domingo, 28 de outubro de 2012

AGUINALDO SILVA


Aguinaldo Silva nasceu em Carpina, Pernambuco, em 7 de junho de 1943. Aos 13 anos, começou a escrever os primeiros poemas, passando depois aos romances. Em 1961, com apenas 17 anos, lançou o livro “Redenção para Job”. No mesmo ano, começou a trabalhar como jornalista em Pernambuco, na sucursal do Última Hora. Em 1964, após o golpe militar, mudou-se para o Rio, passando a trabalhar na redação carioca do mesmo jornal e, depois, no Jornal do Brasil, quase sempre fazendo reportagens policiais. Em 1969, Aguinaldo Silva ingressou em O Globo, onde exerceu funções de redator, subeditor e editor.
 
Enquanto fazia carreira no jornalismo, Aguinaldo Silva continuava a se dedicar à literatura. Em 1965, lançou um novo romance, “Cristo Partido ao Meio”, e, no ano seguinte, “Canção de Sangue”, que recebeu menção honrosa em concurso literário promovido por O Globo. Em 1966, aos 22 anos, candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. A candidatura não foi levada a sério pelos acadêmicos e foi definida por ele, na época, como um protesto contra a instituição, que não teria o respeito dos jovens. Desde então, Aguinaldo Silva nunca deixou de publicar livros, escritos entre seus trabalhos para imprensa ou televisão. Fazem parte da sua lista títulos como “República dos Assassinos” (transformado em filme), “Sentimental Reasons”, “No País das Sombras”, “Lili Carabina”, “O Homem que Comprou o Rio”, “Memórias da Guerra” e “Lábios que Beijei”.
 
A militância política também esteve presente na sua vida durante os anos de governo militar. Em 1969, chegou a ficar preso 72 dias na Ilha das Cobras por ter escrito o prefácio do “Diário de Che”. Dedicou-se, ainda, à luta contra a discriminação de homossexuais, tendo sido editor do jornal O Lampião, lançado em 1977.
 
Em 1978, ao abandonar a carreira de jornalista para integrar a equipe de roteiristas do seriado “Plantão de Polícia” (1979), Aguinaldo Silva colocou em cena a experiência acumulada em anos de reportagem para construir uma narrativa de forte tom realista, centrada no cotidiano policial do Rio de Janeiro a partir do olhar do repórter Waldomiro Pena (Hugo Carvana), personagem encarregado pelo jornal Folha Popular de cobrir as ocorrências da cidade e que encarna a figura idealizada do jornalista autodidata, emocionalmente envolvido com a notícia. Essa perspectiva, por não partir de um policial, mas de um profissional da imprensa, confere liberdade crítica à trama, sobretudo nos embates de Waldomiro com o jovem editor Serra (Marcos Paulo), formado em Comunicação e defensor da neutralidade jornalística, com quem protagoniza constantes conflitos éticos e profissionais na redação. No centro dessa tensão está a repórter iniciante Bebel (Denise Bandeira), jovem de origem burguesa fascinada pelo jornalismo policial e pela postura combativa de Waldomiro, que passa a acompanhá-lo em incursões pelo submundo carioca, envolvendo-se em situações perigosas e revelando, ao longo dos episódios, as contradições, riscos e dilemas morais do fazer jornalístico, bem como a possibilidade de questionar criticamente a atuação da própria polícia.
 
Após o encerramento de “Plantão de Polícia”, em 1981, Aguinaldo Silva ampliou sua atuação na teledramaturgia ao escrever para o seriado “Obrigado, Doutor” e, no mesmo período, assinar o episódio “Maria Bonita” do “Caso Especial”, embrião da minissérie “Lampião e Maria Bonita” (1982), a primeira do SBT, escrita em parceria com Doc Comparato e dedicada aos últimos seis meses de vida de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (Nelson Xavier), figura mítica do cangaço nordestino apresentada em sua dualidade entre líder violento e herói popular. A narrativa tem início com o sequestro do geólogo inglês Steve Chandler (Michael Menaugh), usado por Lampião como moeda de troca em negociações com o governo da Bahia, mediadas por Joana Bezerra (Regina Dourado), enquanto, em Salvador, o jornalista Lindolfo Macedo (Helber Rangel) descobre a estratégia oficial de prender Argemiro (José Fernandes), irmão honesto do cangaceiro, para forçá-lo a se render. Paralelamente às negociações e perseguições conduzidas pelo Tenente Zé Rufino (José Dumont), tradicional algoz do bando, a trama acompanha a relação de Lampião com Maria Bonita (Tânia Alves), primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros, mãe de sua filha Expedita (Adriana Barbosa), e cuja ausência temporária intensifica o clima de tensão entre os sertanejos. Cercado por tropas, recompensas e traições, o casal é finalmente localizado na fazenda Angicos, no sertão de Sergipe, onde, em 28 de julho de 1938, Lampião e Maria Bonita são metralhados, encerrando de forma trágica uma trajetória que a minissérie retrata como símbolo das contradições sociais, políticas e míticas do Brasil dos anos 1920 e 1930.
 
