domingo, 28 de outubro de 2012

SÍLVIO DE ABREU


Sílvio Eduardo de Abreu nasceu em 20 de dezembro de 1942, na cidade de São Paulo. Filho do músico Mozart de Abreu e da costureira Ana Mestieri de Abreu, estudou na escola paroquial Nossa Senhora da Paz. Formou-se em cenografia pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, em 1963.
 
Sílvio de Abreu nunca exerceu a profissão de cenógrafo, mas atuou como ator em diversas peças, como “A Ópera dos Três Vinténs” (1964), de Bertolt Brecht e Kurt Weill, e “Tchin-Tchin” (1965), de Françoise Billetdoux. Foi também assistente de direção de Antônio Abujamra. Estreou como ator profissional em 1965, na peça “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade, dirigido por Antunes Filho.
 
Em 1966, fez um estágio no Actor’s Studio de Nova York, nos Estados Unidos. No ano seguinte, estreou na televisão atuando na novela “O Grande Segredo” (1967), de Marcos Rey, transmitida pela TV Excelsior. No mesmo período, trabalhou em “Os Miseráveis”, novela adaptada por Walther Negrão e transmitida pela TV Bandeirantes.
 
Em 1971, depois de atuar em filmes como “A Marcha” e “A SuperFêmea”, tornou-se assistente do diretor Carlos Manga, com quem realizou o longa metragem “O Marginal”, de Dias Gomes e Lauro César Muniz. Começou, então, a escrever roteiros. Sua primeira experiência de direção foi em 1974, com o filme “Gente que Transa”. Em parceria com Carlos Manga, realizou ainda o documentário “Assim Era a Atlântida” (1975). Além disso, escreveu e dirigiu algumas pornochanchadas, entre as quais “Cada um Dá o que Tem” (1975) e “A Árvore dos Sexos” (1977).
 
Sílvio de Abreu estreou no SBT em 1975, como ator, na novela “A Próxima Atração”, de Walther Negrão. Seu personagem, o delegado Damasceno Henrique Salomão, era baseado no trabalho do ator inglês Peter Sellers.
 
Convidado pela TV Tupi, o autor iniciou sua trajetória em novelas em 1977 com “Éramos Seis”, adaptação do romance de Maria José Dupré escrita em parceria com Rubens Ewald Filho, e, seis anos depois, já no SBT, lançou “Pecado Rasgado” (1983), um folhetim das 19h que transforma o ciúme patológico em motor dramático ao acompanhar Renato (Juca de Oliveira), um viúvo charmoso e avesso a compromissos que se divide entre São Paulo e o Rio enquanto tenta lidar com a filha instável, Cris (Nádia Lippi), criada pelas tias desde a morte da mãe. A rotina de Renato entra em colapso quando ele se envolve com a renomada psicóloga Teca (Aracy Balabanian), justamente a profissional ligada ao universo de Cris, despertando a fúria silenciosa de Estela (Renée de Vielmond), cunhada jovem, controladora e secretamente apaixonada por ele, que passa a usar a sobrinha como instrumento de vigilância e manipulação para sabotar o romance e até afastá-lo da joalheria da família. O veneno de Estela também se espalha sobre a irmã Eunice (Neuza Amaral), viúva deprimida e emocionalmente subjugada, e sobre Nélio (Armando Bógus), melhor amigo de Renato e refém afetivo de sua obsessão, enquanto tramas paralelas ampliam o mosaico melodramático com amores cruzados, frustrações sociais e segredos corrosivos, como o triângulo juvenil envolvendo Cris, Bruno (Cláudio Cavalcanti) e Rodrigo (Ney Sant’Anna), jovem do interior marcado por uma doença terminal. Assim, a novela articula paixão reprimida, poder feminino distorcido e culpa familiar em um enredo que aposta menos na surpresa e mais na escalada psicológica, transformando relações íntimas em campos de batalha emocionais e fazendo do ciúme um retrato sombrio das feridas que a aparência de controle tenta esconder.
 
