domingo, 28 de outubro de 2012

ANA MARIA MORETZSOHN


Ana Maria Coelho Moretzsohn (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1947) é uma escritora e autora de telenovelas brasileira, mãe do ator Guga Coelho, da escritora Patrícia Moretzsohn e do ator e diretor Alexandre Moretzsohn. Em 1989, foi contratada pelo SBT para atuar como colaboradora.
 
Direito de Amar” (1990) marcou o primeiro contato da autora com o universo das telenovelas, como colaboradora de Walther Negrão na faixa das 18h, em um melodrama de época ambientado no início do século XX que explora casamento por interesse, honra familiar e segredos ocultos. A trama gira em torno de Rosália Medeiros (Glória Pires), jovem obrigada pelo pai, Augusto (Edney Giovenazzi), a se casar para saldar uma dívida com o poderoso banqueiro Francisco de Montserrat (Carlos Vereza), decisão que provoca o conflito moral de Leonor (Esther Góes) e leva Rosália a se apaixonar por Adriano de Montserrat (Lauro Corona), médico idealista que desconhece ser filho do próprio noivo imposto. O romance proibido se entrelaça a um mistério central envolvendo Bárbara Cavalcanti de Montserrat (Ítala Nandi), dada como morta, e Joana Cavalcanti (Ítala Nandi), supostamente louca e mantida em reclusão, farsa que começa a ruir com a investigação do Dr. Jorge Ramos (Carlos Zara), antigo rival de Francisco. Entre jogos de poder, identidade trocada, chantagens e disputas amorosas, a novela constrói um retrato crítico da elite autoritária, contrapondo desejo individual, ética médica e opressão social em um enredo marcado por revelações tardias e consequências irreversíveis.
 
Na sequência, a autora colaborou em “Bambolê” (1990), novela de Daniel Más também exibida às 18h, que desloca o foco para o Rio de Janeiro de 1958 e observa transformações de costumes a partir de uma estrutura familiar em choque com valores conservadores. No centro está Álvaro Galhardo (Cláudio Marzo), viúvo falido, boêmio e afetuoso com as filhas Ana (Myrian Rios), Yolanda (Thaís de Campos) e Cristina (Carla Marins), cuja educação liberal desperta a hostilidade da cunhada Fausta (Joana Fomm). A chegada de Marta Ribeiro (Susana Vieira), mulher desquitada e mãe de Murilo (Maurício Mattar) e do pequeno Tavinho (Felipe Fonseca), intensifica os conflitos de classe, moral e desejo, ao mesmo tempo em que romances cruzados, rivalidades femininas e ambições sociais redesenham o destino dos personagens. Enquanto Ana vive um triângulo entre Luís Fernando (Paulo Castelli) e o empreiteiro Nestor (Rubens de Falco), Cristina manipula situações para satisfazer sua inveja, e Yolanda se envolve com Murilo, a narrativa discute liberdade feminina, hipocrisia social e a fragilidade das relações afetivas em um Brasil que ensaia modernidade, mas ainda carrega estruturas patriarcais rígidas.
 
Após um afastamento pessoal, a autora retornou como colaboradora em “O Salvador da Pátria” (1995), primeira experiência na faixa das 21h, ao lado de Lauro César Muniz, em uma novela que mistura sátira política, drama social e thriller policial. A história acompanha a ascensão improvável de Sassá Mutema, (Lima Duarte), boia-fria ingênuo transformado em bode expiatório por uma armação do deputado Severo Blanco (Francisco Cuoco), que tenta ocultar seu adultério com Marlene (Tássia Camargo). Acusado injustamente de assassinato, Sassá ganha apoio popular, especialmente da professora Clotilde (Maitê Proença), e acaba manipulado por diferentes forças políticas até conquistar uma posição própria de poder. Paralelamente, a trama expõe uma complexa rede de corrupção, narcotráfico e disputas de influência envolvendo figuras como o radialista Juca Pirama (Luis Gustavo), a fazendeira Marina Sintra (Betty Faria), a ambígua Bárbara Telles (Lúcia Veríssimo) e o piloto João Matos, depois Miro Ferraz (José Wilker), vítima de uma conspiração criminosa. Ao acompanhar a trajetória de um homem comum lançado ao centro do jogo político, a novela questiona moralismo, populismo e a fabricação de heróis, revelando como poder e violência se articulam nos bastidores da vida pública brasileira.
 