A experiência de Aguinaldo Silva com minisséries prosseguiu em 1983, quando, novamente em parceria com Doc Comparato, levou à televisão “Bandidos da Falange”, adaptação de um livro de sua autoria que havia sido recusado por editoras e que, ironicamente, despertou interesse editorial apenas após a exibição, ao retratar, em quatro blocos (“As origens”, “A organização”, “Lutas internas” e “A queda”), o surgimento e a derrocada de uma organização criminosa na Baixada Fluminense e na Zona Sul do Rio de Janeiro. A trama tem início com a morte do marginal Paulo Alberto (Nuno Leal Maia), que deixa para Marluce (Betty Faria) um antigo relógio de mesa onde esconde uma fortuna em diamantes, atraindo a cobiça do policial corrupto Tito Lívio (José Wilker), seu cúmplice nos crimes, enquanto o íntegro Lucena (Stênio Garcia) representa a face oposta da polícia. No presídio da Ilha Grande, Jorge Fernando (José Mayer), primo de Paulo Alberto, funda a Falange Vermelha, organização criminosa estruturada em rígidos códigos de honra, força e lealdade, ao mesmo tempo em que planeja recuperar os diamantes. Ao acompanhar a fidelidade obstinada de Marluce ao legado do amante, a expansão violenta da Falange, a corrupção policial e a repressão do Estado, a minissérie constrói uma narrativa crua sobre crime organizado, poder e violência, conduzindo seus personagens a um confronto final marcado por disputas internas, traições e mortes, do qual apenas um lado emerge vencedor após um percurso de brutalidade crescente.
 
Em 1984, dando continuidade ao trabalho em minisséries e à parceria com Doc Comparato, Aguinaldo Silva escreveu “Padre Cícero”, obra que acompanha a trajetória de Padre Cícero Romão Batista (Stênio Garcia) desde sua chegada a Juazeiro do Norte, em 1872, como um jovem sacerdote recém-ordenado, até sua consolidação como líder religioso e figura política de grande influência no sertão cearense. Ao conquistar a confiança dos retirantes por meio de ações pastorais que incluem ensinamentos sobre higiene, nutrição e cultivo da terra, além de curas atribuídas à sua intercessão, Cícero transforma Juazeiro em um importante centro urbano e espiritual, processo impulsionado pelo suposto milagre vivido pela beata Maria de Araújo (Débora Duarte), cuja hóstia teria sangrado em sua boca, alimentando a devoção popular e a mobilização dos fiéis, com o apoio do jornalista José Marrocos (Rodrigo Santiago). Esse crescimento, porém, desperta a reação das autoridades eclesiásticas, lideradas pelo Bispo Dom Joaquim José Vieira (Cláudio Cavalcanti), que, com o respaldo do Monsenhor Alexandrino de Alencar (Helber Rangel) e do Cardeal Arcoverde (Jorge Cherques), acusam o padre de desafiar as normas da Igreja e tentam desmoralizá-lo junto ao Vaticano. Diante da exigência de que renuncie publicamente aos milagres a ele atribuídos, Padre Cícero recusa-se a ceder, tem seus direitos sacerdotais suspensos e passa a intensificar sua atuação política, protegido por um exército de fiéis e jagunços, enquanto a minissérie expõe de forma densa e crítica as relações entre fé, poder e conflito institucional, evidenciando as tensões entre a religiosidade popular, a hierarquia eclesiástica e a organização social no Nordeste brasileiro.
 
Em “Tenda dos Milagres” (1985), a narrativa acompanha a trajetória de Pedro Archanjo (Nelson Xavier), velho ogã de Salvador que dedica a vida à defesa, preservação e integração da cultura africana e mestiça à sociedade brasileira, guiado por sua mãe de santo, Magé Bassã (Chica Xavier), que lhe revela a missão de ser “a luz de seu povo”. A história tem início com o colapso de Archanjo em um bar, ao som das notícias sobre a iminente derrota do Terceiro Reich, e se desenvolve a partir de suas lembranças à beira da morte, quando, entre dores no peito e visões dos orixás, revive amores, amizades e enfrentamentos marcados pelo racismo e pela intolerância. Nesse percurso, destacam-se sua relação conflituosa com Mestre Lídio Corró (Milton Gonçalves), abalada pelo envolvimento de Archanjo com Rosa de Oxalá (Du Moraes); seu romance com a jovem libertária Ana Mercedes (Tânia Alves); o amor interditado de Budião (Antônio Pompeo) e Sabina de Iansã (Solange Couto); e o drama do casal inter-racial formado por Damião (Joel Silva) e Luísa (Júlia Lemmertz), filha do racista Nilo Argolo (Oswaldo Loureiro). Ambientada em uma Salvador pulsante, a minissérie articula essas trajetórias individuais à luta maior de Archanjo contra o preconceito racial e a opressão dos poderosos, afirmando a cultura afro-brasileira como fundamento essencial da identidade nacional.
 
Em 1991, Aguinaldo Silva escreveu sua primeira novela em parceria com a também estreante Glória Perez: “Partido Alto”, uma atração do horário nobre que se propunha a retratar simultaneamente os universos da Zona Sul carioca e dos subúrbios do Rio de Janeiro, estes marcados pela influência do jogo do bicho; no entanto, a experiência não funcionou como esperado e Aguinaldo acabou abandonando a trama antes do fim, deixando Glória responsável por conduzir sozinha o texto até o desfecho. Ambientada entre a Zona Sul e o bairro do Encantado, na Zona Norte, a novela acompanha a trajetória de Nanci Fontes (Lílian Lemmertz), mulher de origem humilde que foi afastada da filha Isadora (Elizabeth Savala) ainda criança, após ser expulsa de casa pelo industrial Arnaldo Amoedo (Rubens Corrêa), que acreditava ter sido trocado por outro homem e jamais soube da gravidez que resultou no nascimento de Fernando (Roberto Bataglin). Anos depois, Nanci tenta se reaproximar da filha, enquanto Isadora, ao sair de um casamento conturbado com Sérgio (Herson Capri), envolve-se com o professor Maurício (Cláudio Marzo), inimigo declarado de Amoedo após denunciar o envenenamento de sua indústria de bombons. Injustamente acusado de roubos e assassinatos, Maurício torna-se bode expiatório de uma rede criminosa comandada por Sérgio em aliança com o bicheiro Célio Cruz (Raul Cortez), poderoso líder do Encantado e obcecado por ouro, responsável pelo roubo de uma valiosa coroa de museu que acaba nas mãos de Jussara Ferreira (Betty Faria), sua protegida e destaque da escola de samba local. Casado com a ponderada Isildinha (Célia Helena), Célio vê sua estrutura familiar tensionada quando a filha Celina (Glória Pires), aluna e apaixonada por Maurício, passa a ajudá-lo a provar sua inocência, enfrentando o conflito entre o amor e a lealdade ao pai, enquanto Isadora se divide entre o afeto por Maurício, a pressão do pai e a disputa judicial movida por Sérgio pela guarda do filho André (Marcelo Peniche).
 