Em 1985, o autor foi chamado a assumir a reta final de “Plumas e Paetês” após o infarto de Cassiano Gabus Mendes, escrevendo, a partir do capítulo 138, os 47 episódios derradeiros de uma trama centrada no jogo de aparências, na impostura e no universo competitivo da moda, elementos que se condensam na trajetória de Marcela (Elizabeth Savala) que, grávida e sem rumo, é confundida com Júlia, a noiva morta de Osmar (Stepan Nercessian), e passa a conviver com sua rica família, enquanto Edgar (Cláudio Marzo) se apaixona por ela. Marcela reencontra Renato (José Wilker), pai de seu filho, e enfrenta Amanda (Maria Cláudia), ambiciosa rival. Paralelamente, a novela revela os bastidores da moda e conflitos sociais, mostrando a vida da empresária Rebeca (Eva Wilma) e de modelos como Dorinha (Mila Moreira) e Veroca (Lúcia Alves). A troca de identidades, as diferenças de classe e o desejo de pertencimento guiam um enredo repleto de drama e ironia, onde passado e aparências se confrontam.
 
Em 1986, a partir de um argumento de Janete Clair, Sílvio de Abreu escreveu “Jogo da Vida”, comédia urbana ambientada em São Paulo e dirigida por Roberto Talma, Jorge Fernando e Guel Arraes, que parte da queda abrupta de Jordana (Glória Menezes), mulher expansiva e batalhadora abandonada pelo marido Silas (Paulo Goulart) depois de quase duas décadas de casamento, trocada pela jovem e interesseira Carla (Maitê Proença), amiga de colégio de sua filha Lívia (Débora Bloch). Obrigada a recomeçar sem conforto nem status, Jordana encontra apoio no afeto silencioso e leal de Vieira (Gianfrancesco Guarnieri), padeiro português que a ajuda a transformar o casarão herdado de Dona Mena (Norma Geraldy), uma velhinha solitária e desprezada pela família, em um pensionato feminino, ao mesmo tempo em que surge a cobiça dos sobrinhos da falecida, a socialite falida Loreta (Rosamaria Murtinho) e o sedutor Carlito (Raul Cortez), interessados nos misteriosos cupidos de bronze que escondem uma fortuna em dólares. A disputa pelo dinheiro se mistura a jogos de sedução, impostura e interesse, especialmente quando Carlito passa a se aproximar de Jordana, enquanto Silas e Carla afundam em um casamento oportunista e infeliz, incapaz de enxergar o amor sincero de Adriano (Carlos Augusto Strazzer). Em paralelo, a novela costura romances instáveis, armações cômicas e críticas de classe, como o triângulo entre Clarita Catita (Lúcia Alves), o fora da lei carismático Badaró (Carlos Vereza) e o moribundo Etevaldo (Cláudio Corrêa e Castro), ou ainda as intrigas de Mariucha (Elizângela), cuja falsa ingenuidade ameaça lares alheios, fazendo do dinheiro, do desejo e da reinvenção pessoal os eixos de uma narrativa que aposta no humor para expor ambições, afetos mal resolvidos e a capacidade de recomeçar depois da perda.
 
Em 1987, Sílvio de Abreu alcançou projeção nacional com “Guerra dos Sexos”, escrita em parceria com Carlos Lombardi, uma comédia das 19h que transforma a rivalidade afetiva em espetáculo ao acompanhar Charlô, a irreverente Charlote de Alcântara Pereira Barreto (Fernanda Montenegro), e Otávio, o autoritário Otávio de Alcântara Rodrigues e Silva (Paulo Autran), primos que trocaram um romance juvenil por décadas de ressentimento e que são forçados a conviver após a morte do tio milionário Enrico, que condiciona a herança à administração conjunta da mansão da família e da rede de lojas Charlô’s. O conflito ganha contornos de aposta quando Charlô desafia o primo a provar sua competência empresarial em cem dias, enquanto Otávio se alia ao ambicioso Felipe (Tarcísio Meira), filho adotivo dela, para sabotar a loja e humilhar a rival, instaurando uma verdadeira batalha ideológica entre homens e mulheres. Do lado feminino, Charlô encontra apoio em Vânia (Maria Zilda Bethlem), sua assistente leal, e em Roberta Leone (Glória Menezes), viúva do industrial Vitório Leone (Carlos Zara), que assume o comando da Ravello Sports e precisa enfrentar tanto os negócios escusos deixados pelo marido quanto as armações de Otávio e da ardilosa Verusca (Sônia Clara). Em paralelo à guerra empresarial, a novela costura romances atravessados por interesse, diferença de idade e desejo reprimido, como o envolvimento de Roberta com o motorista Nando (Mário Gomes), que desperta o ciúme de Juliana (Maitê Proença), filha de Felipe, e as intrigas de Carolina (Lucélia Santos), falsa aliada de Charlô infiltrada no campo inimigo. O embate atinge o absurdo com o desaparecimento de Otávio e a entrada em cena de Dominguinhos, primo português idêntico a ele (também interpretado por Paulo Autran), culminando em um desfecho farsesco que escancara o caráter satírico da trama, interessada menos em reconciliação do que em expor, com humor afiado, a mesquinharia, o ego e o prazer destrutivo que alimentam essa guerra sem vencedores.
 