Enquanto ainda colaborava em “O Salvador da Pátria”, Ana Maria estreou como autora titular ao lado de Ricardo Linhares e Maria Carmem Barbosa no horário das 19h com “Lua Cheia de Amor” (1995), releitura de “Dona Xepa” (1980), que desloca o foco para o melodrama popular urbano e para o retrato das desigualdades sociais a partir de Genuína Miranda, a Dona Genu (Marília Pêra), ambulante batalhadora abandonada pelo marido Diego (Francisco Cuoco), mas que insiste em esperar seu retorno enquanto sustenta sozinha os filhos Rodrigo (Roberto Battaglin) e Mercedes (Isabela Garcia). A dedicação absoluta da mãe contrasta com a vergonha que ambos sentem de sua origem humilde: Rodrigo, aspirante a cineasta, afasta-se ainda mais de Genu ao iniciar uma ascensão profissional e se envolve com mulheres que representam status e liberdade, como Rutinha (Silvia Bandeira), enquanto Mercedes revela ambição extrema ao tentar ascender socialmente por meio de um casamento de conveniência com Douglas Jordão (Rodolfo Bottino), sem saber que ele também esconde a própria falência. O núcleo dos Souto Maia amplia o debate sobre aparência, dinheiro e hipocrisia social, com Laís (Susana Vieira), obcecada por prestígio; Conrado (Cláudio Cavalcanti) à frente de uma poderosa agência de publicidade; o inconformismo de Augusto (Maurício Mattar) diante do destino de herdeiro; e o drama íntimo de Isabela (Drica Moraes), marcada por baixa autoestima e chantagem. Em paralelo, o amor silencioso de Túlio (Geraldo Del Rey) por Genu passa despercebido, até que o reaparecimento de Diego sob a identidade de Estebán Garcia reconfigura afetos, expõe feridas antigas e coloca em xeque o ideal de sacrifício materno, fazendo da novela um estudo sobre dignidade, ilusão social e o custo emocional da ascensão em um mundo que valoriza mais as aparências do que os vínculos afetivos.
 
Em 1996, Ana Maria emplacou sua primeira novela no horário das 21h ao lado de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares com “Tieta” (1996), livre adaptação do romance “Tieta do Agreste”, de Jorge Amado, que mistura melodrama, sátira social e erotismo para desmontar o moralismo do interior nordestino. A história parte da expulsão de Tieta (Claudia Ohana) de Santana do Agreste, escorraçada pelo pai autoritário Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos) sob a influência da filha mais velha, a amarga Perpétua (Adriana Canabrava), episódio que a leva a fugir para São Paulo e a reconstruir a própria vida longe da hipocrisia local. Vinte e cinco anos depois, ela retorna transformada em Antonieta Esteves (Betty Faria), rica, exuberante e decidida a confrontar os fantasmas do passado, desestabilizando uma cidade que chega a celebrar uma missa em sua memória por acreditá-la morta. Sua presença expõe interesses ocultos, recalca desejos e inverte hierarquias, sobretudo na relação com a própria Perpétua (Joana Fomm), símbolo do conservadorismo repressivo. O reencontro com figuras como Osnar (José Mayer), sedutor que nunca a esqueceu, Ascânio Trindade (Reginaldo Faria), idealista que aposta no progresso, e Tonha (Yoná Magalhães), mulher simples marcada pela violência doméstica, amplia o retrato de uma comunidade presa entre tradição e modernização, tema reforçado pela polêmica instalação de uma fábrica poluidora na região. Entre vingança íntima, desejo feminino, crítica ambiental e exposição das elites locais, a novela transforma o retorno da protagonista em um acerto de contas coletivo, usando humor ácido e personagens caricatos para revelar contradições sociais profundas.
 
