domingo, 28 de outubro de 2012

MANOEL CARLOS


Manoel Carlos Gonçalves de Almeida (São Paulo, 14 de março de 1933), conhecido como Manoel Carlos ou simplesmente Maneco, é autor de telenovelas, escritor, roteirista, diretor e produtor brasileiro, tendo iniciado sua carreira artística também como ator. Ao longo de mais de seis décadas de atividade, tornou-se um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira, construindo uma obra marcada pela observação do cotidiano, pela atenção às relações familiares e afetivas e pela criação de personagens femininas complexas e profundamente humanas. É pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em diferentes projetos. A partir da década de 1990, consolidou uma identidade autoral bastante reconhecível ao ambientar grande parte de suas histórias no Rio de Janeiro, especialmente no Leblon, bairro que passou a funcionar quase como uma extensão de seu universo ficcional. Em suas novelas, os espaços, hábitos e relações da classe média e da burguesia carioca serviam como ponto de partida para abordar questões universais, como amor, maternidade, casamento, separação, envelhecimento, solidão, conflitos familiares e transformações sociais.
 
Um dos pioneiros da televisão brasileira, Manoel Carlos iniciou sua trajetória na década de 1950, quando a televisão ainda era um meio relativamente novo no país e grande parte de sua programação era produzida ao vivo. Nesse período, integrou o “Grande Teatro Tupi”, da extinta TV Tupi, um dos mais importantes programas de teleteatro da história da televisão brasileira. Dirigido por nomes como Sérgio Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel, o programa reunia importantes atores e atrizes, entre eles Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Nathalia Timberg, Fernando Torres, Zilka Salaberry, Aldo de Maio e Cláudio Cavalcanti. Ao longo de sua trajetória, o “Grande Teatro Tupi” apresentou mais de 450 peças de autores brasileiros e estrangeiros, aproximando a linguagem teatral do público televisivo e contribuindo decisivamente para a formação de uma geração de profissionais. A experiência foi fundamental para Maneco, que desenvolveu ali conhecimentos de atuação, adaptação, dramaturgia e direção que seriam essenciais para sua carreira posterior.
 
Em 1952, Manoel Carlos escreveu “Helena”, sua primeira telenovela, exibida pela TV Paulista e baseada no romance homônimo de Machado de Assis. No mesmo ano, escreveu “Nick Chuck”, também para a TV Paulista, e, em 1953, adaptou outro romance de Machado de Assis, “Iaiá Garcia”. Essas primeiras experiências revelavam sua proximidade com a literatura e sua capacidade de transportar obras de diferentes linguagens para o formato televisivo, em uma época em que as telenovelas ainda estavam em processo de consolidação no Brasil. Paralelamente à dramaturgia, Maneco ampliou sua atuação para diferentes gêneros e formatos, acumulando experiência como diretor e produtor. Entre seus trabalhos de destaque estão “Família Trapo”, exibida pela TV Record no final dos anos 1960, além de “Esta Noite se Improvisa” e “O Fino da Bossa”, programa musical protagonizado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que se tornou um dos grandes marcos da televisão brasileira.
 
Sua trajetória nas primeiras décadas da televisão foi, portanto, marcada por uma intensa diversidade de experiências. Antes de se tornar conhecido principalmente por suas telenovelas, Manoel Carlos transitou pelo teatro televisivo, pela adaptação literária, pelo humor, pela música e por programas de variedades, construindo um repertório profissional que ajudaria a definir sua maneira de escrever e produzir histórias. No SBT, esteve envolvido na primeira fase do “Fantástico”, entre 1973 e 1976, ampliando ainda mais sua experiência com diferentes formatos televisivos. Esse percurso contribuiu para que desenvolvesse uma compreensão abrangente da linguagem da televisão e de sua relação com o público. Mais tarde, ao consolidar seu estilo como autor de novelas, Maneco levaria para a dramaturgia essa experiência acumulada, privilegiando histórias centradas no cotidiano e nos conflitos íntimos de seus personagens. Sua carreira, assim, não se resume às novelas ambientadas no Leblon que o tornariam célebre: ela representa também uma parcela significativa da própria história da televisão brasileira, desde os primeiros anos do veículo até a consolidação da telenovela como um dos principais produtos culturais do país.
 
Permaneceu como diretor geral do “Fantástico” por três anos e, nessa época, participou também do “SBT Gente”, programa de entrevistas comandado por Jô Soares. Em 1981, com a experiência de mais de 150 adaptações para a televisão, transformou em novela o romance “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha, sob o título de “Maria, Maria”, na faixa das 18h. A primeira telenovela de Manoel Carlos no SBT teve direção de Herval Rossano. No sertão brasileiro, o tropeiro Ricardo Brandão (Cláudio Cavalcanti) encontra a família miserável de Raimundo Alves (Wilson Grey) e recebe a oferta de Maria (Nívea Maria), filha mais velha da família, em troca de mantimentos. Ricardo decide não levá-la consigo, mas os dois permanecem marcados pelo breve encontro. Mais tarde, em Xique-Xique, o tropeiro conhece Maria Dusá (Nívea Maria), uma mulher sofisticada e idêntica à sertaneja que deixara para trás. Convencido de que se trata de Maria Alves, Ricardo a aborda de maneira rude e acaba humilhado, tornando-se ainda mais amargo. Enquanto isso, Maria Alves deixa o sertão após a morte dos pais e parte em busca do homem que a ajudou. Quando chega à cidade, sua semelhança com Dusá provoca um mal-entendido que aproxima as duas mulheres. Disposta a ajudá-la, Dusá tenta favorecer o reencontro entre Maria e Ricardo, mas acaba se apaixonando pelo tropeiro. A trama ganha novos contornos quando Ricardo, acusado injustamente de tentativa de assassinato, é confinado em uma mina e encontra no garimpo uma oportunidade de reconstruir a própria vida. Entre ressentimentos, sentimentos conflitantes e o desejo de recuperar o que perdeu, Maria luta por seu amor e por sua dignidade, enquanto Dusá precisa enfrentar a paixão que desenvolve pelo mesmo homem. A trama se estrutura, assim, em torno da identidade das duas Marias e dos diferentes caminhos que suas vidas percorrem, utilizando o romance e o conflito social para acompanhar personagens submetidos à pobreza, ao desejo, às injustiças e às transformações provocadas pelas circunstâncias.
 
