Marcílio
Moraes (Petrópolis, 27 de julho de 1944) é autor, roteirista
de telenovelas, contista, romancista e dramaturgo brasileiro, com uma
trajetória marcada pela circulação entre diferentes formas de expressão
literária e artística. Ao longo de sua carreira, construiu uma atuação
diversificada, transitando pela literatura, pelo teatro, pelo jornalismo e pela
televisão. Essa formação múltipla contribuiu para uma escrita atenta tanto à
construção narrativa quanto à observação dos personagens e das relações humanas,
consolidando seu nome entre os autores de destaque da dramaturgia brasileira.
Nascido e criado na
Rua Teresa, em Petrópolis, Marcílio cresceu em uma região que, naquele período,
ainda não havia adquirido a importância comercial que possui atualmente. Sua
ligação com a cidade também remonta à própria história familiar, já que sua tataravó,
de origem alemã, integrou as primeiras levas de colonos alemães que chegaram a
Petrópolis em meados do século XIX. Iniciou os estudos no Colégio Estadual
Pedro II e no Liceu Municipal Prefeito Cordolino Ambrósio. Embora tenha
estabelecido residência no Rio de Janeiro, manteve uma ligação afetiva e
pessoal com sua cidade natal, onde possui uma residência de campo no bairro da
Fazenda Inglesa. Petrópolis, portanto, permanece como uma referência importante
em sua trajetória e em sua formação pessoal.
Na juventude, estudou
Letras na antiga Faculdade Nacional de Filosofia e teve participação ativa no
movimento estudantil a partir de 1965. Foi vice-presidente do Diretório
Acadêmico Livre e posteriormente integrou a diretoria da União Nacional
dos Estudantes. Sua formação intelectual e sua experiência em diferentes
ambientes profissionais contribuíram para uma carreira particularmente ampla.
Antes de se dedicar integralmente à dramaturgia, atuou como professor,
tradutor, jornalista, crítico de teatro, publicitário, revisor, dicionarista e
assessor técnico da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Essa
diversidade de experiências aproximou Marcílio de diferentes campos da cultura
e da comunicação, proporcionando-lhe uma formação profissional que ultrapassava
os limites da literatura e da televisão.
Sua estreia literária
ocorreu em 1968, quando publicou seu primeiro conto na revista Cadernos
Brasileiros. Alguns anos depois, em 1974, iniciou sua produção teatral,
dando início a uma trajetória que seria reconhecida tanto pela crítica quanto
pelo público. Entre suas peças estão “A Vaca
Metafísica”, encenada por Flávio
Rangel no Rio de Janeiro, por Silnei
Siqueira em São Paulo e por outros diretores em diferentes
regiões do país, além de “Sonata sem Dó” e “Aracelli”. Seu trabalho no teatro lhe rendeu prêmios do antigo Serviço
Nacional de Teatro e o prêmio de Revelação de Autor, concedido pela Associação
Paulista de Críticos de Arte (APCA). Na televisão, também alcançou
reconhecimento, recebendo o Troféu Imprensa. A passagem por diferentes
linguagens consolidou uma trajetória marcada pela versatilidade, na qual a
experiência como escritor e dramaturgo se encontra com o domínio das
especificidades da narrativa televisiva.
No início da década de 1990, é contratado pelo
SBT para integrar a equipe de teledramaturgia da emissora. Seu primeiro contato
com o formato ocorre em 1992, como colaborador de Dias Gomes e Aguinaldo
Silva no grande sucesso “Roque Santeiro”, exibida às 21h. Ambientada
em Asa Branca, pequena cidade do Nordeste, a novela acompanha o retorno de Roque
Santeiro (José Wilker), considerado morto há dezessete anos e
transformado em mito após supostamente morrer ao enfrentar o bandido Navalhada
(Oswaldo Loureiro). Sua reaparição ameaça os interesses daqueles que
lucram com sua imagem, especialmente Sinhozinho Malta (Lima Duarte),
que ajudou a sustentar a mentira e mantém um relacionamento com a Viúva
Porcina (Regina Duarte), que passa a se apaixonar pelo homem que
acreditava estar morto. O retorno de Roque também reacende a paixão de Mocinha
(Lucinha Lins), sua verdadeira noiva, enquanto a chegada de Matilde
(Yoná Magalhães) e de uma equipe de cinema movimenta ainda mais a
cidade. A produção se vale do humor e da sátira para expor a exploração da fé
popular, os interesses políticos e econômicos e a facilidade com que um mito
pode ser construído e utilizado por quem detém o poder.