Em 1989, atuando como colaborador de Janete Clair, Sílvio de Abreu ajudou a construir “Sétimo Sentido”, novela que mistura paranormalidade, ambição e melodrama. A trama acompanha Luana Camará (Regina Duarte), marroquina que retorna ao Brasil para recuperar a fortuna da família desviada pelos Rivoredo. Entre disputas empresariais com Tião Bento (Francisco Cuoco) e Sandra Rivoredo (Natália do Valle), e romances com Rudi Rivoredo (Carlos Alberto Riccelli), Luana passa por transformações ao ser mediunicamente possuída pelo espírito da atriz italiana Priscila Capricce, alterando relações e alianças. Com a ajuda do advogado Danilo Mendes (Cláudio Cavalcanti), ela busca justiça e reconciliação entre passado e presente.
 
No mesmo ano, supervisionou o texto de Carlos Lombardi em “Vereda Tropical”, comédia das 19h que mistura humor, disputas de classe e jogos de poder familiares. A trama acompanha o romance turbulento entre Silvana (Lucélia Santos) e o jogador Luca (Mário Gomes), constantemente ameaçado por Verônica (Maria Zilda). Conflitos familiares e empresariais se intensificam com Oliva (Walmor Chagas), suas filhas Catarina (Marieta Severo), Verônica e Gabi (Cristina Pereira), e a rivalidade com o químico Jamil Beirute (Gianfrancesco Guarnieri). Entre ambição, afetos instáveis e sonhos de ascensão, a novela combina leveza e observação social, com o bairro Vila dos Prazeres oferecendo contraponto afetivo.
 
Em 1990, Sílvio de Abreu levou ao ar “Cambalacho”, comédia popular que transforma a malandragem em lente para observar desigualdade, afeto e moral flexível, centrando-se na dupla de trambiqueiros Leonarda Furtado, a Naná (Fernanda Montenegro), e Jerônimo Machado, o Jejê (Gianfrancesco Guarnieri), que sobrevivem de golpes miúdos para bancar os estudos da filha de Naná, Daniela (Louise Cardoso), no exterior, enquanto tentam aliviar a culpa adotando crianças abandonadas. A rotina de pequenos cambalachos é virada do avesso quando o milionário Antero Souza e Silva (Mário Lago), pai biológico ausente de Naná, desaparece em um suposto acidente e a elege como única herdeira, frustrando os planos da ambiciosa viúva Andréia (Natália do Vale), que havia se casado por interesse e agora move uma guerra judicial para reaver a fortuna com a ajuda do cunhado Rogério (Cláudio Marzo), advogado machista e infiel, enfrentado pela própria esposa, Amanda (Susana Vieira), que decide defender Naná. O dinheiro atrai ainda o filho deserdado de Antero, Thiago (Edson Celulari), bailarino que retorna ao Brasil e se envolve com Ana Machadão (Débora Bloch), filha de Jejê, relação atravessada por diferenças de classe e temperamento, enquanto a chegada de uma falsa Daniela, interessada apenas na herança, e de falsos nobres franceses, Jean Pierre e o duque Armand Grimaldi Delacroix, na verdade João Pedro (Luiz Fernando Guimarães) e Armandinho (Oswaldo Loureiro), amplia o desfile de imposturas. Ao redor, figuras como Tina Pepper (Regina Casé) e sua mãe Lili Bolero (Consuelo Leandro) reforçam o tom farsesco e musical, compondo um universo em que ninguém é exatamente o que parece, mas onde a generosidade de Naná contrasta com a ganância alheia, fazendo da esperteza um meio de sobrevivência e do afeto um raro gesto de honestidade em meio ao caos.
 