Menos de um ano depois, em 1992, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho convidou Aguinaldo Silva a assumir a delicada missão de concluir “Roque Santeiro”, novela interrompida pela censura da ditadura militar em 1975, quando Dias Gomes já havia escrito cerca de 40 capítulos e se recusou a retomar o projeto, cabendo a Aguinaldo dar continuidade à trama a partir desse ponto, desenvolvendo mais 110 capítulos e transformando a obra em uma das sátiras mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira. Ambientada na fictícia Asa Branca, a novela acompanha o retorno inesperado de Roque Santeiro (José Wilker), artesão de santos dado como morto após supostamente defender a cidade do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro) e que, ao longo de 17 anos, foi alçado à condição de santo milagreiro, sustentando uma economia inteira baseada na exploração da fé popular. A reaparição de Roque ameaça diretamente os pilares desse sistema, colocando em xeque o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e, sobretudo, o poderoso fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte), mentor da farsa e amante da exuberante Viúva Porcina (Regina Duarte), mulher que nunca foi casada com Roque, mas construiu sua identidade pública a partir dessa mentira. O retorno do falso morto desestabiliza não apenas os interesses políticos e econômicos da cidade, como também desencadeia conflitos afetivos, ao reacender o amor de Porcina e a devoção resignada de Mocinha Abelha (Lucinha Lins), sua verdadeira noiva, filha do prefeito e da beata Dona Pombinha (Eloísa Mafalda), figura central do moralismo local. Paralelamente, Asa Branca se vê sacudida pela chegada da produtora de cinema liderada por Gerson do Valle (Ewerton de Castro), que pretende filmar a saga do santo com a atriz Linda Bastos (Patrícia Pillar) e o galã Roberto Mathias (Fábio Júnior), ampliando o jogo de espelhos entre mito e encenação, enquanto personagens como Tânia Malta (Lídia Brondi), Lulu das Medalhas (Cássia Kiss) e Matilde Mendes de Oliveira (Yoná Magalhães) aprofundam os embates entre repressão moral, desejo e poder. Ao articular humor, melodrama e crítica social, a novela expõe com contundência os mecanismos de manipulação da fé, o uso político da religiosidade popular e a cumplicidade coletiva na manutenção de mitos convenientes, fazendo de Asa Branca um retrato alegórico (sem concessões) das estruturas de poder e hipocrisia que atravessam a sociedade brasileira.
 
Em 1993, Aguinaldo Silva assumiu pela primeira vez a autoria integral de uma novela ao escrever “O Outro”, obra construída a partir do jogo dramático da identidade e da duplicidade, explorado por meio da impressionante semelhança física entre o milionário Paulo Della Santa e o ferro-velho Denizard de Matos (ambos interpretados por Francisco Cuoco). A trama tem início quando um encontro casual entre os dois culmina em uma explosão que faz o corpo de Paulo desaparecer, enquanto Denizard, sobrevivente e acometido por amnésia, é confundido com o empresário e levado para o convívio da poderosa família Della Santa, mergulhando involuntariamente em um universo marcado por disputas patrimoniais, ressentimentos familiares e interesses escusos. Nesse novo papel, ele se envolve com Laura (Natália do Vale), esposa do milionário, que inicialmente tenta se aproveitar da troca de identidade ao lado do ambicioso irmão João Silvério (Miguel Falabella), mas acaba se apaixonando genuinamente pelo “novo” marido, ao mesmo tempo em que enfrenta a hostilidade dos enteados Marília (Beth Goulart) e Pedro Ernesto (Marcos Frota). Paralelamente, a narrativa aprofunda seus conflitos emocionais ao revelar o drama de Glorinha da Abolição (Malu Mader), jovem hippie em busca do pai desconhecido, que se apaixona justamente por Denizard (sem saber que ele é seu verdadeiro pai biológico), relação que expõe as tensões com sua mãe, a governanta Vilma (Arlete Salles). Entrelaçando suspense, melodrama e crítica social, o folhetim utiliza a troca de identidades para discutir temas como ambição, pertencimento, ética, laços familiares e a fragilidade das aparências, transformando o duplo protagonismo de Francisco Cuoco no eixo simbólico de uma narrativa marcada por revelações morais e afetivas que colocam em xeque a noção de quem se é, de fato, quando se passa a viver a vida do outro.
 