Escrita novamente em parceria com Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, “Pedra Sobre Pedra” (1998) se passa na fictícia Resplendor, na Chapada Diamantina, onde a rivalidade histórica entre as famílias Pontes e Batista estrutura um melodrama atravessado por disputas políticas, paixões interditadas e elementos de realismo fantástico. A trama tem início com o rompimento traumático do casamento de Murilo Pontes (Nelson Baskerville) e Pilar Farias (Cláudia Scher), quando ela abandona o noivo no altar ao acreditar que ele engravidara sua melhor amiga, Eliane (Carla Marins), decisão que desencadeia uma cadeia de vinganças e alianças cruzadas. Pilar se casa com o rival Jerônimo Batista (Felipe Camargo) e tem Marina (Adriana Esteves), enquanto Murilo se une a Hilda (Andréa Murucci), com quem tem Leonardo (Maurício Mattar), seguindo carreira política em Brasília. Com a morte de Eliane no parto, Pilar cria a filha da amiga, rebatizando-a com o mesmo nome, gesto que reforça temas de culpa, reparação e identidade. Vinte e cinco anos depois, o retorno de Murilo (Lima Duarte) a Resplendor reaquece o embate ao tentar lançar Leonardo como prefeito, plano que colide com a ascensão de Marina e com o romance secreto entre os dois jovens, herdeiros de um amor mal resolvido do passado. Esse conflito central se amplia com a presença de Cândido Alegria (Armando Bógus), personagem ambíguo que ascendeu socialmente por meio do crime, nutre obsessão por Pilar (Renata Sorrah) e disputa o poder local com o apoio da ambiciosa Eliane, sem saber que é seu pai, além de núcleos paralelos marcados por desejo, fanatismo religioso e transgressão, como o do fotógrafo Jorge Tadeu (Fábio Júnior), dos ciganos liderados por Yago (Humberto Martins) e da beata Gioconda Pontes (Eloísa Mafalda). Ao articular rivalidade familiar, amor interditado, ambição política e sobrenatural, a novela constrói um retrato simbólico de um sertão onde passado e presente se chocam, transformando ressentimentos íntimos em disputas públicas pelo controle da memória e do poder.
 
Em “Fera Ferida” (2000), escrita para o horário das 21h novamente em parceria com Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, a vingança e a cobiça estruturam uma fábula política inspirada no universo de Lima Barreto, ambientada na fictícia Tubiacanga. A trama se inicia quando o prefeito Feliciano Mota da Costa (Tarcísio Meira) convence a população da existência de ouro na cidade ao exibir uma falsa pepita, contando com o apoio do Major Emiliano Bentes (Lima Duarte), do Professor Praxedes (Juca de Oliveira) e de Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana), golpe que leva os moradores a entregarem suas economias e termina em revolta popular, fuga e assassinato do casal Feliciano, enterrado pelo próprio filho, Feliciano Júnior (Diogo Bandeira). Quinze anos depois, o sobrevivente retorna sob a identidade de Raimundo Flamel (Edson Celulari), figura enigmática que promete transformar ossos humanos em ouro e desperta a ambição coletiva, usando essa farsa alquímica como instrumento para destruir os poderosos responsáveis pela tragédia familiar, em especial o prefeito corrupto Demóstenes Massaranduba (José Wilker) e o autoritário Major Bentes. Nesse jogo de manipulação e acerto de contas, cruzam-se intrigas políticas e afetivas, como o triângulo entre Demóstenes, a fogosa redatora de discursos Rubra Rosa (Susana Vieira) e o vereador traído Numa Pompílio, além do romance entre Linda Inês (Giulia Gam), filha do prefeito, e Raimundo, sem que ela saiba que ele é o antigo namorado de infância dado como morto. O passado retorna ainda na figura de Salustiana Maria (Joana Fomm), que chantageia o Major exigindo o reconhecimento do filho Cassi Jones (Marcos Winter), enquanto rivalidades, farsas públicas e desejos privados expõem uma cidade movida pela ganância e pela hipocrisia, na qual a vingança se transforma em espetáculo e a crença no ouro revela menos uma promessa de riqueza do que a fragilidade moral de Tubiacanga.
 