Em seguida, foi convidado por Lauro César
Muniz para integrar a equipe de “Roda de Fogo” (1993) como autor. A
novela acompanha Renato Villar (Tarcísio Meira), empresário rico,
ambicioso e sem escrúpulos que se vê ameaçado por um dossiê sobre
irregularidades em uma de suas empresas. Para escapar das consequências,
aproxima-se da juíza Lúcia Brandão (Bruna Lombardi), responsável
por julgar seu caso, inicialmente disposto a seduzi-la, suborná-la ou
chantageá-la. O plano, porém, se volta contra ele quando os dois se apaixonam.
Ao descobrir que sofre de uma doença cerebral incurável e tem pouco tempo de
vida, Renato passa por uma transformação e decide abandonar a antiga postura
para viver esse amor. Ao mesmo tempo, tenta se reaproximar do filho Pedro
(Felipe Camargo), fruto de seu relacionamento com Maura Garcez (Eva
Wilma), ex-guerrilheira que retorna ao Brasil carregando os traumas
provocados pela tortura durante a Ditadura Militar. Enquanto isso, Renato busca
acertar contas com os homens que participaram de seus negócios e que agora o
traem.
No ano seguinte, volta a trabalhar com Dias
Gomes nos roteiros de “Mandala” (1994), agora como autor. Ambientada
no Rio de Janeiro de 1961, a história parte da trajetória de Jocasta (Vera
Fischer), jovem estudante de Sociologia e filha do militante comunista Túlio
Silveira (Gianfrancesco Guarnieri), que se envolve com Laio (Perry
Salles), rapaz místico e despreocupado com os acontecimentos políticos do
país. Quando Jocasta engravida, Laio recorre ao guru Argemiro (Carlos
Augusto Strazzer), que prevê que o filho irá matá-lo e se envolver
amorosamente com a própria mãe. A previsão leva Laio a desaparecer com a
criança após o nascimento. Vinte e cinco anos depois, Jocasta permanece em
busca do filho desaparecido, enquanto Laio, agora ligado ao jogo clandestino,
encontra Édipo (Felipe Camargo) sem saber que está diante do
filho que abandonou. Após sua morte, Jocasta se aproxima do jovem e se apaixona
por ele, sem conhecer sua verdadeira identidade. Criado por outra família e
dotado de poderes paranormais, Édipo acaba envolvido em uma história marcada
por segredos, destino e conflitos familiares, enquanto enfrenta Argemiro em uma
disputa associada às forças do bem e do mal. A narrativa recupera elementos da
tragédia clássica de Édipo para construir uma narrativa em que o destino, o
misticismo e as escolhas humanas se cruzam de maneira decisiva.
Antes do término de “Mandala”, Marcílio
Moraes se afastou da novela e formou parceria com Leonor Bassères e Euclydes
Marinho para escrever sua primeira trama como autor titular: “Mico Preto”
(1994), exibida na faixa das 19h. A produção apresentou o misterioso
desaparecimento da rica empresária Áurea Garcia (Márcia Real) e a
disputa pelo controle de seus negócios. Antes de desaparecer, Áurea nomeia o
desconhecido Firmino (Luís Gustavo) como seu procurador.