Em 1995, convidado por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva passou a integrar, ao lado de Leonor Bassères, a equipe de autores de “Vale Tudo”, novela que se consolidou como um dos maiores clássicos da teledramaturgia brasileira ao expor, de forma contundente, a corrupção, o oportunismo e a inversão de valores no Brasil dos anos 1990. A trama se estrutura a partir do confronto moral entre Raquel Accioli (Regina Duarte), mulher íntegra que acredita no trabalho como único caminho para a dignidade, e sua filha Maria de Fátima (Glória Pires), jovem ambiciosa que não hesita em vender a casa da família e abandonar a mãe para tentar ascender socialmente no Rio de Janeiro, mesmo que isso signifique recorrer a golpes, mentiras e alianças espúrias. Enquanto Raquel reconstrói a própria vida de forma honesta (da venda de sanduíches na praia à consolidação da rede de restaurantes Paladar) e se envolve com o administrador Ivan Meirelles (Antônio Fagundes), Maria de Fátima associa-se ao mau-caráter César Ribeiro (Carlos Alberto Riccelli) para seduzir e se casar com o milionário Afonso Roitman (Cássio Gabus Mendes), filho da autoritária e inescrupulosa Odete Roitman (Beatriz Segall), símbolo máximo da elite arrogante e predatória retratada pela novela. A narrativa se adensa com a presença de Marco Aurélio (Reginaldo Faria), executivo corrupto da TCA, e com o drama de Heleninha (Renata Sorrah), filha fragilizada de Odete, aprofundando o retrato de uma sociedade em que dinheiro e poder frequentemente se sobrepõem à ética. Ao culminar no assassinato de Odete Roitman (mistério que paralisou o país com a pergunta “quem matou Odete Roitman?”), a novela reafirma sua força como sátira social mordaz e atual, utilizando o melodrama para questionar até que ponto a desonestidade compensa e se, em um ambiente corrompido, ainda há espaço para a integridade sobreviver sem ser punida.
 
Em 1996, Aguinaldo Silva, em parceria com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, adaptou para a televisão o romance “Tieta do Agreste”, de Jorge Amado, construindo uma sátira mordaz sobre moralidade, hipocrisia e progresso no Nordeste brasileiro. “Tieta” se inicia quando a jovem Tieta (Cláudia Ohana) é expulsa de casa, na fictícia Santana do Agreste, pelo pai autoritário e miserável Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), influenciado pelas intrigas da filha mais velha, a amarga e invejosa Perpétua (Adriana Canabrava). Humilhada, Tieta parte para São Paulo, onde enriquece de forma misteriosa, mantendo a família apenas por meio de generosas remessas de dinheiro, até que, cerca de vinte anos depois, retorna triunfalmente à cidade como uma mulher poderosa (agora interpretada por Betty Faria), decidida a se vingar do conservadorismo e da hipocrisia que a condenaram. Dada como morta, sua reaparição abala Santana do Agreste, transformando antigos acusadores em aduladores, enquanto Tieta passa a influenciar diretamente os rumos locais, aliando-se ao amigo de juventude Ascânio (Reginaldo Faria) no debate sobre a modernização da cidade e a polêmica instalação de uma fábrica que promete progresso econômico, mas ameaça o meio ambiente. Paralelamente, ela se envolve com o sobrinho Ricardo (Cássio Gabus Mendes), jovem seminarista e filho da ressentida Perpétua (Joana Fomm), escandalizando a sociedade local, reencontra figuras marcantes como Tonha (Yoná Magalhães), mulher simples e sofrida que se tornara esposa de Zé Esteves, e Carmosina (Arlete Salles), a eterna solteirona romântica, além de cruzar novamente com Osnar (José Mayer), antigo apaixonado e membro do irreverente grupo dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”. Assim, Tieta contrapõe tradição e modernidade, desejo e repressão, expondo com humor e crítica social as contradições de uma comunidade que se diz moralista, mas se rende facilmente ao poder do dinheiro e das aparências.
 
Em 1998, Aguinaldo Silva voltou a se unir a Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares para escrever “Pedra Sobre Pedra”, novela ambientada na fictícia Resplendor, na Chapada Diamantina, que mistura rivalidades políticas, paixões interditadas e elementos de realismo fantástico. A trama tem início quando Pilar Farias (Cláudia Scher), tomada pela desconfiança de que o noivo Murilo Pontes (Nelson Baskerville) seja o pai do filho de sua amiga Eliane (Carla Marins), o abandona no altar e, movida pelo ressentimento, casa-se com o rival Jerônimo Batista (Felipe Camargo), enquanto Murilo se une a Hilda (Andréa Murucci), com quem tem um filho, Leonardo. Anos depois, já adultos, Murilo (Lima Duarte) retorna a Resplendor decidido a fazer do filho Leonardo (Maurício Mattar) o prefeito da cidade, reencontrando Pilar (Renata Sorrah), agora viúva e mãe de Marina (Adriana Esteves), sem que ambos percebam que os jovens se apaixonam, reeditando sob outra forma um amor mal resolvido do passado. A disputa pelo poder local se intensifica com a ascensão de Cândido Alegria (Armando Bógus), figura ambígua que enriqueceu de maneira criminosa e nutre uma obsessão por Pilar, enquanto tramas paralelas envolvem o misterioso fotógrafo Jorge Tadeu (Fábio Júnior), conhecido por seduzir mulheres casadas, a moralista Gioconda Pontes (Eloísa Mafalda), sua filha Úrsula (Andréa Beltrão) e personagens populares como a delegada Francisquinha (Arlete Salles). Com a presença de um grupo de ciganos liderado por Yago (Humberto Martins) e a simbólica estátua de pedra que atravessa gerações, a trama articula memória, culpa e ambição para discutir como o poder político, os segredos familiares e os desejos reprimidos moldam, e aprisionam, uma comunidade inteira.
 
