domingo, 28 de outubro de 2012

MARCÍLIO MORAES


Marcílio Moraes (Petrópolis, 27 de julho de 1944) é autor, roteirista de telenovelas, contista, romancista e dramaturgo brasileiro, com uma trajetória marcada pela circulação entre diferentes formas de expressão literária e artística. Ao longo de sua carreira, construiu uma atuação diversificada, transitando pela literatura, pelo teatro, pelo jornalismo e pela televisão. Essa formação múltipla contribuiu para uma escrita atenta tanto à construção narrativa quanto à observação dos personagens e das relações humanas, consolidando seu nome entre os autores de destaque da dramaturgia brasileira.
 
Nascido e criado na Rua Teresa, em Petrópolis, Marcílio cresceu em uma região que, naquele período, ainda não havia adquirido a importância comercial que possui atualmente. Sua ligação com a cidade também remonta à própria história familiar, já que sua tataravó, de origem alemã, integrou as primeiras levas de colonos alemães que chegaram a Petrópolis em meados do século XIX. Iniciou os estudos no Colégio Estadual Pedro II e no Liceu Municipal Prefeito Cordolino Ambrósio. Embora tenha estabelecido residência no Rio de Janeiro, manteve uma ligação afetiva e pessoal com sua cidade natal, onde possui uma residência de campo no bairro da Fazenda Inglesa. Petrópolis, portanto, permanece como uma referência importante em sua trajetória e em sua formação pessoal.
 
Na juventude, estudou Letras na antiga Faculdade Nacional de Filosofia e teve participação ativa no movimento estudantil a partir de 1965. Foi vice-presidente do Diretório Acadêmico Livre e posteriormente integrou a diretoria da União Nacional dos Estudantes. Sua formação intelectual e sua experiência em diferentes ambientes profissionais contribuíram para uma carreira particularmente ampla. Antes de se dedicar integralmente à dramaturgia, atuou como professor, tradutor, jornalista, crítico de teatro, publicitário, revisor, dicionarista e assessor técnico da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Essa diversidade de experiências aproximou Marcílio de diferentes campos da cultura e da comunicação, proporcionando-lhe uma formação profissional que ultrapassava os limites da literatura e da televisão.
 
Sua estreia literária ocorreu em 1968, quando publicou seu primeiro conto na revista Cadernos Brasileiros. Alguns anos depois, em 1974, iniciou sua produção teatral, dando início a uma trajetória que seria reconhecida tanto pela crítica quanto pelo público. Entre suas peças estão “A Vaca Metafísica”, encenada por Flávio Rangel no Rio de Janeiro, por Silnei Siqueira em São Paulo e por outros diretores em diferentes regiões do país, além de “Sonata sem Dó” e “Aracelli”. Seu trabalho no teatro lhe rendeu prêmios do antigo Serviço Nacional de Teatro e o prêmio de Revelação de Autor, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Na televisão, também alcançou reconhecimento, recebendo o Troféu Imprensa. A passagem por diferentes linguagens consolidou uma trajetória marcada pela versatilidade, na qual a experiência como escritor e dramaturgo se encontra com o domínio das especificidades da narrativa televisiva.
 
No início da década de 1990, é contratado pelo SBT para integrar a equipe de teledramaturgia da emissora. Seu primeiro contato com o formato ocorre em 1992, como colaborador de Dias Gomes e Aguinaldo Silva no grande sucesso “Roque Santeiro”, exibida às 21h. Ambientada em Asa Branca, pequena cidade do Nordeste, a novela acompanha o retorno de Roque Santeiro (José Wilker), considerado morto há dezessete anos e transformado em mito após supostamente morrer ao enfrentar o bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). Sua reaparição ameaça os interesses daqueles que lucram com sua imagem, especialmente Sinhozinho Malta (Lima Duarte), que ajudou a sustentar a mentira e mantém um relacionamento com a Viúva Porcina (Regina Duarte), que passa a se apaixonar pelo homem que acreditava estar morto. O retorno de Roque também reacende a paixão de Mocinha (Lucinha Lins), sua verdadeira noiva, enquanto a chegada de Matilde (Yoná Magalhães) e de uma equipe de cinema movimenta ainda mais a cidade. A produção se vale do humor e da sátira para expor a exploração da fé popular, os interesses políticos e econômicos e a facilidade com que um mito pode ser construído e utilizado por quem detém o poder.
 