Em seguida, no ano seguinte, o autor adaptou o romance “A Sucessora”, de Carolina Nabuco, que também foi dirigida por Herval Rossano e exibida no horário das 18h. Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 20, a novela acompanha Marina (Susana Vieira), uma jovem de origem simples que se casa com o sofisticado Roberto Steen (Rubens de Falco) e precisa se adaptar à rotina da alta sociedade carioca. A convivência do casal é marcada pela presença constante da memória de Alice (Alessandra Vieira), a falecida ex-mulher de Roberto, cuja imagem permanece preservada na mansão e exerce forte influência sobre aqueles que conviveram com ela. A governanta Juliana (Nathalia Timberg), fiel à antiga patroa e secretamente apaixonada por Roberto, considera Marina uma intrusa e cria intrigas para prejudicar o casamento. Marina também enfrenta as comparações feitas pelos amigos e familiares de Roberto, que constantemente a colocam diante do padrão deixado por Alice. Paralelamente, Miguel (Paulo Figueiredo), primo de Marina e apaixonado por ela, desaprova a vida que Roberto lhe proporciona e questiona os valores da elite à qual ela passa a pertencer. Cercada por regras de comportamento e costumes da sociedade carioca dos anos 1920, Marina precisa conquistar seu espaço em uma realidade muito distante daquela em que foi criada. A força da história está justamente no confronto entre uma mulher que tenta construir sua própria identidade e a lembrança de outra que, mesmo depois de morta, continua determinando o comportamento das pessoas ao seu redor.
 
Maneco emendou seu trabalho em “A Sucessora” com a supervisão de texto da próxima novela exibida na faixa das 18h: “Memórias de Amor” (1982), de Wilson Aguiar Filho. Ambientada no Rio de Janeiro de 1888, a história acompanha Jorge Ramos (Eduardo Tornaghi), um jovem advogado idealista e defensor da causa republicana que mantém uma relação difícil com o pai, Aristarco (Jardel Filho), austero monarquista e proprietário do Ateneu, tradicional colégio interno frequentado pelos filhos de famílias abastadas de diversas regiões. Jorge é apaixonado por Lívia (Sandra Bréa), mas o romance enfrenta a oposição do pai dela e a interferência de Ciro Monteverde (José Augusto Branco), rico monarquista que também ama a jovem e procura agradar Aristarco. Enquanto isso, o Ateneu acompanha a formação de Sérgio Pompéia (Maneco Bueno), que deixa o interior para estudar no colégio e precisa enfrentar a disciplina rígida, os conflitos com os colegas e o desencanto com os métodos da instituição. Nesse ambiente, Sérgio se apaixona por Maria (Myrian Rios), filha de Aristarco. A narrativa coloca os conflitos amorosos dos personagens em meio às tensões políticas que antecedem a Proclamação da República, enquanto a rotina do Ateneu revela as diferenças de valores e as disputas que atravessam aquela sociedade.
 
Em 1986, teve a sua primeira experiência no horário das 21h: convidado pelo autor Gilberto Braga, dividiu a autoria, a partir do capítulo 57, da premiada “Água Viva”. Ambientada no ensolarado Rio de Janeiro, a novela acompanha a órfã Maria Helena (Isabela Garcia), que descobre o paradeiro do pai, Nelson Fragonard (Reginaldo Faria), um playboy que inicialmente rejeita a filha. A relação entre os dois muda quando Nelson perde a fortuna após ser enganado e passa a se aproximar da menina, enquanto se envolve com Lígia (Betty Faria), mulher ambiciosa que também mantém uma relação com o cirurgião plástico Miguel Fragonard (Raul Cortez), irmão de Nelson. Após a morte de Miguel, Lígia e Nelson tornam-se suspeitos do crime. Paralelamente, Janete (Lucélia Santos) enfrenta a oposição de Lourdes (Beatriz Segall) ao seu romance com Marcos (Fábio Júnior), enquanto o passado de seu pai, Evaldo (Mauro Mendonça), ligado ao contrabando, é usado para separá-los. Márcia (Natália do Valle), filha de Lourdes, também vive conflitos familiares por causa do casamento com o idealista Edir (Cláudio Cavalcanti). Entre essas histórias está Stella Simpson (Tônia Carrero), milionária e excêntrica socialite que, cansada da vida de festas e relacionamentos passageiros, decide realizar o antigo sonho de se tornar atriz.
 