Em 2000, novamente em parceria com Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, Aguinaldo Silva escreveu “Fera Ferida”, novela inspirada no universo ficcional de Lima Barreto que toma a vingança e a cobiça como motores dramáticos para examinar as distorções morais do poder. Ambientada na fictícia Tubiacanga, a trama tem início com o golpe do então prefeito Feliciano Mota da Costa (Tarcísio Meira), que engana a população ao apresentar uma falsa pepita de ouro e arrecadar dinheiro para uma mineradora inexistente, provocando uma revolta popular que culmina no assassinato dele e da esposa Laurinda (Lucinha Lins), enterrados pelo filho sobrevivente, Feliciano Júnior (Diogo Bandeira, na infância). Quinze anos depois, o rapaz retorna à cidade sob a identidade de Raimundo Flamel (Edson Celulari), figura enigmática que promete transformar ossos humanos em ouro e, com isso, desperta a ambição coletiva enquanto executa um plano calculado para destruir os responsáveis pela morte dos pais, entre eles o corrupto prefeito Demóstenes Massaranduba (José Wilker) e o autoritário Major Emiliano Bentes (Lima Duarte). Em meio à disputa política entre Demóstenes e o oposicionista Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana), a narrativa se adensa com o caso do prefeito com a ardente Rubra Rosa (Susana Vieira), autora de seus discursos e mulher do rival, além do retorno da ardilosa Salustiana Maria (Joana Fomm), que passa a chantagear o Major com segredos do passado. O plano de vingança de Raimundo se cruza ainda com conflitos afetivos, como o triângulo envolvendo Guilherme (Rubens Caribé), filho do Major, e Linda Inês (Giulia Gam), filha do prefeito e antigo amor de infância de Feliciano Júnior, o que reforça o tom trágico da novela ao expor como interesses pessoais, corrupção política e ressentimentos históricos contaminam toda a vida social de Tubiacanga, fazendo da obra uma alegoria amarga sobre ganância, manipulação das massas e justiça pelas próprias mãos.
 
Em 2003, Aguinaldo Silva assumiu a supervisão de texto de “Meu Bem Querer”, novela das 19h escrita por Ricardo Linhares, marcando sua primeira experiência fora do horário das 21h e também a que não atuou como autor ou coautor. A novela apostou em um tom leve, bem-humorado e romântico para retratar a fictícia São Tomás de Trás, no Nordeste. No centro da trama está a enigmática e autoritária Custódia Serrão (Marília Pêra), que há anos não sai de sua mansão, mas controla a cidade com mão de ferro, humilhando o prefeito Barnabé de Barros (Osmar Prado), o delegado Néris (Ary Fontoura) e as lideranças religiosas, o Padre Ovídio (Cláudio Corrêa e Castro) e o Pastor Bilac (Mauro Mendonça), encontrando resistência apenas em Tonha da Pamonha (Arlete Salles), mulher simples e destemida que desafia seus abusos. O núcleo afetivo se organiza em torno de Inácio (Nuno Leal Maia), irmão de Custódia, que mantém um caso com Ava Maria Gardner (Ângela Vieira), filha do delegado, sem perceber que seu melhor amigo, o viúvo Martinho Amoedo (José Mayer), nutre uma paixão silenciosa pela mesma mulher; com a morte repentina de Inácio, o retorno da esposa Verena (Lília Cabral) para disputar a herança acirra ainda mais os conflitos com a cunhada. Paralelamente, a novela desenvolve o drama das irmãs Rebeca (Alessandra Negrini) e Lívia (Flávia Alessandra), filhas do Pastor Bilac, que disputam o amor de Antônio (Murilo Benício), afilhado do Padre Ovídio: embora apaixonado por Rebeca, ele cai numa armação e acaba se casando com Lívia, enquanto Rebeca, desiludida, se une ao pastor Juliano (Leonardo Brício), formando um emaranhado de relações infelizes. A trama ganha contornos trágicos e reveladores quando Antônio e Juliano descobrem ser irmãos, filhos de Inácio e Ava, dados como mortos num incêndio criminoso no berçário (crime cometido por Custódia, estéril e obcecada pela herança dos sobrinhos), conduzindo a vilã a um desfecho violento ao ser assassinada por sua secretária Jorgete (Rosi Campos), exausta de humilhações e herdeira legítima, encerrando a história com uma mistura de humor ácido, crítica ao poder arbitrário e redenção moral típica do tom mais leve, mas não menos contundente, da trama.
 
Em novembro de 2003, foi ao ar “A Indomada”, novela de Aguinaldo Silva novamente em parceria com Ricardo Linhares, ambientada na fictícia Greenville, cidade nordestina colonizada por ingleses no século XIX durante a construção da ferrovia, cuja identidade peculiar mistura costumes britânicos e sertanejos sob um tom de realismo fantástico. A trama acompanha o retorno de Helena Mendonça e Albuquerque (Adriana Esteves), que volta da Europa para reivindicar a fortuna da família, perdida pelo tio Pedro Afonso (Cláudio Marzo) em um jogo para o enigmático forasteiro Teobaldo Faruk (José Mayer), antigo apaixonado por sua mãe, Eulália (Adriana Esteves, na primeira fase), fruto de um amor proibido com o humilde Zé Leandro (Carlos Alberto Riccelli). Fiel à promessa feita no passado, Teobaldo destinara a herança a Helena ao atingir a maioridade, mas seu retorno a Greenville desencadeia uma guerra aberta com a tia ambiciosa Maria Altiva (Eva Wilma), mulher de Pedro Afonso, que jamais aceitou a perda dos bens da família e encontra no deputado corrupto Pitágoras (Ary Fontoura) o aliado ideal para suas armações, travestidas de defesa da moral e dos bons costumes. Enquanto Altiva persegue Helena e ataca figuras como Zenilda (Renata Sorrah), dona da Casa de Campo, ignora a hipocrisia do próprio marido, frequentador assíduo do bordel, num retrato mordaz da elite local. Paralelamente, a vida política e social da cidade é marcada pelas excentricidades do prefeito Ipiranga Pitiguarí (Paulo Betti), dominado pela sensual Scarlet (Luiza Tomé) e em constante embate com a juíza Mirandinha (Betty Faria), que vive um romance inesperado com o secretário Egídio (Licurgo Spíndola). No centro das atenções dos moradores, porém, está o confronto entre Helena e Altiva, intensificado quando Teobaldo se apaixona pela jovem, cuja semelhança com Eulália reabre feridas do passado, fazendo da novela uma sátira exuberante sobre herança, poder, moralidade e desejo, em que o fantástico, como a célebre transformação de Altiva em fumaça, serve para acentuar o tom crítico e alegórico da narrativa.
 