Em 1991, Sílvio de Abreu supervisionou “Bambolê”, novela de Daniel Más exibida às 18h e inspirada em “Chamas e Cinzas”, de Carolina Nabuco, que retrata o glamour do Rio de Janeiro dos anos 1950 e os choques de valores e convenções sociais. A trama acompanha Álvaro Galhardo (Cláudio Marzo), viúvo arruinado pelo jogo, que se envolve com Marta (Susana Vieira) enquanto lida com a oposição da cunhada Fausta (Joana Fomm) e os dramas amorosos das filhas Ana (Myrian Rios), Yolanda (Thaís de Campos) e Cristina (Carla Marins). Entre romance, ciúmes e disputas de classe, a novela combina crítica social e observação das aparências na sociedade da época.
 
Em 1992, Sílvio de Abreu escreveu o sucesso “Sassaricando”, comédia que faz da viuvez tardia um gatilho para ironizar ambição, repressão conjugal e desejo, acompanhando Aparício Varela (Paulo Autran), um sessentão que, após passar a vida submisso ao casar-se por interesse com a tirânica Teodora Abdala (Jandira Martini), herdeira da Tecelagem Abdala, decide recuperar o tempo perdido quando a esposa morre em um atentado que escancara as negociatas da família. Livre dos berros da mulher, dos caprichos da filha mimada Fedora (Cristina Pereira) e das intrigas das cunhadas Lucrécia (Maria Alice Vergueiro) e Fabíola (Ileana Kwasinsky), Aparício assume o comando da empresa e se entrega aos “sassaricos”, dividindo-se entre três mulheres que simbolizam caminhos afetivos distintos: Rebeca (Tônia Carrero), o grande amor abandonado no passado e agora viúva elegante, porém falida; Penélope (Eva Wilma), dona de casa pragmática; e a atriz Leonora Lamarr (Irene Ravache), exuberante e autocentrada. A farsa romântica se intensifica quando Aparício passa a usar disfarces para conquistar as três sem revelar sua identidade, enquanto é sabotado pelo genro Leonardo (Diogo Vilela), bandido infiltrado na família para se casar com Fedora e herdar a fortuna, plano que desanda quando ele se apaixona de verdade. Em paralelo, a trama mistura investigação e conspiração ao revelar a atuação de Guel (Edson Celulari), detetive da Interpol disfarçado, e o esquema da irmandade “Ela”, comandada por Achid Callux (Lorival Pariz), antigo pretendente de Teodora que retorna como Bóris Zaidan para se vingar de Aparício. Entre fantasmas literais, identidades trocadas e romances cruzados, a novela constrói uma sátira sobre dinheiro, poder e liberdade tardia, apostando no humor para expor a falência moral de relações baseadas em conveniência e controle.
 
Quatro anos depois, em 1996, Sílvio de Abreu estreou no horário das 21h com “Rainha da Sucata”, escrita com Alcides Nogueira e José Antônio de Souza e dirigida por Jorge Fernando e Jodele Larcher, usando a oposição entre novos-ricos e a elite paulista decadente como motor de uma sátira social afiada que dialogava diretamente com o Brasil do confisco da poupança. No centro está Maria do Carmo (Regina Duarte), filha de um imigrante português que fez fortuna no ferro-velho e que chega aos anos 1990 poderosa, espalhafatosa e dona de um prédio na Avenida Paulista, onde instala a lambateria Sucata, sem jamais esquecer a humilhação sofrida na juventude pelo então galã rico Edu Figueroa (Tony Ramos). Ao reencontrá-lo falido, vivendo de aparências ao lado do pai Betinho (Paulo Gracindo) e da esposa esnobe Laurinha Figueroa (Glória Menezes), Maria do Carmo usa o próprio dinheiro para comprar um casamento que lhe daria acesso à alta sociedade, abrindo uma guerra particular com Laurinha, símbolo de uma aristocracia sem recursos, mas agarrada à pose e ao preconceito. O embate entre as duas escancara diferenças de classe, gosto e poder, enquanto a ascensão da protagonista começa a ruir por dentro com a sabotagem do administrador Renato (Daniel Filho), movido por ressentimento e paixão mal resolvida, e com a ameaça constante de Dona Armênia (Aracy Balabanian), vizinha delirante que reivindica o prédio da Sucata e sonha vê-lo “na chon”. Ao costurar romance por interesse, vingança afetiva e instabilidade econômica, a novela transforma o choque entre dinheiro novo e sobrenome antigo em comentário mordaz sobre um país em transição, onde riqueza não compra pertencimento e tradição já não garante sobrevivência.
 