Funcionário público honesto, pacato e sem ambições, ele passa repentinamente a
comandar a empresa e precisa enfrentar os filhos da empresária, Fred (José
Wilker), Adolfo (Tato Gabus Mendes) e Zé Luís (Miguel
Falabella), que não aceitam a decisão da mãe. Ao mesmo tempo, Firmino se
envolve com Claudinha (Louise Cardoso), mulher íntegra que teve
um casamento fracassado com Fred, enquanto sua noiva Sarita (Glória
Pires), interesseira e ambiciosa, mantém uma relação com o deputado José
Maria (Marcelo Picchi), que precisa de uma esposa de fachada para
sustentar sua carreira política e mantém um namoro secreto com Zé Luís. O
retorno de Arnaldo (Miguel Falabella), irmão gêmeo de Zé Luís e
bandido foragido, acrescenta outro conflito quando Marisa (Deborah
Evelyn), irmã de Claudinha, se apaixona por ele acreditando estar diante do
próprio irmão. A ascensão inesperada de Firmino coloca em choque diferentes
interesses e transforma a disputa pela fortuna de Áurea em um conflito marcado
por ambição, relações de conveniência e personagens que precisam lidar com as
consequências de um poder que jamais esperavam conquistar.
Dois anos depois, escreveu “Sonho Meu”
(1996) na faixa das 18h, sua primeira novela solo como autor titular. Inspirada
nas novelas “A Pequena Órfã”, exibida pela TV Excelsior em 1968,
e “Ídolo de Pano”, produzida pela TV Tupi em 1974, ambas de Teixeira
Filho, a novela acompanha o drama de Cláudia Lins (Patrícia
França), que perde a guarda da filha, Maria Carolina (Carolina
Pavanelli), para a cunhada Elisa (Nívea Maria), devido às
constantes brigas com o marido violento, Geraldo (José de Abreu).
A menina acaba em um orfanato no Rio de Janeiro, onde conhece Tio Zé (Elias
Gleizer), artesão de brinquedos de madeira que se torna seu protetor e a
chama carinhosamente de Laleska. Enquanto luta para recuperar a filha,
Cláudia se envolve com os irmãos Lucas (Leonardo Vieira) e Jorge
(Fábio Assunção), ligados à família Candeias de Sá. Lucas se apaixona
por ela, enquanto Jorge, rejeitado, passa a agir de forma cada vez mais
perigosa. Cláudia chega a se casar com Lucas para garantir o tratamento de
Maria Carolina, mas acaba acusada de bigamia e volta a enfrentar a ameaça de
perder definitivamente a filha. A situação se agrava quando Jorge descobre que
não é um verdadeiro Candeias de Sá e que foi colocado no lugar de um neto
morto, enquanto sua mãe biológica, Mariana (Débora Duarte), tenta
se aproximar do filho. A narrativa articula o drama da separação entre mãe e
filha com disputas familiares, relações amorosas e segredos de origem,
retomando elementos centrais das obras de Teixeira Filho e
reelaborando-os em uma narrativa sobre maternidade, abandono, violência e a
luta pela reconstrução de uma família.