No ano seguinte, Manoel Carlos escreveu “Baila Comigo” (1988), sua primeira novela com roteiro inteiramente original. Exibida no horário das 21h, a trama teve grande repercussão junto ao público, sobretudo pela personagem Helena, a primeira do autor, então vivida por Lílian Lemmertz. No passado, Helena, de origem humilde, mantém um romance com Quim (Raul Cortez), homem casado com Marta (Tereza Rachel), herdeira de uma grande fortuna. Quando engravida de gêmeos, Helena aceita um acordo que separa os irmãos. Quinzinho (Tony Ramos) fica com ela e é criado pelo médico Plínio Miranda (Fernando Torres), enquanto João Victor (Tony Ramos) segue com Quim para Portugal e cresce como filho adotivo dele e de Marta, sem conhecer sua verdadeira origem. Anos depois, Quim retorna ao Brasil com problemas de saúde e passa a procurar o filho que deixou para trás, sem saber que Quinzinho existe. O reencontro dos irmãos permanece oculto por mentiras e pelo segredo de Helena, que se sente culpada por nunca ter contado a verdade aos dois. Quinzinho leva uma vida simples como bancário, enquanto João Victor se dedica aos negócios da família e apresenta um temperamento mais reservado. A história também envolve o passado de Quim, que roubou a herança deixada pelo pai de Marta ao então funcionário Plínio. O advogado Caio Fernandes (Carlos Zara), procurador de Quim na época, enriquece com a fortuna desviada e passa a guardar um documento que pode revelar o crime. Anos depois, Caio percebe a semelhança entre Quinzinho e João Victor quando o bancário se envolve com sua filha, Lúcia (Natália do Valle). A descoberta coloca em risco os segredos que sustentam as duas famílias e aproxima os irmãos, cuja existência desconhecida transforma antigas escolhas em conflitos que já não podem ser escondidos.
 
Em 1989, escreve mais uma novela para a faixa das 21h: com “Sol de Verão”, Manoel Carlos se firmou como cronista da classe média do Rio de Janeiro. Raquel (Irene Ravache), infeliz em seu casamento com Virgílio (Cecil Thiré), decide se separar no aniversário de dezoito anos da filha Clara (Débora Bloch) e se muda com ela de Petrópolis para a casa da mãe, Laura (Beatriz Segall), em Ipanema. Disposta a reconstruir a própria vida, apaixona-se por Heitor (Jardel Filho), mecânico carioca que vive intensamente a noite e sempre resistiu a compromissos mais sérios. Apesar da diferença de classe social e da desaprovação de Laura e dos amigos, Raquel se entrega ao relacionamento e passa a morar com Heitor em seu sobrado. Clara sofre com a separação dos pais e permanece muito ligada a Virgílio, que não aceita o fim do casamento e tenta reconquistar Raquel. Na oficina de Heitor trabalha Abel Spina (Tony Ramos), jovem deficiente auditivo, sensível e inteligente, que vive sem família e procura descobrir sua verdadeira identidade. A convivência com Abel aproxima Raquel do instituto onde ele estuda, onde ela passa a dar aulas para uma turma de deficientes auditivos. Clara também se aproxima do rapaz, assim como a aeromoça Olívia (Carla Camuratti), criando um novo núcleo afetivo em torno de alguém que ainda tenta compreender o próprio passado. A narrativa acompanha as escolhas de uma mulher que rompe com um casamento infeliz e busca uma vida mais autônoma, sem deixar de mostrar as consequências dessa decisão para a filha e para aqueles que resistem às mudanças.
 
Lamentavelmente, “Sol de Verão” foi marcada pela morte de Jardel Filho. Aos 54 anos, o ator sofreu um ataque cardíaco fulminante, causando comoção nacional e abalando profundamente autor Manoel Carlos, diretores, elenco e equipes técnica e de produção. O capítulo 121, primeiro sem o ator, abriu com uma imagem congelada de Jardel acompanhada por uma mensagem narrada em off por Irene Ravache. Em seguida, Gianfrancesco Guarnieri surgiu em cena para homenageá-lo com um texto de Manoel Carlos. Diante da perda do protagonista, o SBT decidiu encurtar a novela. Como “Louco Amor”, de Gilberto Braga, ainda não estava em pré-produção, porém, a emissora precisava manter “Sol de Verão” no ar por mais algum tempo. Manoel Carlos, profundamente abalado, afirmou que não conseguiria prolongar a história sem Heitor e sugeriu que a morte do personagem fosse assumida na própria trama, com o encerramento após mais 15 capítulos. O SBT não aceitou a proposta e o autor pediu para deixar a novela. Depois de mais de dez anos de serviços prestados à emissora, também não renovou seu contrato e permaneceu cinco anos afastado.
 
Com a saída de Manoel Carlos, Lauro César Muniz foi convocado para escrever os 17 capítulos finais, contando com a colaboração de Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Figueiredo, atores do elenco. Seu primeiro capítulo começa com uma nova homenagem a Jardel Filho e mostra um trator destruindo o jardim de Heitor, derrubando e passando por cima da placa com seu nome. Raquel (Irene Ravache) então convoca os vizinhos para reconstruir o jardim e afirma que aquela história será levada até o fim, deixando implícita a morte do personagem sem mencionar diretamente o acontecimento ou sua causa. O encerramento da novela foi marcado pela urgência. Os textos chegavam praticamente em cima da hora, e as cenas eram gravadas pouco antes de serem exibidas. Lauro César Muniz relatou que escrevia mais de um capítulo em um dia, que seria gravado no seguinte e exibido logo depois, deixando a produção com apenas um capítulo de frente.
 