Em 1997, enquanto “Rainha da Sucata” ainda estava no ar, Sílvio de Abreu retornou ao horário das 19h com “Deus nos Acuda”, comédia escancaradamente satírica que transforma a corrupção brasileira em farsa celestial ao colocar o país sob a tutela da anja Celestina (Dercy Gonçalves), uma figura indisciplinada e desesperada diante da ameaça divina de ser enviada à Terra caso não consiga melhorar o povo que deveria proteger. Após negociar com o anjo Gabriel (Cláudio Corrêa e Castro) uma prorrogação de seis meses no céu, Celestina recebe de Deus a missão de tornar um brasileiro mais honesto e solidário sem interferir no livre-arbítrio, desafio que ela resolve enfrentar escolhendo Maria Escandalosa (Cláudia Raia), trambiqueira carismática do porto de Santos, filha do igualmente malandro Tomás Euclides (Jorge Dória) e moradora da pensão comandada pela histérica e deslocada Dona Armênia (Aracy Balabanian), reaproveitada do universo de “Rainha da Sucata”. Convencida de que pode salvar Maria, Celestina desobedece às regras divinas ao impedir sua morte em uma explosão e passa a acompanhá-la secretamente na Terra, enquanto a jovem segue alheia à vigilância celestial e se envolve com Ricardo Bismark (Edson Celulari), herdeiro de um império manchado por suspeitas de assassinato comandado pelo pai, Otto Bismark (Francisco Cuoco). A investigação dessas acusações traz ao Brasil Baby Bueno (Glória Menezes), cunhada decidida a desmascarar o clã, enfrentando a oposição da ambiciosa e obsessiva Elvira (Marieta Severo), secretária apaixonada pelo patrão. Com humor escrachado, situações absurdas e personagens deliberadamente caricatos, a novela transforma céu e inferno em extensões do caos nacional, usando a fantasia religiosa para ironizar a dificuldade quase sobrenatural de regenerar um país acostumado a sobreviver entre pequenos golpes, privilégios e improvisos morais.
 
Em 2000, Sílvio de Abreu supervisionou “O Amor Está no Ar”, novela de Alcides Nogueira ambientada em Ouro Velho, que mistura disputa empresarial, conflitos familiares e fantasia. A trama acompanha Sofia (Betty Lago), viúva que assume a empresa de turismo da família e enfrenta a sogra Úrsula (Nicette Bruno), a irmã Júlia (Natália do Valle) e as intrigas que atravessam gerações. Entre romances complicados com Léo (Rodrigo Santoro) e a relação conturbada da filha Luísa (Natália Lage), a novela combina melodrama e elementos fantásticos para refletir sobre poder, desejo e comunicação entre gerações. Na sequência, supervisionou o remake de “Anjo Mau”, originalmente de Cassiano Gabus Mendes e reescrita por Maria Adelaide Amaral para o horário das 18h. A trama acompanha Nice (Glória Pires), jovem pobre e ambiciosa, que usa sedução, mentira e intriga para ascender socialmente, conquistando Rodrigo (Kadu Moliterno) e enfrentando obstáculos familiares e sociais. Paralelamente, a novela aborda preconceito racial, decadência de famílias tradicionais e os limites do desejo e da moral, retratando como ambição e obsessão moldam relações e identidades.
 