Em 1998, escreveu “Irmãos Coragem” ao
lado de Dias Gomes para a faixa das 18h. Nova versão da novela homônima
de Janete Clair exibida em 1977, a trama trouxe como personagens
centrais João (Marcos Palmeira), Jerônimo (Ilya São
Paulo) e Duda (Marcos Winter), três irmãos que ameaçam o
domínio do poderoso fazendeiro Pedro Barros (Cláudio Marzo),
autoridade máxima da fictícia Coroado, no interior de Minas Gerais. O conflito
ganha força quando João, garimpeiro simples e generoso, encontra um grande
diamante e passa a ser perseguido pelos homens de Pedro, que deseja tomar a
pedra para si. Com a ajuda de Jerônimo, João enfrenta o fazendeiro e transforma
a posse do diamante em uma luta contra a opressão. Ao mesmo tempo, apaixona-se
por Lara (Letícia Sabatella), filha de Pedro, sem saber que a
jovem sofre de transtorno de múltipla personalidade e também assume as
identidades de Diana e Márcia. Jerônimo, por sua vez, enfrenta
seus próprios conflitos ao esconder a paixão por Potira (Dira Paes),
sua irmã de criação, enquanto ingressa na política de oposição para combater o
poder de Barros. Já Duda, famoso jogador de futebol que retorna a Coroado,
reencontra a antiga namorada Ritinha (Gabriela Duarte), mas se
envolve com Paula (Rita Guedes) e acaba obrigado a lidar com as
consequências de suas escolhas quando a jovem engravida. A história preserva a
essência de luta contra o poder e a injustiça presente na obra original, mas
amplia os conflitos familiares, políticos e amorosos, fazendo do diamante não
apenas um objeto de disputa, mas o elemento que desencadeia a resistência dos
Coragem contra o domínio de Pedro Barros.
Ainda em 1998, foi escalado pela direção de
dramaturgia do SBT para supervisionar o texto de Charles Peixoto e Vinícius
Vianna na 4ª temporada da novela juvenil “Malhação”. A fase é
marcada pelo romance de Bruno (Rodrigo Faro) e Alice (Cássia
Linhares), dois jovens que enfrentam obstáculos para viver o
relacionamento. Alice é acusada por Rui (Hugo Gross) de ter
incentivado o antigo namorado a participar de perigosas competições
automobilísticas, que acabam provocando sua morte. Rui mantém um relacionamento
com Flávia (Daniele Valente), repórter esportiva mimada que
trabalha na produtora de vídeos de seu pai, Milton (Francisco Milani).
Paralelamente, a turma da academia descobre que o espaço foi vendido por Rui,
que foge com o dinheiro, e passa a lutar contra a ameaça de demolição do local
para a construção de uma fábrica de cal. Liderados por Mocotó (André
Marques), os jovens organizam uma resistência, mas acabam obrigados a
deixar a academia quando a demolição tem início.
Em 1999, Marcílio Moraes não renovou seu
contrato com o SBT, encerrando um período importante de sua trajetória na
televisão, no qual passou de colaborador a autor titular e participou de
projetos de diferentes formatos e gêneros. Sua passagem pela emissora revelou a
amplitude de sua formação e consolidou uma escrita capaz de transitar por
histórias populares, conflitos familiares, dramas sociais, suspense, romance e
sátira, sempre com atenção à construção dos personagens e às relações de poder
que movimentam suas narrativas. Mais do que uma sucessão de trabalhos, esse
percurso representa a afirmação de um autor que chegou à teledramaturgia depois
de uma longa experiência na literatura, no teatro e no jornalismo, levando para
a televisão uma bagagem intelectual construída ao longo de décadas.
TRABALHOS DE MARCÍLIO MORAES
NO SBT
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Novela
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Estreia
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Término
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Cap.
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Horário
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Função
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Mico Preto
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14/11/1994
|
09/06/1995
|
179
|
19h30
|
Autor principal
|
|
Sonho Meu
|
23/12/1996
|
08/08/1997
|
197
|
18h15
|
Autor principal
|
OUTRAS FUNÇÕES
|
Novela
|
Estreia
|
Término
|
Cap.
|
Horário
|
Função
|
|
Roque Santeiro
|
23/03/1992
|
20/11/1992
|
209
|
21h15
|
Colaborador
|
|
Roda de Fogo
|
17/05/1993
|
10/12/1993
|
179
|
21h15
|
Colaborador
|
|
Mandala
|
11/07/1994
|
10/02/1995
|
185
|
21h15
|
Colaborador
|
|
Irmãos Coragem
|
30/03/1998
|
25/09/1998
|
155
|
18h15
|
Autor
|
|
Malhação: 4ª Temp.
|
17/08/1998
|
15/01/1999
|
110
|
13h45
|
Supervisor
|

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