Após o término de “A Indomada”, em julho de 2004, Aguinaldo Silva anunciou um afastamento temporário das novelas, mas retornou pouco mais de um ano depois com “Suave Veneno” (2005), obra inspirada em “Rei Lear”, de William Shakespeare, que marca sua retomada das tramas urbanas após mais de uma década. A narrativa acompanha Valdomiro Cerqueira (José Wilker), um poderoso empresário pernambucano que, ao atropelar Inês (Glória Pires) e provocar sua amnésia, decide acolhê-la em sua casa, gesto que expõe fissuras profundas em sua estrutura familiar e desencadeia a hostilidade da esposa Eleonor (Irene Ravache) e das filhas Maria Regina (Letícia Spiller), Maria Antônia (Vanessa Lóes) e Márcia Eduarda (Luana Piovani). O progressivo envolvimento afetivo entre Valdomiro e Inês não apenas conduz à separação conjugal, como também intensifica a disputa pelo poder dentro da Marmoreal, empresa fundada e presidida por ele, sobretudo por parte de Maria Regina, cuja ambição explicita o conflito entre laços de sangue e interesses econômicos. A trama adquire contornos mais sombrios ao revelar que toda a situação integra um plano de vingança arquitetado por Clarisse Ribeiro (Patrícia França), filha bastarda de Valdomiro, resultando no desaparecimento de Inês junto a diamantes valiosos, na destituição do empresário da presidência da companhia e, posteriormente, no assassinato de Clarisse. Ao reencontrar Inês sob a identidade de Lavínia, agora profundamente transformada, a novela promove uma reviravolta que reforça seus temas centrais: a corrosão moral provocada pelo poder, a fragilidade das relações familiares, a ilusão do controle patriarcal e a identidade como construção instável, consolidando sua narrativa como um melodrama que utiliza o conflito íntimo para refletir sobre ambição, culpa e decadência social.
 
Em 2007, Aguinaldo Silva retornou às telenovelas com “Porto dos Milagres”, em nova parceria com Ricardo Linhares, concebida como uma livre adaptação de “Mar Morto” e “A Descoberta da América pelos Turcos”, de Jorge Amado, estruturando um melodrama que articula ambição política, fatalismo mítico e conflitos sociais profundamente enraizados. A narrativa se inicia com o golpista Félix Guerreiro (Antônio Fagundes) e sua mulher, Adma (Cássia Kiss), que, ao fugirem da polícia na Espanha após um golpe malsucedido, retornam ao Brasil impulsionados pela profecia de que Félix atravessaria o mar para se tornar rei, o que se concretiza por meio do assassinato de Bartolomeu Guerreiro, seu irmão gêmeo e homem mais rico de Porto dos Milagres, envenenado por Adma para garantir a herança e o poder. A ascensão de Félix é imediatamente ameaçada quando Arlete (Letícia Sabatella), uma prostituta, surge com o recém-nascido filho de Bartolomeu, levando Adma a ordenar que o capataz Eriberto (José de Abreu) elimine mãe e criança; embora Arlete seja morta, o bebê sobrevive após um naufrágio simbólico e acaba acolhido pelo pescador Frederico (Maurício Mattar), que, depois de perder o próprio filho e a esposa Eulália (Cristiana Oliveira), interpreta a chegada da criança como um presente de Iemanjá, deslocando o herdeiro legítimo da elite para o universo popular. Anos depois, esse menino cresce como Guma (Marcos Palmeira), pescador respeitado, cujo destino se entrelaça ao de Lívia (Flávia Alessandra), jovem criada pela tia Augusta Eugênia (Arlete Salles) após a morte violenta dos pais, em um romance atravessado por disputas familiares, rivalidades políticas e tensões de classe, especialmente diante da oposição de Alexandre Guerreiro (Leonardo Brício), filho de Félix. Ao desenvolver esses núcleos, a trama propõe uma reflexão sobre a ilegitimidade do poder fundado na violência, o choque entre herança sanguínea e pertencimento social, a permanência das estruturas patriarcais e a força da religiosidade popular como elemento organizador do destino coletivo, revelando uma sociedade em que o mando político se sustenta sobre crimes ocultos e culpas que insistem em retornar.
 
Em “Senhora do Destino” (2011), Aguinaldo Silva abandona o realismo fantástico que marcou parte de sua obra para construir uma narrativa declaradamente realista, estruturada em duas fases e atravessada por questões históricas, sociais e morais. Na primeira, Maria do Carmo Ferreira da Silva (Carolina Dieckmann), uma jovem nordestina em situação de extrema vulnerabilidade, deixa Belém de São Francisco, no Pernambuco, rumo ao Rio de Janeiro em dezembro de 1968, encontrando uma cidade mergulhada no caos político provocado pela decretação do AI-5, cenário que intensifica sua fragilidade e culmina no sequestro de sua filha recém-nascida, Lindalva, por Nazaré Tedesco (Adriana Esteves), que se passa por enfermeira e transforma um gesto de falsa solidariedade em um crime fundado na ambição e no ressentimento. Presa injustamente após o desaparecimento da criança, Maria do Carmo conhece o jornalista Dirceu de Castro (Gabriel Braga Nunes), reencontra o irmão Sebastião (Luiz Carlos Vasconcelos) e, ao recuperar a liberdade, jura dedicar a vida à busca da filha, promessa que estrutura emocionalmente toda a narrativa. Vinte anos depois, Maria do Carmo (Susana Vieira) surge como uma mulher endurecida pelas perdas, economicamente bem-sucedida e ainda movida por uma obstinação quase épica, transformando sua procura em um espetáculo midiático com o apoio de Dirceu (José Mayer) e do ex-bicheiro Giovanni Improtta (José Wilker), figura ambígua que simboliza as zonas cinzentas entre legalidade, afeto e poder. Lindalva, rebatizada de Isabel (Carolina Dieckmann), cresce sob os cuidados de Nazaré (Renata Sorrah), vítima silenciosa de uma maternidade construída sobre o crime, enquanto a gradual revelação do passado da sequestradora, marcada por assassinato, manipulação e desprezo pela enteada Cláudia (Leandra Leal), expõe a violência estrutural que sustenta sua ascensão social. Ao articular maternidade, desigualdade, autoritarismo estatal e espetacularização da dor, a trama propõe uma reflexão incisiva sobre destino, identidade e justiça, contrapondo a resistência moral de Maria do Carmo à perversidade de Nazaré, em um embate que transforma o melodrama familiar em um comentário contundente sobre as feridas históricas e sociais do Brasil.
 