Em 2001, Sílvio de Abreu escreveu “A Próxima Vítima”, trama policial das 21h que apostou no suspense contínuo e em uma estrutura de assassinatos em série para radiografar relações corroídas por desejo, dinheiro e ressentimento, ambientando a história entre a Mooca e o Bixiga, em São Paulo. No centro está Ana Carvalho (Susana Vieira), batalhadora dona de uma cantina italiana que há duas décadas vive como amante do mau-caráter Marcelo Rossi (José Wilker), com quem teve três filhos, enquanto ele mantém um casamento de conveniência com a rica Francesca (Tereza Rachel) e um caso ardente com a inescrupulosa Isabela (Cláudia Ohana), noiva do ingênuo Diego (Marcos Frota). A dinâmica explosiva da família Ferreto se amplia com as irmãs de Francesca, a controladora Filomena (Aracy Balabanian), que comanda os negócios e oprime o marido Eliseo (Gianfrancesco Guarnieri), a fútil e ressentida Carmela (Yoná Magalhães) e a enigmática Romana (Rosamaria Murtinho), que retorna da Europa acompanhada de Bruno (Alexandre Borges), apresentado como filho adotivo, mas na verdade seu amante. O assassinato de Francesca, envenenada no aeroporto ao descobrir a traição do marido, desencadeia uma sequência de mortes aparentemente desconexas, todas precedidas por mensagens ligadas ao horóscopo chinês, enquanto o detetive Olavo (Paulo Betti) investiga os crimes e a jovem Irene (Vivianne Pasmanter) tenta entender o elo entre a morte do pai, Hélio (Francisco Cuoco), da tia Júlia (Glória Menezes) e das demais vítimas. À medida que segredos do passado vêm à tona, incluindo um crime antigo envolvendo o primeiro marido de Francesca, a novela constrói um mosaico de culpa coletiva, expondo preconceitos raciais, conflitos de classe e hipocrisias morais, até revelar, apenas no último capítulo, a identidade do assassino, em um desfecho pensado para preservar o impacto do mistério e consolidar a obra como um marco do suspense na teledramaturgia brasileira.
 
Em 2003, Sílvio de Abreu supervisionou “Andando nas Nuvens”, novela de Euclydes Marinho exibida às 19h, que mistura comédia romântica e fábula sobre tempo perdido e segundas chances. A história acompanha Otávio Montana (Marco Nanini), que desperta de uma encefalite letárgica após 18 anos, acreditando viver em 1968, e precisa reconstruir sua vida e relações com as três filhas, enquanto enfrenta rivalidades do passado e tenta reencontrar o amor e a própria identidade em um Rio de Janeiro transformado.
 
Três anos depois de “A Próxima Vítima”, Sílvio de Abreu assinou “Torre de Babel” contando com a coautoria de Bosco Brasil e Alcides Nogueira, uma novela das 21h que usa o espaço simbólico de um shopping center para escancarar violência, desigualdade e hipocrisia social, partindo de um trauma ocorrido no fim dos anos 1970, quando o pedreiro e ex-perito em fogos de artifício José Clementino (Tony Ramos) assassina a esposa em um surto de fúria ao flagrá-la em adultério e é denunciado pelo engenheiro César Toledo (Tarcísio Meira), responsável pela obra onde tudo acontece. Condenado e brutalizado pelo sistema penitenciário, Clementino sai da prisão vinte anos depois decidido a se vingar do antigo patrão, agora um poderoso executivo à frente do luxuoso Tropical Towers, infiltrando-se no empreendimento como vigia enquanto planeja sua destruição. Em paralelo, a trama disseca a família Toledo, marcada por um casamento em crise entre César e Marta (Glória Menezes), pelo retorno da antiga paixão Lúcia (Natália do Valle) e por filhos que expõem fraturas morais distintas, como Guilherme (Marcello Antony), dependente químico protegido por Clara (Maitê Proença), Henrique (Edson Celulari), sedutor compulsivo envolvido com jogos de poder e desejo, e Alexandre (Marcos Palmeira), jovem advogado ingênuo que se torna presa fácil da ambiciosa Sandrinha (Adriana Esteves), filha renegada de Clementino e disposta a usar o romance como fuga da miséria. Ao cruzar dramas familiares, crimes do passado e tensões sociais dentro de um mesmo espaço de consumo, a novela constrói um retrato sombrio da modernidade urbana, onde ascensão econômica, exclusão e ressentimento convivem lado a lado, culminando em um plano de vingança que transforma o progresso em ameaça e a violência em resposta extrema a décadas de humilhação e silêncio.
 