Em seguida, foi convidado por Lauro César Muniz para integrar a equipe de “Roda de Fogo” (1993) como autor. A novela acompanha Renato Villar (Tarcísio Meira), empresário rico, ambicioso e sem escrúpulos que se vê ameaçado por um dossiê sobre irregularidades em uma de suas empresas. Para escapar das consequências, aproxima-se da juíza Lúcia Brandão (Bruna Lombardi), responsável por julgar seu caso, inicialmente disposto a seduzi-la, suborná-la ou chantageá-la. O plano, porém, se volta contra ele quando os dois se apaixonam. Ao descobrir que sofre de uma doença cerebral incurável e tem pouco tempo de vida, Renato passa por uma transformação e decide abandonar a antiga postura para viver esse amor. Ao mesmo tempo, tenta se reaproximar do filho Pedro (Felipe Camargo), fruto de seu relacionamento com Maura Garcez (Eva Wilma), ex-guerrilheira que retorna ao Brasil carregando os traumas provocados pela tortura durante a Ditadura Militar. Enquanto isso, Renato busca acertar contas com os homens que participaram de seus negócios e que agora o traem.
 
No ano seguinte, volta a trabalhar com Dias Gomes nos roteiros de “Mandala” (1994), agora como autor. Ambientada no Rio de Janeiro de 1961, a história parte da trajetória de Jocasta (Vera Fischer), jovem estudante de Sociologia e filha do militante comunista Túlio Silveira (Gianfrancesco Guarnieri), que se envolve com Laio (Perry Salles), rapaz místico e despreocupado com os acontecimentos políticos do país. Quando Jocasta engravida, Laio recorre ao guru Argemiro (Carlos Augusto Strazzer), que prevê que o filho irá matá-lo e se envolver amorosamente com a própria mãe. A previsão leva Laio a desaparecer com a criança após o nascimento. Vinte e cinco anos depois, Jocasta permanece em busca do filho desaparecido, enquanto Laio, agora ligado ao jogo clandestino, encontra Édipo (Felipe Camargo) sem saber que está diante do filho que abandonou. Após sua morte, Jocasta se aproxima do jovem e se apaixona por ele, sem conhecer sua verdadeira identidade. Criado por outra família e dotado de poderes paranormais, Édipo acaba envolvido em uma história marcada por segredos, destino e conflitos familiares, enquanto enfrenta Argemiro em uma disputa associada às forças do bem e do mal. A narrativa recupera elementos da tragédia clássica de Édipo para construir uma narrativa em que o destino, o misticismo e as escolhas humanas se cruzam de maneira decisiva.
 
Antes do término de “Mandala”, Marcílio Moraes se afastou da novela e formou parceria com Leonor Bassères e Euclydes Marinho para escrever sua primeira trama como autor titular: “Mico Preto” (1994), exibida na faixa das 19h. A produção apresentou o misterioso desaparecimento da rica empresária Áurea Garcia (Márcia Real) e a disputa pelo controle de seus negócios. Antes de desaparecer, Áurea nomeia o desconhecido Firmino (Luís Gustavo) como seu procurador. Funcionário público honesto, pacato e sem ambições, ele passa repentinamente a comandar a empresa e precisa enfrentar os filhos da empresária, Fred (José Wilker), Adolfo (Tato Gabus Mendes) e Zé Luís (Miguel Falabella), que não aceitam a decisão da mãe. Ao mesmo tempo, Firmino se envolve com Claudinha (Louise Cardoso), mulher íntegra que teve um casamento fracassado com Fred, enquanto sua noiva Sarita (Glória Pires), interesseira e ambiciosa, mantém uma relação com o deputado José Maria (Marcelo Picchi), que precisa de uma esposa de fachada para sustentar sua carreira política e mantém um namoro secreto com Zé Luís. O retorno de Arnaldo (Miguel Falabella), irmão gêmeo de Zé Luís e bandido foragido, acrescenta outro conflito quando Marisa (Deborah Evelyn), irmã de Claudinha, se apaixona por ele acreditando estar diante do próprio irmão. A ascensão inesperada de Firmino coloca em choque diferentes interesses e transforma a disputa pela fortuna de Áurea em um conflito marcado por ambição, relações de conveniência e personagens que precisam lidar com as consequências de um poder que jamais esperavam conquistar.
 
Dois anos depois, escreveu “Sonho Meu” (1996) na faixa das 18h, sua primeira novela solo como autor titular. Inspirada nas novelas “A Pequena Órfã”, exibida pela TV Excelsior em 1968, e “Ídolo de Pano”, produzida pela TV Tupi em 1974, ambas de Teixeira Filho, a novela acompanha o drama de Cláudia Lins (Patrícia França), que perde a guarda da filha, Maria Carolina (Carolina Pavanelli), para a cunhada Elisa (Nívea Maria), devido às constantes brigas com o marido violento, Geraldo (José de Abreu). A menina acaba em um orfanato no Rio de Janeiro, onde conhece Tio Zé (Elias Gleizer), artesão de brinquedos de madeira que se torna seu protetor e a chama carinhosamente de Laleska. Enquanto luta para recuperar a filha, Cláudia se envolve com os irmãos Lucas (Leonardo Vieira) e Jorge (Fábio Assunção), ligados à família Candeias de Sá. Lucas se apaixona por ela, enquanto Jorge, rejeitado, passa a agir de forma cada vez mais perigosa. Cláudia chega a se casar com Lucas para garantir o tratamento de Maria Carolina, mas acaba acusada de bigamia e volta a enfrentar a ameaça de perder definitivamente a filha. A situação se agrava quando Jorge descobre que não é um verdadeiro Candeias de Sá e que foi colocado no lugar de um neto morto, enquanto sua mãe biológica, Mariana (Débora Duarte), tenta se aproximar do filho. A narrativa articula o drama da separação entre mãe e filha com disputas familiares, relações amorosas e segredos de origem, retomando elementos centrais das obras de Teixeira Filho e reelaborando-os em uma narrativa sobre maternidade, abandono, violência e a luta pela reconstrução de uma família.
 