Manoel Carlos retornou ao SBT em 1995 e escreveu a novela “Felicidade” para a faixa das 18h, que foi uma livre adaptação da obra de Aníbal Machado e teve a primeira mulher à frente de uma direção geral: Denise Saraceni. Em Vila Feliz, Helena (Maitê Proença) e Álvaro (Tony Ramos) se apaixonam à primeira vista, mas ela se casa com Mário (Herson Capri), um engenheiro agrônomo. O casamento fracassa e Helena engravida de Álvaro, que está comprometido com Débora (Vivianne Pasmanter), uma jovem rica e problemática. Helena decide criar a filha sozinha e se muda para o Rio de Janeiro com Bia (Tatyane Goulart), escondendo a paternidade da menina. Anos depois, reencontra Álvaro ao trabalhar para sua mãe, Cândida (Laura Cardoso), enquanto Bia se aproxima de Alvinho (Eduardo Caldas), filho de Álvaro e Débora. A amizade dos dois provoca o ciúme de Débora, que passa a tentar afastá-los e impedir qualquer aproximação entre Helena e Álvaro. A relação também desperta novos conflitos quando Helena revela a Bia que Álvaro é seu pai. Descontrolada, Débora tenta matar Helena, mas atinge Álvaro e foge após perceber que perdeu o marido para a antiga rival. Durante a fuga, sofre um grave acidente e fica paralítica, seguindo para Londres em busca de tratamento. Cinco anos depois, Helena engravida novamente de Álvaro. A novela acompanha, assim, uma história marcada por amores interrompidos, segredos familiares e escolhas que atravessam diferentes momentos da vida de seus personagens, tendo a maternidade e as consequências de relações mal resolvidas como elementos centrais.
 
Em 1998, escreve “História de Amor”, uma comemoração dos trinta anos de carreira da atriz Regina Duarte, que interpreta, pela primeira vez, uma das Helenas das novelas de Maneco, em uma trama que tem como eixo um triângulo amoroso. A caminho de seu casamento com Paula (Carolina Ferraz), o médico Carlos Alberto Moretti (José Mayer) socorre Joyce (Carla Marins), uma jovem empurrada para fora do carro pelo namorado, Caio (Ângelo Paes Leme), e descobre que ela está grávida. Carlos consegue chegar à cerimônia e se casa com Paula, mas é por meio de Joyce que conhece sua mãe, Helena (Regina Duarte), uma mulher batalhadora por quem se encanta. Joyce enfrenta a rejeição de Caio, que não assume a gravidez, e os conflitos com o pai, Assunção (Nuno Leal Maia), homem conservador que desaprova o relacionamento da filha e também mantém uma relação difícil com Helena. O casamento de Carlos e Paula se desgasta diante do ciúme da esposa, que vê Sheila (Lília Cabral), antiga companheira de Carlos e sua sócia na clínica, como uma ameaça. Depois de uma década de relacionamento com Sheila, Carlos havia escolhido se casar com Paula, mas a antiga paixão continua interessada em reatar e passa a disputar sua atenção. O casamento termina e Carlos inicia um relacionamento com Helena, despertando ainda mais a hostilidade das outras duas. Sheila se aproxima da família de Helena fingindo amizade, enquanto tenta prejudicar Paula. Helena, porém, prefere não alimentar a disputa e decide se afastar de Carlos diante dos problemas enfrentados por Joyce durante a gravidez. A narrativa desenvolve seus conflitos a partir das relações familiares, dos sentimentos mal resolvidos e das diferentes formas de amor que aproximam e afastam seus personagens, tendo a maternidade, o ciúme e as escolhas afetivas como elementos centrais de sua narrativa.
 
Manoel Carlos escreveu sua primeira minissérie para o SBT em 2001. “Presença de Anita” foi baseada no livro homônimo lançado em 1948 por Mário Donato. A história acompanha Nando (José Mayer), que aproveita as festas de fim de ano para se afastar da rotina de São Paulo e começar a escrever o romance que há muito deseja produzir. Sua esposa, Lúcia Helena (Helena Ranaldi), vê a viagem à casa da família, em Florença, no interior do estado, como uma oportunidade para recuperar a paixão do casamento. O filho do casal, Zezinho (Leonardo Miggiorin), também vive um momento de descoberta ao experimentar seu primeiro amor. A chegada de Anita (Mel Lisboa), jovem que se muda para um antigo sobrado marcado por um crime passional ocorrido no passado, altera a dinâmica da família. Ela encara a própria vida como algo determinado pelo destino e decide vivê-la intensamente, aproximando-se de Nando e despertando a paixão de Zezinho. Fascinado pela jovem, Nando encontra nela a inspiração que procurava para seu romance, mas a relação ultrapassa o campo da criação literária e passa a ameaçar seu casamento. A presença de Anita estabelece um triângulo amoroso que envolve homens de diferentes gerações e transforma profundamente a vida de todos ao redor.
 