Em “Duas Caras” (2014), Aguinaldo Silva constrói uma narrativa centrada na vingança e na reinvenção de identidades, articulando melodrama e comentário social ao longo de diferentes trajetórias que se cruzam. A trama tem origem na infância de Juvenaldo (André Luiz Frambach), menino pobre do interior de Pernambuco vendido pelo próprio pai ao forasteiro Hermógenes (Tarcísio Meira), episódio que inaugura um percurso marcado por violência simbólica, apagamento de origem e aprendizado da trapaça, culminando na criação de Adalberto Rangel (Dalton Vigh). Já adulto, Adalberto enxerga no acaso uma oportunidade de ascensão ao presenciar um acidente de estrada que mata Waldemar (Fúlvio Stefanini) e Gabriela (Bia Seidl), apropriando-se de dólares, documentos e da identidade social ligada à herdeira Maria Paula (Marjorie Estiano), jovem fragilizada pela perda dos pais e que encontra nele um falso amparo emocional. O casamento por interesse, seguido do roubo de toda a fortuna e do abandono de Maria Paula grávida, estabelece o eixo moral da narrativa, que transforma a protagonista em uma mulher determinada a reconstruir a própria vida e a buscar justiça, enquanto expõe a crueldade de um sistema que favorece impostores carismáticos. Em paralelo, Adalberto apaga o passado ao se submeter a cirurgias plásticas e assume a identidade de Marconi Ferraço, tornando-se um respeitável empresário da construção civil no Rio de Janeiro, associado a figuras que representam as brechas éticas e legais do poder econômico. Esse universo é contraposto pela história dos operários nordestinos desalojados pela falência da antiga construtora, que encontram em Juvenal Antena (Antônio Fagundes) uma liderança ambígua, capaz de fundar a Favela da Portelinha e se consolidar como um mediador entre ordem e marginalidade, revelando outra face do protagonismo masculino. Ao entrelaçar vingança íntima, mobilidade social forjada no crime, luta comunitária e disputas de poder, a trama promove uma reflexão sobre identidade como construção oportunista, a desigualdade estrutural que empurra personagens a extremos morais distintos e a fragilidade das fronteiras entre justiça, ambição e sobrevivência.
 
Ainda em 2014, Aguinaldo Silva supervisionou os 30 primeiros capítulos de “Tempos Modernos”, novela de Bosco Brasil exibida às 19 horas, concebida como uma comédia contemporânea que usa a relação entre homem e tecnologia para refletir sobre os impasses da vida urbana. A trama gira em torno de Leal Cordeiro (Antônio Fagundes), um empresário de origem humilde que construiu o ultramoderno edifício Titã, símbolo de progresso e controle, e cujo passado retorna com a chegada de Hélia Pimenta (Eliane Giardini), antiga paixão e moradora mais antiga do prédio, reativando conflitos afetivos e éticos. As tensões se ampliam com o romance entre Nelinha (Fernanda Vasconcellos), filha de Leal, e Zeca (Thiago Rodrigues), filho de Hélia, além das intrigas movidas por ambição, como o golpe planejado por Albano (Guilherme Weber) e Deodora (Grazi Massafera), e pela rivalidade de Otto Niemann (Marcos Caruso), ex-amigo de Leal. Ao articular romances, disputas familiares e jogos de poder em um ambiente dominado pela tecnologia, a novela propõe uma reflexão direta sobre ambição, vigilância e a dificuldade de preservar vínculos humanos em meio à lógica do controle e do sucesso material.
 
Em 2018, Aguinaldo Silva apresentou “Fina Estampa” como uma narrativa centrada no embate entre essência e aparência, tendo como eixo a trajetória de Griselda da Silva Pereira, a Pereirão (Lília Cabral), uma mulher simples que acredita ter perdido o marido, Pereirinha (José Mayer), no mar e passa a sustentar os filhos trabalhando como “marido de aluguel”, realizando consertos domésticos com dignidade e autonomia. Apesar de criar Quinzé (Malvino Salvador), Amália (Sophie Charlotte) e Antenor (Caio Castro) com esforço e honestidade, Griselda enfrenta o desprezo do filho mais novo, que sente vergonha de sua origem humilde, conflito que se intensifica quando ela ganha uma fortuna na loteria e vê na ascensão social a chance de ser aceita. Tentando se adequar a um novo padrão de vida, Griselda se aproxima de Renê Velmont (Dalton Vigh), um chef refinado e casado com a sofisticada e cruel Tereza Cristina (Christiane Torloni), antagonista movida pela obsessão com status, aparência e superioridade social, o que desencadeia uma rivalidade central à narrativa. A disputa entre as duas mulheres se agrava quando descobrem que seus filhos se relacionam e quando o afeto entre Griselda e Renê se torna evidente, enquanto o retorno inesperado de Pereirinha ameaça não apenas a estabilidade emocional da protagonista, mas também sua recém-adquirida fortuna. Ao longo da trama, o conflito entre Griselda e Tereza Cristina expõe valores opostos e sustenta uma reflexão direta sobre classe social, identidade, preconceito e pertencimento, conduzindo a heroína à dolorosa constatação de que, ao tentar se moldar às exigências do mundo das aparências, corre o risco de perder aquilo que sempre definiu seu caráter.
 
