria vida diante de
circunstâncias que muitas vezes não controlam. Essa perspectiva ajudou a
transformar problemas íntimos em assuntos coletivos, fazendo com que o público
se reconhecesse nos conflitos apresentados na tela. Mais do que criar
personagens famosas ou estabelecer uma estética própria, Manoel Carlos
desenvolveu uma forma particular de olhar para as pessoas: com atenção às suas
fragilidades, aos seus desejos e às marcas deixadas pelo tempo. É nesse olhar
que reside a permanência de sua obra e sua importância para a dramaturgia
brasileira.
TRABALHOS DE MANOEL CARLOS NO
SBT
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Maria, Maria
|
20/07/1981
|
11/12/1981
|
125
|
18h15
|
Autor principal
|
|
A Sucessora
|
29/03/1982
|
20/08/1982
|
125
|
18h15
|
Autor principal
|
|
Baila Comigo
|
18/01/1988
|
22/07/1988
|
161
|
21h15
|
Autor principal
|
|
Sol de Verão
|
07/08/1989
|
12/01/1990
|
137
|
21h15
|
Autor principal
|
|
Felicidade
|
02/01/1995
|
25/08/1995
|
203
|
18h15
|
Autor principal
|
|
28/09/1998
|
28/05/1999
|
209
|
18h15
|
Autor principal
|
|
|
12/07/2004
|
18/02/2005
|
191
|
21h15
|
Autor principal
|
|
|
05/03/2007
|
02/11/2007
|
209
|
21h15
|
Autor principal
|
|
|
16/11/2009
|
09/07/2010
|
203
|
21h15
|
Autor principal
|
|
|
08/04/2013
|
29/11/2013
|
203
|
21h15
|
Autor principal
|
|
|
13/06/2016
|
10/02/2017
|
209
|
21h15
|
Autor principal
|
|
|
02/11/2020
|
21/05/2021
|
173
|
21h15
|
Autor principal
|
OUTRAS FUNÇÕES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Água Viva
|
22/12/1986
|
12/06/1987
|
149
|
21h15
|
Autor
|
MINISSÉRIES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Presença de Anita
|
07/08/2001
|
31/08/2001
|
16
|
22h30
|
Autor principal
|
|
Maysa
|
05/01/2009
|
16/01/2009
|
10
|
22h30
|
Autor principal
|
REPRISES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
18/04/2011
|
15/07/2011
|
65
|
15h15
|
Autor principal
|
|
|
11/03/2013
|
05/07/2013
|
101
|
15h15
|
Autor principal
|
|
|
02/01/2017
|
16/06/2017
|
143
|
16h45
|
Autor principal
|
|
|
16/04/2018
|
28/09/2018
|
143
|
16h45
|
Autor principal
|
|
|
16/09/2019
|
21/02/2020
|
137
|
15h15
|
Autor principal
|
|
|
06/04/2020
|
04/09/2020
|
131
|
16h45
|
Autor principal
|
|
|
25/03/2024
|
06/09/2024
|
143
|
15h30
|
Autor principal
|
|
|
21/10/2024
|
04/04/2025
|
143
|
17h00
|
Autor principal
|
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