Em “Esplendor” (2003), sua estreia como autora solo no horário das 18h, Ana Maria ambienta a trama no fim dos anos 1950 e constrói um melodrama de inspiração gótica, dialogando com A Bela e a Fera ao articular identidade trocada, culpa, desejo e redenção. Na fictícia cidade sulista de Esplendor, o industrial milionário Frederico Berger (Floriano Peixoto) vive recluso na Vivenda do Sombrio, marcado pela morte da esposa Elisa (Ângela Figueiredo) em um acidente aéreo ocorrido após uma discussão do casal, tragédia que lhe deixou uma cicatriz no rosto, pesadelos constantes e um temperamento autoritário que intimida todos ao redor, inclusive o filho pequeno Gui (Thiago de Los Reyes), menino silencioso que diz ver o espírito da mãe. É nesse ambiente opressivo que chega Flávia Cristina (Letícia Spiller), jovem determinada que foge do Rio de Janeiro após acreditar ter cometido um crime para proteger o irmão Bruno (Caio Blat) e acaba assumindo a identidade de Flávia Regina (Christine Fernandes), moça idêntica a ela que entra em coma depois de um acidente de ônibus a caminho do emprego como governanta na mansão. Enquanto tenta sobreviver à farsa e ao assédio do ambicioso Cristóvão Rocha (Murilo Benício), Flávia Cristina se aproxima da frágil Adelaide Berger (Cássia Kiss), irmã afetuosa de Frederico, e conquista a confiança da família, despertando no industrial um amor que o confronta com o luto e a dureza que o definem. Paralelamente, ressentimentos antigos alimentam a intriga, como o ódio de Olga Norman (Joana Fomm), professora de piano dos Berger, que responsabiliza Frederico pela morte do filho e se alia a Cristóvão em um plano de vingança, tensão que se intensifica quando Flávia Regina desperta do coma disposta a desmascarar a usurpadora. Entre fantasmas do passado, paixões obsessivas e jogos de identidade, a novela investiga como o amor pode tanto revelar feridas profundas quanto oferecer a possibilidade de transformação.
 
Em “Estrela-Guia” (2004), Ana Maria propõe uma trama contemporânea e curta, concebida como experimento narrativo, que contrapõe a lógica competitiva da vida urbana aos valores coletivos de uma comunidade alternativa, apostando na conciliação entre esses dois mundos. A história gira em torno do reencontro entre Tony (Guilherme Fontes), um executivo workaholic moldado pelo mercado financeiro, e Cristal (Sandy), jovem criada na comunidade Arco da Aliança, fundada no interior de Goiás por seus pais, Hanuman (Marcos Winter) e Kalinda (Maitê Proença), ex-hippies que renunciaram ao consumo e às posses em nome do altruísmo e da harmonia espiritual. Órfã aos 17 anos, Cristal vai morar no Rio de Janeiro sob a tutela do padrinho, que não via havia quinze anos, e o choque entre a sensibilidade idealista da menina, vista como “estrela-guia” do grupo, e o pragmatismo exausto de Tony desencadeia um romance inesperado, marcado por culpa, diferença de idade e questionamentos morais. O conflito se amplia com a presença da fútil e possessiva Vanessa (Carolina Ferraz), namorada de Tony, disposta a usar dinheiro e influência para afastar a rival, aliando-se à ambiciosa Daphne Pimenta (Lília Cabral), que deseja expulsar a comunidade de Jagatah para explorar economicamente as terras, utilizando o próprio filho, Carlos Charles (Rodrigo Santoro), como instrumento de manipulação. Entre disputas afetivas, interesses econômicos e debates sobre espiritualidade, tecnologia e egoísmo, a novela defende a possibilidade de um novo modelo de convivência, sintetizado no projeto de Tony e Cristal de transformar Jagatah em uma fazenda moderna sem abrir mão dos princípios coletivos, em uma narrativa de apenas 83 capítulos que buscou dialogar com temas geracionais e utópicos às vésperas do novo milênio.
 
Sabor da Paixão” (2005), sétima novela de Ana Maria Moretzsohn como autora titular, é uma comédia romântica de tom realista ambientada entre o Rio de Janeiro e Portugal, que estrutura sua narrativa como um conto de fadas contemporâneo em que gastronomia, música e dança funcionam como elementos dramáticos centrais. A trama acompanha Diana Coelho (Letícia Spiller), jovem ligada à rotina familiar do bar Flor do Douro, na Lapa, que, após a morte trágica do pai, Miguel (Lima Duarte), assume responsabilidades adultas e parte em busca de terras herdadas em Portugal como única saída para a crise financeira da família. Nesse percurso, ela conhece Alexandre Paixão (Luigi Baricelli), um bon vivant ligado a um vinhedo português, por quem se apaixona intensamente, rompendo com o noivado estável que mantinha no Brasil. O romance é atravessado por um conflito clássico, já que as terras reivindicadas por Diana estão ocupadas por Zenilda Paixão (Arlete Salles), mãe de Alexandre, figura autoritária que concentra o antagonismo da história. A partir de disputas familiares, choques culturais, segredos domésticos e personagens pitorescos da Lapa e do interior português, a novela articula temas como herança, pertencimento, amadurecimento e conciliação entre tradição e desejo individual, usando o universo sensorial da comida e do vinho como metáfora para afeto, memória e identidade.
 