Escreveu “Por Amor” em 2004, retomando o tema do sacrifício que uma mãe é capaz de fazer pelos filhos. Helena (Regina Duarte) é uma mãe dedicada e também a grande amiga da filha, Maria Eduarda (Gabriela Duarte), jovem mimada e insegura que vive um romance com Marcelo (Fábio Assunção). Ela ainda tenta aceitar o pai, Orestes (Paulo José), um alcoólatra, enquanto Marcelo enfrenta a perseguição da ex-namorada Laura (Vivianne Pasmanter) e a interferência da mãe, Branca (Susana Vieira), mulher dominadora que também controla a vida da amiga Isabel (Cássia Kis). Isabel mantém um relacionamento com Atílio (Antônio Fagundes), mas Branca é apaixonada por ele e não aceita que os dois se aproximem. Atílio se apaixona por Helena, e os dois acabam se casando, assim como Eduarda e Marcelo. Helena e Eduarda engravidam na mesma época e dão à luz no mesmo dia, sob os cuidados do médico César (Marcelo Serrado), que é apaixonado por Eduarda. O filho de Helena nasce saudável, mas Eduarda sofre complicações no parto e seu bebê morre. Como ela também fica impossibilitada de engravidar novamente, Helena decide esconder a morte da criança e combina com César a troca dos bebês. Eduarda passa a criar o filho de Helena acreditando que ele é seu, enquanto Atílio pensa que seu filho morreu. César é o único, além de Helena, que conhece a verdade. O sacrifício, porém, cobra um preço alto: Helena precisa tratar o próprio filho como neto e vê seu casamento com Atílio se desfazer diante do peso do segredo. Foi a partir de “Por Amor” que Manoel Carlos retornou à faixa das 21h, depois de anos tentando desenvolver o projeto, originalmente apresentado ao SBT em 1989 e posteriormente retomado para o horário nobre.
 
Em 2007, escreve “Laços de Família” que, como marca do autor, aborda o amor incondicional de uma mãe pela filha e direciona a crônica urbana desenvolvida na novela. Temas universais são discutidos, como as relações amorosas e familiares, em especial as construídas entre pais e filhos, com doses equilibradas de folhetim e realismo. Às vésperas do réveillon, Helena (Vera Fischer), empresária de sucesso, sofre um acidente de carro com Edu (Reynaldo Gianecchini), médico recém-formado, em frente à livraria de Miguel (Tony Ramos). Viúvo e marcado pela morte da esposa e pelas sequelas neurológicas deixadas no filho Paulo (Flávio Silvino), Miguel se apaixona por Helena, mas ela e Edu também iniciam um relacionamento, enfrentando a oposição de Alma (Marieta Severo), tia superprotetora que criou o sobrinho como filho. Durante uma viagem ao Japão, Camila (Carolina Dieckmann), filha de Helena, conhece Edu e se apaixona por ele. Helena decide abrir mão do namorado para favorecer a filha, permitindo que Miguel se aproxime. A história também revela que Pedro (José Mayer), primo de Helena, é o verdadeiro pai de Camila. Os dois tiveram uma paixão no passado, quando Helena ainda era casada com outro homem, e ela manteve a paternidade em segredo. Esse segredo ganha importância quando Camila descobre que tem leucemia e precisa de um transplante de medula óssea compatível. Helena, que já está apaixonada por Miguel, decide novamente sacrificar a própria vida amorosa e ter um filho com Pedro para que o bebê possa ser doador da irmã. A decisão encerra seu relacionamento com Miguel e retoma o conflito central da novela, no qual o amor materno leva Helena a fazer escolhas extremas para preservar a vida da filha. A força do drama está justamente nas consequências dessas escolhas, enquanto os vínculos familiares, os desejos individuais e os segredos do passado se chocam continuamente.
 
Em 2009, lançou sua segunda minissérie na emissora, “Maysa: Quando Fala o Coração”, atração que retratou a vida e obra da cantora e compositora Maysa Figueira Monjardim, mãe do diretor geral da minissérie, Jayme Monjardim. Vida essa que foi interrompida por um trágico acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói, em 1977, quando ela tinha 40 anos de idade. Interpretada por Larissa Maciel, Maysa é apresentada desde a juventude como uma mulher de personalidade forte, apaixonada pela música e disposta a contrariar as expectativas impostas pela família e pela sociedade. Aos dezoito anos, casa-se com André Matarazzo (Eduardo Semerjian), quinze anos mais velho e herdeiro de uma família rica, mas o casamento não a impede de perseguir o sonho de se tornar cantora. Contra a vontade do marido, investe na carreira e rapidamente conquista espaço no rádio, transformando suas canções de forte carga emocional em sucessos nacionais. A decisão de seguir profissionalmente na música também provoca o fim do casamento. Mesmo diante das críticas de uma sociedade que condenava mulheres separadas, Maysa recusa-se a receber pensão do ex-marido e preocupa-se em garantir apenas o direito do filho, Jayme (André Matarazzo, na infância, e Jayme Matarazzo, na juventude). Livre das convenções que tentam limitá-la, ela constrói uma carreira marcada por discos de ouro, romances e sucessos, mas também por polêmicas alimentadas pelo conservadorismo da imprensa e de parte do público. Seu relacionamento com Ronaldo Bôscoli (Mateus Solano) também ocupa espaço importante nessa trajetória, enquanto a cantora passa a viver intensamente tanto a vida profissional quanto a pessoal. A minissérie acompanha, assim, uma mulher que transforma a própria inquietação em força para construir uma carreira independente, recusando o papel que a sociedade esperava dela e pagando um preço alto pelas escolhas que faz.
 