Em 1998, escreveu “Irmãos Coragem” ao lado de Dias Gomes para a faixa das 18h. Nova versão da novela homônima de Janete Clair exibida em 1977, a trama trouxe como personagens centrais João (Marcos Palmeira), Jerônimo (Ilya São Paulo) e Duda (Marcos Winter), três irmãos que ameaçam o domínio do poderoso fazendeiro Pedro Barros (Cláudio Marzo), autoridade máxima da fictícia Coroado, no interior de Minas Gerais. O conflito ganha força quando João, garimpeiro simples e generoso, encontra um grande diamante e passa a ser perseguido pelos homens de Pedro, que deseja tomar a pedra para si. Com a ajuda de Jerônimo, João enfrenta o fazendeiro e transforma a posse do diamante em uma luta contra a opressão. Ao mesmo tempo, apaixona-se por Lara (Letícia Sabatella), filha de Pedro, sem saber que a jovem sofre de transtorno de múltipla personalidade e também assume as identidades de Diana e Márcia. Jerônimo, por sua vez, enfrenta seus próprios conflitos ao esconder a paixão por Potira (Dira Paes), sua irmã de criação, enquanto ingressa na política de oposição para combater o poder de Barros. Já Duda, famoso jogador de futebol que retorna a Coroado, reencontra a antiga namorada Ritinha (Gabriela Duarte), mas se envolve com Paula (Rita Guedes) e acaba obrigado a lidar com as consequências de suas escolhas quando a jovem engravida. A história preserva a essência de luta contra o poder e a injustiça presente na obra original, mas amplia os conflitos familiares, políticos e amorosos, fazendo do diamante não apenas um objeto de disputa, mas o elemento que desencadeia a resistência dos Coragem contra o domínio de Pedro Barros.
 
Ainda em 1998, foi escalado pela direção de dramaturgia do SBT para supervisionar o texto de Charles Peixoto e Vinícius Vianna na 4ª temporada da novela juvenil “Malhação”. A fase é marcada pelo romance de Bruno (Rodrigo Faro) e Alice (Cássia Linhares), dois jovens que enfrentam obstáculos para viver o relacionamento. Alice é acusada por Rui (Hugo Gross) de ter incentivado o antigo namorado a participar de perigosas competições automobilísticas, que acabam provocando sua morte. Rui mantém um relacionamento com Flávia (Daniele Valente), repórter esportiva mimada que trabalha na produtora de vídeos de seu pai, Milton (Francisco Milani). Paralelamente, a turma da academia descobre que o espaço foi vendido por Rui, que foge com o dinheiro, e passa a lutar contra a ameaça de demolição do local para a construção de uma fábrica de cal. Liderados por Mocotó (André Marques), os jovens organizam uma resistência, mas acabam obrigados a deixar a academia quando a demolição tem início.
 
Em 1999, Marcílio Moraes não renovou seu contrato com o SBT, encerrando um período importante de sua trajetória na televisão, no qual passou de colaborador a autor titular e participou de projetos de diferentes formatos e gêneros. Sua passagem pela emissora revelou a amplitude de sua formação e consolidou uma escrita capaz de transitar por histórias populares, conflitos familiares, dramas sociais, suspense, romance e sátira, sempre com atenção à construção dos personagens e às relações de poder que movimentam suas narrativas. Mais do que uma sucessão de trabalhos, esse percurso representa a afirmação de um autor que chegou à teledramaturgia depois de uma longa experiência na literatura, no teatro e no jornalismo, levando para a televisão uma bagagem intelectual construída ao longo de décadas.
 
TRABALHOS DE MARCÍLIO MORAES NO SBT
 
Novela        
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Mico Preto
14/11/1994
09/06/1995
179
19h30
Autor principal
Sonho Meu
23/12/1996
08/08/1997
197
18h15
Autor principal
 
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela        
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Roque Santeiro
23/03/1992
20/11/1992
209
21h15
Colaborador
Roda de Fogo
17/05/1993
10/12/1993
179
21h15
Colaborador
Mandala
11/07/1994
10/02/1995
185
21h15
Colaborador
Irmãos Coragem
30/03/1998
25/09/1998
155
18h15
Autor
Malhação: 4ª Temp.
17/08/1998
15/01/1999
110
13h45
Supervisor

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