Após uma passagem de cinco anos por outras emissoras, Ana Maria Moretzsohn retornou ao SBT em 2011 para escrever a 19ª temporada de “Malhação”, intitulada “Conectados”, que introduziu o realismo fantástico como eixo dramático ao acompanhar Gabriel (Caio Paduan), jovem intuitivo que mantém o blog “Além da Intuição” e passa a vivenciar coincidências inquietantes ligadas ao número 1046, tensionando os limites entre razão, pressentimento e acaso. Recém-chegado ao Rio de Janeiro, ele divide apartamento com Babi (Marcella Rica) e Cristal (Thaís Melchior), ocupando o antigo quarto de Alexia (Bia Arantes), estudante marcada pela morte do namorado Douglas (Pierre Baitelli) e que encontra novo sentido ao atuar como voluntária na Comunidade dos Anjos, onde se envolve afetivamente com Moisés (Alejandro Claveaux), gerente da ONG. As tramas juvenis se entrelaçam a conflitos de classe, preconceito e ética quando Gabriel entra em choque com Betão (Lucas Cordeiro), jovem de classe média ligado a uma rede de relações que inclui Ziggy (Felipe Haiut) e Natália (Carla Salle), enquanto o blog se torna catalisador de encontros, rivalidades e ameaças reais. Ao incorporar espiritualidade, vida digital e engajamento social, a temporada amplia o universo da novela para além do colégio, tratando de luto, responsabilidade coletiva e do impacto das escolhas individuais em um mundo hiperconectado.
 
Em 2012, foi escalada pelo SBT para supervisionar o texto de Rosane Svartman e Glória Barreto na 20ª temporada de “Malhação”, intitulada “Intensa como a Vida”, um recorte vibrante da juventude que usa o cotidiano escolar como ponto de partida para discutir amizade, amor, identidade e escolhas morais. No centro da trama está o triângulo afetivo entre Lia (Alice Wegmann), Ju (Agatha Moreira) e Dinho (Guilherme Prattes), três vizinhos e alunos do Colégio Quadrante que veem a amizade ser colocada à prova quando o desejo entra em cena. Ao redor deles surgem personagens que evidenciam as contradições desse universo, como Orelha (David Lucas), que transforma a intimidade dos colegas em espetáculo por meio de um diário virtual, e Fatinha (Juliana Paiva), que usa o próprio carisma para ganhar popularidade e vantagens, trazendo à tona temas como exposição, ética e pertencimento. Fora da escola, o Misturama funciona como ponto de encontro e espaço de transição geracional, comandado por Nando (Léo Jaime), um roqueiro dos anos 80 que precisa rever seu estilo de vida ao enfrentar uma doença. Seus conflitos com a ex-mulher Tizinha (Vanessa Lóes), a namorada Bárbara (Maria Paula) e a vizinha Marcela (Danielle Winits) ampliam o alcance da narrativa. Tramas paralelas, como o romance secreto entre Mário (Eduardo Galvão) e Alice (Carla Marins), pais de Dinho, reforçam o olhar para além do universo adolescente. O resultado é um retrato intenso das relações humanas, em que amadurecer significa lidar com frustrações, consequências e escolhas difíceis.
 
Em 2013, Ana Maria Moretzsohn retornou como autora titular em “Malhação: Casa Cheia”, escrita em parceria com sua filha, Patrícia Moretzsohn, cuja trama gira em torno da união de duas famílias em um casarão no Grajaú, onde Ronaldo (Tuca Andrada) e Vera (Isabela Garcia) buscam realizar o sonho de reunir seus filhos de relacionamentos anteriores. Anita (Bianca Salgueiro) apoia a mãe na nova fase, enquanto Sofia (Hanna Romanazzi), filha também de Vera, resiste à mudança, criando conflitos que se intensificam com a interferência da vizinha Maura (Alexandra Richter), interessada em tomar o imóvel. A juventude se destaca no foco dado à ambiciosa Giovana (Bruna Griphao), aspirante a rock star que divide a paixão pela música com o amigo Guilherme (Matheus Costa), enquanto seu pai João Luiz (Erom Cordeiro) tenta controlá-lo. Paralelamente, Benjamim (Gabriel Falcão), que cresceu nos Estados Unidos, retorna ao Brasil em busca de seus objetivos, despertando interesse em Anita e Sofia, sem que eles possam se conhecer a fundo inicialmente. A narrativa explora temas como a reconstrução familiar, os desafios das relações afetivas e a luta por identidade entre gerações, inserida em um cenário que mescla tensões sociais e aspirações pessoais no contexto carioca.
 