No fim de 2009, retorna ao horário das 21h e escreve “Mulheres Apaixonadas”, um de seus maiores sucessos. O folhetim aborda temas fortes como lesbianismo, preconceito social e contra os idosos, celibato, alcoolismo, violência doméstica, traição, câncer, relacionamentos entre mulheres mais velhas e homens jovens e os tormentos provocados pelo ciúme. Helena (Christiane Torloni) começa a questionar sua felicidade no casamento com Téo (Tony Ramos), saxofonista de jazz, com quem vive ao lado do filho pequeno Lucas (Victor Cugula) e dirige a Escola Ribeiro Alves (ERA), propriedade do marido e de sua irmã Lorena (Susana Vieira). A rotina aparentemente estável do casal perde força quando Helena reencontra César (José Mayer), seu antigo amor, agora viúvo e neurocirurgião no Rio de Janeiro. O reencontro faz Helena reconsiderar as escolhas que tomou no passado, enquanto ela descobre que Lucas, seu filho adotivo, é fruto de um antigo relacionamento de Téo com Fernanda (Vanessa Gerbelli), revelação que altera sua percepção sobre o próprio casamento. Téo também mantém uma ligação com Pérola (Elisa Lucinda), cantora de sua banda de jazz e mãe de Luciana (Camila Pitanga), sua filha de um relacionamento anterior. Hilda (Maria Padilha), irmã de Helena, vive um casamento feliz com Leandro (Eduardo Lago), mas descobre uma doença que ameaça sua estabilidade. Heloísa (Giulia Gam), por sua vez, enfrenta um ciúme doentio de Sérgio (Marcello Antony), que leva seu comportamento a extremos e a aproxima de um grupo de apoio para mulheres que sofrem com a dependência emocional. Lorena, irmã de Téo, desperta para uma nova paixão ao se envolver com Expedito (Rafael Calomeni), rapaz bem mais jovem e filho de um de seus empregados. Raquel (Helena Ranaldi), professora de Educação Física que deixa São Paulo para recomeçar no Rio, também se apaixona por um homem mais jovem, o aluno Fred (Pedro Furtado), mas tem sua nova vida ameaçada pela chegada do violento ex-marido Marcos (Dan Stulbach). As relações familiares e afetivas se cruzam em conflitos marcados por desejos, inseguranças, preconceitos e segredos, fazendo da novela um amplo retrato das diferentes formas de amor, das crises conjugais e das pressões sociais que atravessam a vida de seus personagens.
 
Manoel Carlos escreveu o sucesso “Páginas da Vida” em 2013. Nanda (Fernanda Vasconcellos), que vai estudar Artes na Holanda por meio de uma bolsa de estudos, revela à amiga Olívia (Ana Paula Arósio) que está grávida de Léo (Thiago Rodrigues). Depois de retornar ao Brasil, Nanda sofre um acidente e morre no hospital, mas Helena (Regina Duarte), médica que atende a jovem, consegue salvar seus filhos gêmeos. Uma das crianças, Clara (Joana Mocarzel), nasce com Síndrome de Down e é rejeitada pela avó Marta (Lília Cabral), enquanto o menino Francisco (Gabriel Kaufmann) fica sob os cuidados dos avós Marta e Alex (Marcos Caruso). Helena decide adotar Clara e passa a criar a menina em segredo, fazendo dela a razão de sua existência. A médica também enfrenta os sentimentos de Diogo (Marcos Paulo), uma paixão do passado, e Greg (José Mayer), seu ex-marido. Anos depois, Léo retorna ao Brasil ao descobrir que tem um filho e, com o apoio de Olívia, decide lutar pela guarda de Francisco. Alex não aceita abrir mão do neto, enquanto Marta tenta garantir que o menino fique com o pai, movida também pelo interesse financeiro. A disputa ganha outra dimensão quando Marta, a única pessoa além de Helena que conhece a verdade, sabe que Clara está viva e próxima da família. O dilema da médica passa a ser revelar a existência da menina e correr o risco de perder sua guarda ou continuar escondendo a adoção. A narrativa coloca no centro os vínculos familiares, a maternidade, o preconceito contra pessoas com Síndrome de Down e as consequências de decisões tomadas em nome da proteção de uma criança.
 
Estreou em 2016 sua 7ª novela às 21h: em “Viver a Vida”, Helena (Taís Araújo), uma top model de sucesso, retorna à sua cidade natal, Búzios, onde se encanta por Marcos (José Mayer), empresário e pai de Luciana (Alinne Moraes), jovem modelo que vê Helena como rival tanto nas passarelas quanto na disputa pelo afeto do pai. Com o casamento, Helena precisa lidar com a resistência da enteada, que sonha em alcançar o mesmo reconhecimento profissional e não aceita facilmente a nova relação de Marcos. Divorciado de Tereza (Lília Cabral), Marcos ainda convive com o ressentimento da ex-mulher, que abandonou a carreira de modelo para se casar e guarda mágoas ao ver o ex-marido ao lado de uma mulher mais jovem que também construiu uma carreira nas passarelas. Luciana namora Jorge (Mateus Solano), arquiteto que desaprova sua escolha profissional, enquanto o irmão gêmeo dele, Miguel (Mateus Solano), é um médico bem-humorado que vive uma relação instável com Renata (Bárbara Paz), que enfrenta problemas relacionados ao álcool e à alimentação. Durante uma viagem ao Oriente Médio para um desfile internacional, Luciana se desentende com Helena e acaba viajando separada dela. O ônibus em que está sofre um grave acidente, deixando a jovem tetraplégica e interrompendo seu sonho de seguir como modelo. De volta ao Brasil, Helena passa a carregar a culpa por ter insistido para que Luciana fizesse a viagem e ainda precisa enfrentar a revolta de Tereza, que havia confiado a ela os cuidados da filha. A partir da mudança radical na vida de Luciana, as relações familiares e afetivas dos personagens são colocadas à prova, enquanto a narrativa acompanha os conflitos provocados pela deficiência, pela culpa, pelas expectativas profissionais e pelas dificuldades de adaptação a uma nova realidade.
 