Em 2021, Aguinaldo Silva retornou ao horário das 21h com “Império”, uma saga de ascensão, poder e decadência centrada na trajetória de José Alfredo de Medeiros (inicialmente interpretado por Chay Suede), jovem pernambucano que chega ao Rio de Janeiro no final dos anos 1980 em busca de oportunidades e acaba envolvido em uma relação proibida com Eliane (Vanessa Giácomo), mulher de seu irmão Evaldo (Thiago Martins), romance interrompido por um plano ardiloso de Cora (Marjorie Estiano), cuja obsessão e ressentimento selam a ruptura do casal. Lançado à própria sorte, José Alfredo se associa ao enigmático Sebastião (Reginaldo Faria) e ingressa no universo da exploração e do contrabando de pedras preciosas, percurso que o leva à Suíça, onde se casa com Maria Marta (Adriana Birolli), união estratégica que lhe abre as portas da elite econômica. Anos depois, já consolidado como um magnata do setor joalheiro e conhecido como o Comendador (agora vivido por Alexandre Nero), ele retorna ao Brasil casado com Maria Marta (Lília Cabral) em uma relação marcada por ressentimento, jogos de poder e interesses financeiros, tendo como herdeiros o ambicioso José Pedro (Caio Blat), a talentosa Maria Clara (Andreia Horta) e o instável João Lucas (Daniel Rocha), todos envolvidos em disputas veladas pela sucessão da joalheria Império. Em paralelo, José Alfredo mantém um relacionamento com a jovem Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa), manipulada pelos pais para explorá-lo financeiramente, enquanto o desaparecimento de seu diamante rosa, símbolo místico de sua fortuna e autoridade, desperta o temor de que seu império esteja ameaçado. O passado retorna de forma decisiva com a aparição de Cristina (Leandra Leal), filha de Eliane (Malu Galli), que exige o reconhecimento da paternidade e desestabiliza o equilíbrio já frágil da família, intensificando conflitos que expõem temas como ambição desmedida, corrupção moral, herança afetiva e a ilusão de controle absoluto, em uma narrativa que questiona o preço humano da construção de um legado.
 
Em 2025, Aguinaldo Silva lançou “O Sétimo Guardião”, retomando o realismo fantástico ao ambientar a narrativa na isolada Serro Azul, cidade que esconde uma fonte com poderes curativos e rejuvenescedores, protegida por uma irmandade secreta formada pelo prefeito Eurico (Dan Stulbach), o mendigo Feliciano (Leopoldo Pacheco), o médico José Aranha (Paulo Rocha), o delegado Joubert Machado (Milhem Cortaz), a esotérica Milu (Zezé Polessa), a cafetina Ondina (Ana Beatriz Nogueira) e Egídio (Antonio Calloni), o guardião-mor. A sucessão desse posto é anunciada simbolicamente pelo desaparecimento de Leon, o misterioso gato de Egídio, que surge em São Paulo e cruza o caminho de Gabriel (Bruno Gagliasso), jovem que abandona o próprio casamento e passa a ser inexplicavelmente atraído por Serro Azul, onde sofre um acidente e é socorrido por Luz (Marina Ruy Barbosa), com quem desenvolve um vínculo amoroso intenso. O retorno de Valentina Marsala (Lília Cabral), mãe de Gabriel e empresária movida por ambição e ressentimentos do passado, reabre feridas antigas ligadas a Egídio e introduz uma ameaça concreta ao segredo da fonte, sobretudo quando, incentivada pela irmã Marilda (Letícia Spiller), ela descobre a existência do poder oculto e tenta se apropriar dele. A partir desse embate, a trama articula romance, misticismo e disputa por poder, refletindo sobre ganância, ética e responsabilidade coletiva, ao contrapor o desejo individual de exploração à ideia de proteção de um bem comum que, se revelado, poderia corromper toda a ordem de Serro Azul.
 
 
TRABALHOS DE AGUINALDO SILVA NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Partido Alto
04/02/1991
23/08/1991
173
21h15
Autor principal
Roque Santeiro
23/03/1992
20/11/1992
209
21h15
Autor principal
O Outro
13/12/1993
08/07/1994
179
21h15
Autor principal
13/05/1996
27/12/1996
197
21h15
Autor principal
Pedra Sobre Pedra
05/10/1998
30/04/1999
179
21h15
Autor principal
Fera Ferida
14/08/2000
13/04/2001
209
21h15
Autor principal
17/11/2003
09/07/2004
203
21h15
Autor principal
Suave Veneno
17/10/2005
16/06/2006
209
21h15
Autor principal
05/11/2007
27/06/2008
203
21h15
Autor principal
28/03/2011
09/12/2011
221
21h15
Autor principal
30/06/2014
27/02/2015
209
21h15
Autor principal
21/05/2018
21/12/2018
185
21h15
Autor principal
24/05/2021
14/01/2022
203
21h15
Autor principal
15/09/2025
20/03/2026
161
21h30
Autor principal
 
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
13/02/1995
06/10/1995
203
21h15
Autor
Meu Bem Querer
17/02/2003
12/09/2003
179
19h30
Supervisão
07/07/2014
09/01/2015
161
19h30
Supervisão
 
 
REPRISES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
04/05/2015
23/10/2015
149
15h30
Autor principal
11/01/2021
11/06/2021
131
17h00
Autor principal
20/09/2021
04/03/2022
143
15h30
Autor principal
21/02/2022
12/08/2022
149
17h00
Autor principal
12/06/2023
17/11/2023
137
17h00
Autor principal
13/05/2024
18/10/2024
137
17h00
Autor principal

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