Em 2006, Sílvio de Abreu voltou a apostar no exagero deliberado ao escrever “As Filhas da Mãe”, em parceria com Alcides Nogueira e Bosco Brasil, uma novela que mistura farsa, chanchada e melodrama para revisitar o abandono, a identidade e a cobiça em torno de uma herança milionária. A história começa nos anos 1960, quando Lucinda Maria Barbosa (Fernanda Torres) se vê presa a um casamento infeliz com o manipulador Fausto Cavalcante (Cláudio Lins), que a chantageia após um acidente trágico e a obriga a fugir para a Europa, deixando para trás os filhos Alessandra (Bete Coelho), Tatiana (Andréa Beltrão) e Ramon, que mais tarde se tornaria Ramona (Cláudia Raia), enquanto ele espalha a versão de que a esposa morreu. Décadas depois, Lucinda ressurge no Brasil sob a persona de Lulu de Luxemburgo (Fernanda Montenegro), uma consagrada diretora de arte vencedora de oito Oscars, justamente quando Fausto desaparece após aplicar um grande golpe financeiro nos sócios Arthur Brandão (Raul Cortez) e Manolo Gutierrez (Tony Ramos), abrindo a disputa pelo resort Jardim do Éden. O reencontro da falsa morta com os filhos acontece no momento em que eles retornam ao país para brigar pela herança, expondo trajetórias marcadas por frustração, rivalidade e reinvenção, como a de Ramona, agora uma estilista talentosa que desafia preconceitos e desperta paixões inesperadas. Ao redor desse núcleo, a novela amplia o caos com conspirações empresariais, relações interesseiras e a revelação de Rosalva (Regina Casé), filha bastarda de Fausto, adicionando mais uma camada de disputa ao patrimônio. Com humor escrachado e personagens assumidamente caricatos, a trama transforma o drama familiar em sátira sobre ambição, máscaras sociais e a impossibilidade de enterrar definitivamente o passado.
 
Sílvio de Abreu supervisionou “Da Cor do Pecado” (2008), novela de João Emanuel Carneiro exibida às 19h, que destacou uma protagonista negra e abordou preconceito racial. A trama acompanha Preta (Taís Araújo) e Paco Lambertini (Reynaldo Gianecchini), cujo romance é ameaçado pela interesseira Bárbara (Giovanna Antonelli). Paralelamente, a história explora a troca de identidades com Apolo, irmão gêmeo de Paco, e combina romance, melodrama e críticas sociais sobre desigualdade, pertencimento e racismo estrutural.
 
Em 2010, Sílvio de Abreu supervisionou “Eterna Magia”, estreia solo de Elizabeth Jhin para o horário das 18h, ambientada na mística Serranias, a “Cidade das Bruxas”. A trama acompanha Eva Sullivan (Malu Mader), pianista internacional que retorna da Irlanda e provoca conflitos familiares, principalmente com a irmã Nina (Maria Flor), que tenta reprimir seus dons mágicos. Entre rivalidades, amores frustrados e embates entre magia e ceticismo, a novela explora identidade, inveja e pertencimento usando o misticismo como metáfora de desejos e conflitos geracionais.
 
Sílvio de Abreu voltou ao horário das 21h com “Belíssima” (2012), novela que mistura suspense, melodrama e crítica social para expor a tirania da aparência e a obsessão pelo poder, tendo como eixo a indústria de moda íntima comandada por Júlia Assumpção (Glória Pires) e sua avó, a implacável Bia Falcão (Fernanda Montenegro), uma das vilãs mais emblemáticas da televisão brasileira. Competente, mas emocionalmente oprimida, Júlia administra a fábrica Belíssima sob constante desqualificação da avó, que a compara à mãe falecida, a glamourosa modelo Stella, e transfere essa mesma obsessão estética para a neta Érica (Letícia Birkheuer), enquanto encontra apoio afetivo apenas no tio Gigi (Pedro Paulo Rangel). A trama se abre na Grécia, onde Pedro (Henri Castelli), neto predileto de Bia, vive afastado dos negócios da família ao lado da mulher Vitória Rocha (Cláudia Abreu), da filha Sabina (Marina Ruy Barbosa) e do cunhado Tadeu (Thiago Martins), tentando escapar do preconceito social e do controle doentio da avó. Tudo se rompe com o assassinato de Pedro, que força o retorno de Vitória ao Brasil e desencadeia uma espiral de perseguições, falsas acusações e disputas por herança. Paralelamente, Júlia se apaixona por André Santana (Marcello Antony), homem sedutor e aparentemente apaixonado, união rejeitada por Bia por pura hierarquia social, enquanto o grego Nikos Petrakis (Tony Ramos), amigo de Pedro e marcado por uma história interrompida com Katina (Irene Ravache), surge como contraponto afetivo sincero. À medida que mortes, golpes financeiros e atentados se acumulam, inclusive após a própria morte de Bia, a narrativa revela um grande jogo de manipulações envolvendo o assassinato de Pedro, a ruína emocional de Vitória e a traição de André, transformando o folhetim em um retrato cruel de uma elite que confunde amor com posse, beleza com valor e poder com direito absoluto sobre a vida alheia.
 