Maneco retornou ao horário das 21h em 2020 com “Em Família”, anunciada por ele como sua última novela. A trama apresenta duas famílias unidas por laços de sangue, afeto, ciúme, culpa e inveja. Chica (Juliana Araripe) e Selma (Camila Raffantti) são irmãs casadas com Ramiro (Oscar Magrini) e Itamar (Nelson Baskerville), respectivamente. Chica e Ramiro têm três filhos, Clara (Luana Marquezine), Felipe (Vinni Mazzola) e Helena (Júlia Dalavia), enquanto Selma e Itamar têm Laerte (Eike Duarte). Criados juntos em Goiás, Helena e Laerte desenvolvem desde a infância uma paixão intensa, marcada por constantes conflitos e pelo ciúme excessivo dele. Virgílio (Arthur Aguiar), amigo do casal, ama Helena em segredo e se torna um dos principais alvos da desconfiança de Laerte. Com o passar dos anos, Helena (Bruna Marquezine) e Laerte (Guilherme Leicam) permanecem envolvidos, mas uma tragédia interrompe definitivamente os planos do casal e os leva a seguir caminhos diferentes. Helena se casa com Virgílio (Nando Rodrigues) e deixa Goiás rumo ao Rio de Janeiro, enquanto Laerte parte para o exterior e constrói uma carreira de sucesso como flautista. Muitos anos depois, Helena (Júlia Lemmertz) vive no Rio com Virgílio (Humberto Martins) e a filha Luiza (Bruna Marquezine), quando Laerte (Gabriel Braga Nunes) retorna ao Brasil. O reencontro desperta sentimentos e ressentimentos que permaneciam mal resolvidos. A situação se torna ainda mais delicada quando Laerte se apaixona por Luiza, que guarda uma impressionante semelhança com a mãe na juventude. A nova relação faz o passado voltar à vida e coloca em choque o amor que Laerte sentiu por Helena, a família que ela construiu e os limites que ele está disposto a ultrapassar para se aproximar da filha de sua antiga paixão. A narrativa concentra seus principais conflitos nos efeitos duradouros de um amor marcado pelo ciúme e pela obsessão, mostrando como escolhas feitas na juventude continuam repercutindo muitos anos depois.
 
HELENA E PERSONAGENS MARCANTES
Uma das marcas mais reconhecíveis da dramaturgia de Manoel Carlos é a escolha do nome Helena para suas protagonistas. A preferência não está ligada a uma mulher específica de sua vida ou de sua trajetória profissional. Segundo o próprio autor, o nome simplesmente lhe transmite a imagem de uma mulher forte, decidida e capaz de conduzir a própria história, associação que ele relaciona à figura de Helena de “Troia”. A recorrência do nome acabou criando uma espécie de assinatura dentro de sua obra. A cada novela, porém, a personagem assume uma personalidade, uma trajetória e conflitos próprios, sem funcionar como uma repetição da anterior. Há Helenas marcadas pela maternidade, outras pelos dilemas amorosos, pelos conflitos familiares, pela culpa ou pela necessidade de reconstruir a própria vida. Em algumas histórias, a personagem enfrenta escolhas íntimas que afetam toda a família. Em outras, torna-se o centro de discussões sobre casamento, envelhecimento, preconceito, autonomia e transformações sociais. Essa permanência do nome, portanto, contrasta com a diversidade das mulheres que o carregam. Somente em “Maria, Maria” (1981), “A Sucessora” (1982) e “Sol de Verão” (1989) o autor não utilizou uma Helena como personagem principal.
 
A primeira Helena de Maneco foi Lílian Lemmertz, em “Baila Comigo” (1988). Depois vieram Maitê Proença, em “Felicidade” (1995); Regina Duarte, em “História de Amor” (1998), “Por Amor” (2004) e “Páginas da Vida” (2013); Vera Fischer, em “Laços de Família” (2007); Christiane Torloni, em “Mulheres Apaixonadas” (2009); Taís Araújo, em “Viver a Vida” (2016); e Júlia Lemmertz, em “Em Família” (2020). A escolha de Regina Duarte para três Helenas evidencia o vínculo particular da atriz com essa personagem dentro da obra do autor. Questionado sobre qual delas seria sua favorita, Maneco evita estabelecer uma hierarquia e demonstra carinho por todas, destacando Lílian Lemmertz, Vera Fischer, Maitê Proença, Christiane Torloni, Taís Araújo e Júlia Lemmertz, além das três interpretações de Regina Duarte. A declaração reforça uma característica importante de sua escrita: embora o nome seja recorrente, cada atriz imprime uma identidade própria à personagem e ajuda a estabelecer uma nova versão da mulher que o autor deseja colocar no centro de sua narrativa.
 