Ana Maria passou cinco anos afastada das novelas até ser convidada por Ricardo Linhares para integrar sua equipe de roteiristas em “Saramandaia” (2019), releitura da obra clássica de Dias Gomes exibida originalmente em 1976, que transforma a fictícia cidade de Bole-Bole em palco de uma disputa política tão absurda quanto simbólica, centrada no desejo de parte da população de mudar o nome do município, liderada pelos irmãos João Gibão (Sérgio Guizé), um homem que guarda asas, e o prefeito Lua Viana (Fernando Belo), contra os Tradicionalistas comandados pelo conservador Coronel Zico Rosado (José Mayer), defensor ferrenho da memória local. Enquanto esse embate expõe temas como identidade, poder, tradição e progresso, a narrativa mergulha de vez no realismo fantástico ao apresentar figuras como Dona Redonda (Vera Holtz), que explode de tanto comer, Tibério Vilar (Tarcísio Meira), que criou raízes ao se isolar do mundo, Seu Cazuza (Marcos Palmeira), prestes a cuspir o próprio coração quando se emociona, Marcina (Chandelly Braz), que entra em combustão ao sentir desejo, e o Professor Aristóbulo (Gabriel Braga Nunes), um lobisomem insone, usando o exagero como ferramenta crítica. Nesse cenário retorna Vitória Vilar (Lilia Cabral), empresária bem-sucedida que volta à cidade após ficar viúva para reparar erros do passado e tentar pôr fim à rivalidade entre os Vilar e os Rosado, conflito marcado por perdas irreparáveis e pela figura de Candinha Rosado (Fernanda Montenegro). O reencontro entre Vitória e Zico reabre uma paixão interrompida pela herança de ódio entre as famílias, fazendo com que sentimentos soterrados, segredos antigos e ressentimentos mal resolvidos venham à tona, reforçando a proposta da obra de usar o insólito para falar, de forma mordaz e política, sobre afetos, intolerância e os ciclos de violência que atravessam gerações.
 
Em 2020, Ana Maria Moretzsohn optou por não renovar seu contrato com o SBT, encerrando um vínculo profissional iniciado em 1989 e marcado por diferentes fases de atuação na emissora, como colaboradora, autora titular e supervisora de texto. Ao longo dessa trajetória, contribuiu de forma consistente para a teledramaturgia brasileira, participando de obras que dialogaram com o melodrama clássico, a sátira política, o realismo fantástico e o retrato social, tanto em produções voltadas ao público adulto quanto juvenil. Sua escrita destacou-se pela atenção aos conflitos morais, às relações familiares, às disputas de poder e às tensões entre tradição e transformação, colaborando para a diversidade temática e estética das novelas exibidas pelo SBT. A decisão de não renovar o contrato representou o encerramento de um ciclo profissional relevante, consolidando uma participação duradoura e plural na história da emissora e da televisão brasileira.
 
NOVELAS DE ANA MARIA MORETZSOHN NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Lua Cheia de Amor
12/06/1995
19/01/1996
191
19h30
Autora principal
13/05/1996
27/12/1996
197
21h15
Autora principal
Pedra Sobre Pedra
05/10/1998
30/04/1999
179
21h15
Autora principal
Fera Ferida
14/08/2000
13/04/2001
209
21h15
Autora principal
Esplendor
28/04/2003
19/09/2003
125
18h15
Autora principal
Estrela-Guia
07/06/2004
10/09/2004
83
18h15
Autora principal
Sabor da Paixão
26/12/2005
16/06/2006
149
18h15
Autora principal
Malhação: Conectados
07/11/2011
19/10/2012
250
13h45
Autora principal
Malhação: Casa Cheia
09/09/2013
15/08/2014
245
13h45
Autora principal
 
 
OUTRAS FUNÇÕES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
Direito de Amar
14/05/1990
30/11/1990
173
18h15
Colaboradora
Bambolê
03/12/1990
21/06/1991
173
18h15
Colaboradora
O Salvador da Pátria
09/10/1995
10/05/1996
185
21h15
Colaboradora
Malhação: Intensa
22/10/2012
06/09/2013
230
13h45
Supervisora
07/01/2019
22/03/2019
55
22h30
Autora
 
 
REPRISES
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
11/01/2021
11/06/2021
131
16h45
Autora principal

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