Ainda em 2012, Sílvio de Abreu supervisionou “Beleza Pura”, novela de Andréa Maltarolli exibida às 19h, que mistura melodrama e suspense para discutir culpa, responsabilidade e ética. A trama acompanha Guilherme Medeiros (Edson Celulari), engenheiro aeronáutico atormentado por um acidente aéreo, e seu romance com Joana (Regiane Alves), ligado à história de sua mãe desaparecida, Sônia (Christiane Torloni). Entre intrigas de Norma Gusmão (Carolina Ferraz), rivalidades profissionais e segredos familiares, a novela combina romance, ambição e reviravoltas que afetam todos os personagens.
 
Em 2017, Sílvio de Abreu retornou ao horário nobre com “Passione”, novela ambientada entre São Paulo e a Itália que articula melodrama familiar, ambição e conflitos de identidade ao acompanhar a trajetória de Bete Gouveia (Fernanda Montenegro), empresária que construiu um império ao lado do marido Eugênio (Mauro Mendonça), mas que tem sua vida virada do avesso quando ele, à beira da morte, revela que o filho que ela acreditava ter perdido ao nascer foi entregue a um casal de empregados italianos. Enquanto Bete passa a viver atormentada pela possibilidade de reencontrar esse primogênito, o público conhece Antônio Mattoli, o Totó (Tony Ramos), um camponês viúvo que descobre que sua verdadeira mãe está viva no Brasil e que criou com esforço os quatro filhos, Adamo (Germano Pereira), Agostina (Leandra Leal), Agnelo (Daniel de Oliveira) e Alfredo (Miguel Roncato), com a ajuda da irmã Gema (Aracy Balabanian). A revelação do segredo conecta as duas famílias e expõe feridas antigas, sobretudo no seio da Metalúrgica Gouveia, onde os herdeiros Saulo (Werner Schünemann), Gerson (Marcelo Antony) e Melina (Mayana Moura) disputam poder e afeto. A cobiça move a narrativa por meio de Clara (Mariana Ximenes) e Fred (Reynaldo Gianecchini), um casal disposto a manipular sentimentos e identidades para ascender socialmente, com Clara infiltrando-se na vida de Totó para garantir acesso à herança que pode surgir desse reencontro. A narrativa transforma a maternidade interrompida em motor dramático e expõe como dinheiro, herança e desejo de pertencimento contaminam relações familiares e amorosas, revelando fissuras morais profundas por trás de laços que pareciam sólidos.
 
Ainda em 2017, Sílvio de Abreu supervisionou “Guerra dos Sexos”, remake de Daniel Ortiz que atualiza a rivalidade afetiva e ideológica entre os primos Charlô (Irene Ravache) e Otávio (Tony Ramos), antigos amantes transformados em rivais. Após a morte dos tios, precisam administrar juntos a herança e as lojas Charlô’s, numa disputa marcada por apostas, sabotagens e alianças, enquanto romances cruzados e triângulos amorosos expõem, com humor, como poder, dinheiro e vaidade moldam relações pessoais e profissionais.
 
Sílvio de Abreu supervisionou “Alto Astral” (2019), primeira novela solo de Daniel Ortiz na faixa das 19h, uma comédia romântica com viés espiritual. A trama acompanha Caíque (Sergio Guizé), médico sensível guiado pelo espírito Castilho (Marcelo Médici), que se apaixona por Laura (Nathalia Dill), noiva de seu irmão adotivo Marcos (Thiago Lacerda). Entre triângulos amorosos, rivalidade familiar, disputas de poder e interferências da vidente Samanta (Cláudia Raia), a novela mistura amor, ética profissional e espiritualidade, mostrando conflitos que vão além do plano racional.
 
NOVELAS DE SÍLVIO DE ABREU NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Pecado Rasgado
21/03/1983
30/09/1983
167
19h30
Autor principal
Jogo da Vida
05/05/1986
14/11/1986
167
19h30
Autor principal
Guerra dos Sexos
14/12/1987
15/07/1988
185
19h30
Autor principal
Cambalacho
17/09/1990
12/04/1991
179
19h30
Autor principal
Sassaricando
18/05/1992
18/12/1992
185
19h30
Autor principal
30/12/1996
25/07/1997
179
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