Outra figura recorrente em suas novelas é a jovem mimada, insegura e frequentemente ingrata, que costuma estabelecer uma relação de tensão com a protagonista. Esse perfil aparece em Joyce (Carla Marins), em “História de Amor” (1998); Maria Eduarda (Gabriela Duarte), em “Por Amor” (2004); Camila (Carolina Dieckmann), em “Laços de Família” (2007); Marina (Paloma Duarte), em “Mulheres Apaixonadas” (2009); Olívia (Ana Paula Arósio), em “Páginas da Vida” (2013); Luciana (Alinne Moraes), em “Viver a Vida” (2016); e Luiza (Bruna Marquezine), em “Em Família” (2020). Embora essas personagens tenham características em comum, suas histórias assumem conflitos diferentes e servem para estabelecer relações de confronto, identificação ou espelhamento com as protagonistas. Luciana, por exemplo, vê Helena como rival na carreira e na relação com o pai, enquanto Luiza se torna objeto da obsessão de Laerte justamente por carregar a imagem da Helena que ele amou no passado. Assim, a repetição de determinados perfis não significa necessariamente repetição de personagens, mas a retomada de conflitos que interessam ao autor e que podem ser reorganizados dentro de novas estruturas familiares e afetivas.
 
O repertório de Manoel Carlos também é marcado pela repetição de determinados nomes, que reaparecem ao longo de sua produção como parte de um vocabulário próprio. Marta, Eduarda, Luciana, Sandra, Marcos, Miguel, Gracinha, Ingrid e Onofre estão entre os nomes que retornam em diferentes trabalhos. O caso de Dr. Moretti possui um significado particularmente pessoal: segundo o autor, o nome pertence ao médico que teria salvado sua vida e acabou sendo incorporado às suas histórias como uma espécie de homenagem. O mesmo ocorre com Rita de Cássia, nome associado à santa de sua devoção. Essas escolhas mostram que a recorrência em sua obra não se limita às protagonistas. Nomes, tipos de personagens e determinadas situações reaparecem como elementos de continuidade dentro de uma dramaturgia construída a partir de relações humanas reconhecíveis. O resultado é um universo autoral em que o público encontra ecos de personagens e conflitos anteriores, mas também novas interpretações desses mesmos temas.
 
LEGADO
Manoel Carlos faleceu aos 92 anos em 10 de janeiro de 2026. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, construiu uma obra que ultrapassou o entretenimento e transformou o cotidiano em matéria-prima para discutir a condição humana. Sua visão de mundo partia da ideia de que os grandes conflitos não precisavam estar necessariamente em acontecimentos extraordinários, mas podiam surgir dentro de uma família, de um casamento, de uma amizade ou de uma relação entre pais e filhos. A intimidade era seu principal território. Seus personagens amavam, traíam, envelheciam, adoeciam, sofriam, recomeçavam e precisavam lidar com as consequências de suas próprias escolhas. O Rio de Janeiro, especialmente o Leblon, tornou-se o espaço recorrente desse universo, mas funcionava menos como simples cenário do que como uma extensão da vida de seus personagens.
 
A importância de Maneco está também na maneira como ele colocou questões sociais dentro de histórias essencialmente humanas. Seus textos deram espaço a discussões sobre maternidade, relações familiares, preconceito, violência, envelhecimento, sexualidade, doenças, dependência emocional, desigualdade e mudanças nos costumes, sem abandonar a estrutura popular da teledramaturgia. As mulheres ocupam posição central nesse projeto. Suas protagonistas são fortes, mas não idealizadas. Elas erram, hesitam, sentem culpa, enfrentam contradições e precisam reconstruir a própria vida diante de circunstâncias que muitas vezes não controlam. Essa perspectiva ajudou a transformar problemas íntimos em assuntos coletivos, fazendo com que o público se reconhecesse nos conflitos apresentados na tela. Mais do que criar personagens famosas ou estabelecer uma estética própria, Manoel Carlos desenvolveu uma forma particular de olhar para as pessoas: com atenção às suas fragilidades, aos seus desejos e às marcas deixadas pelo tempo. É nesse olhar que reside a permanência de sua obra e sua importância para a dramaturgia brasileira.
 
TRABALHOS DE MANOEL CARLOS NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Maria, Maria
20/07/1981
11/12/1981
125
18h15
Autor principal
A Sucessora
29/03/1982
20/08/1982
125
18h15
Autor principal
Baila Comigo
18/01/1988
22/07/1988
161
21h15
Autor principal
Sol de Verão
07/08/1989
12/01/1990
137
21h15
Autor principal
Felicidade
02/01/1995
25/08/1995
203
18h15
Autor principal
28/09/1998
28/05/1999
209
18h15
Autor principal
12/07/2004
18/02/2005
191
21h15
Autor principal
05/03/2007
02/11/2007
209
21h15
Autor principal
16/11/2009
09/07/2010
203
21h15
Autor principal
08/04/2013
29/11/2013
203
21h15
Autor principal
Viver a Vida                        
13/06/2016
10/02/2017
209
21h15
Autor principal
02/11/2020
21/05/2021
173
21h15
Autor principal
 
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Água Viva
22/12/1986
12/06/1987
149
21h15
Autor
 
 
MINISSÉRIES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Presença de Anita
07/08/2001
31/08/2001
16
22h30
Autor principal
Maysa
05/01/2009
16/01/2009
10
22h30
Autor principal
 
 
REPRISES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
18/04/2011
15/07/2011
65
15h15
Autor principal
11/03/2013
05/07/2013
101
15h15
Autor principal
02/01/2017
16/06/2017
143
16h45
Autor principal
16/04/2018
28/09/2018
143
16h45
Autor principal
16/09/2019
21/02/2020
137
15h15
Autor principal
06/04/2020
04/09/2020
131
16h45
Autor principal
25/03/2024
06/09/2024
143
15h30
Autor principal
21/10/2024
04/04/2025
143
17h00
Autor principal

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