domingo, 28 de outubro de 2012

WALCYR CARRASCO


Walcyr Rodrigues Carrasco (Bernardino de Campos, 1º de dezembro de 1951) é um dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro, reconhecido como um dos autores mais populares e versáteis da teledramaturgia nacional. Ao longo de sua trajetória, destacou-se pela capacidade de transitar entre diferentes formatos narrativos: jornalismo, literatura infantojuvenil, teatro, minisséries e telenovelas, construindo uma obra marcada por forte comunicação com o público, domínio do melodrama e habilidade em abordar temas sociais em linguagem acessível e emocionalmente envolvente.
 
Descendente patrilinear de espanhóis, cursou inicialmente três anos de História antes de optar pela formação em Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ainda no início da carreira, atuou como jornalista em importantes veículos da imprensa brasileira, como O Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo e Diário Popular. Também trabalhou em revistas de grande circulação nacional, entre elas IstoÉ (da Editora Três), Veja, Contigo! (da qual foi diretor) e Recreio, todas da Editora Abril, onde também produziu contos infantis, iniciando sua ligação com a literatura voltada ao público jovem.
 
Em 1982, publicou seu primeiro livro infantil, “Quando meu irmãozinho nasceu”, pela Editora Paulinas, dando início a uma produção literária que mais tarde incluiria obras como “Vida de droga” e “O Menino Narigudo”, frequentemente adotadas como paradidáticos em escolas brasileiras por abordarem temas sensíveis com linguagem direta e educativa. Paralelamente, iniciou sua carreira teatral como dramaturgo com peças como “Batom”, que contribuiu para projetar a atriz Ana Paula Arósio, e “Êxtase”, consolidando sua presença também nos palcos.
 
A estreia de Walcyr Carrasco na televisão ocorreu como roteirista do seriado “Joana” (1984), na Rede Manchete, marcando sua transição definitiva do jornalismo para a dramaturgia televisiva. A trama acompanha a rotina de Joana Martins (Regina Duarte), uma jornalista investigativa que, enquanto atua na revista Ideia Nova ao lado de colegas como Cacau (Marco Nanini), Joca (Gésio Amadeu) e Caetano (Renato Borghi), enfrenta os desafios de sua vida pessoal ao lado do atual marido Guilherme (Rodrigo Santhiago) e dos filhos Rafael (David Cardoso Jr.), Isabel (Andréa Militello) e Carolina (Érika Slama), frutos de seu relacionamento anterior com Sérgio (Umberto Magnani). O autor articulou conflitos familiares e pautas sociais, políticas e criminais, e evidenciou seu interesse por temas cotidianos e dilemas humanos sob uma perspectiva crítica e realista.
 
Sua primeira telenovela como autor titular foi “Cortina de Vidro” (1989), exibida pela Rede Manchete, marco que consolidou a entrada de Carrasco no universo dos folhetins ao construir uma narrativa que contrapõe o ambiente sofisticado de um grande complexo empresarial aos conflitos dos operários de uma fábrica do ABC ameaçada de fechamento. Nesse cenário, ganha destaque Frederico Stuart Mill (Herson Capri), milionário que assume uma identidade humilde para se aproximar da bailarina Branca (Betty Gofman), mas acaba ligado à operária Ângela (Sandra Annenberg), que passa a cuidar dele após perder a memória em um incêndio. A obra investe no contraste entre classes, no jogo de identidades e nas consequências das escolhas pessoais, explorando tensões sociais e afetivas sem perder o foco no melodrama característico do gênero.
 
Em 1991, Walcyr Carrasco escreveu duas minisséries para Rede Manchete, explorando propostas bastante distintas: em “O Guarani”, adaptação do romance de José de Alencar, a narrativa acompanha o indígena Peri (Leonardo Brício), fiel protetor de Ceci (Angélica), filha de D. Antônio de Mariz (Carlos Eduardo Dolabella), enquanto a família enfrenta ameaças internas, como as maquinações de Loredano (Luiz Armando Queiróz), e externas, com o cerco indígena motivado por vingança, resultando em uma história marcada por conflitos culturais, religiosos e coloniais que culminam em destruição e sobrevivência na mata. Já em “Filhos do Sol”, o autor desloca o foco para o suspense contemporâneo ao seguir o ufólogo Aírton (Raul Gazolla), que parte de São Tomé das Letras rumo a Machu Picchu ao lado de Hiran (Cassiano Ricardo), investigando fenômenos extraterrestres ligados a uma pedra misteriosa e a um túnel entre os dois locais, incorporando elementos de ficção científica e misticismo para construir uma trama de mistério e especulação.
 
Foi com “Xica da Silva” (1996), também exibida pela Manchete, que Walcyr Carrasco alcançou consagração nacional como novelista, assinando o texto sob o pseudônimo Adamo Angel enquanto ocupava a direção de teledramaturgia da Record, estratégia que evitava conflitos contratuais e cuja autoria real só foi revelada em 1997, ainda com a trama no ar. Ambientada no século 18, a narrativa acompanha Xica (Taís Araújo), uma escravizada que subverte sua condição ao conquistar o poderoso contratador João Fernandes (Victor Wagner), utilizando inteligência e ousadia para ascender socialmente e desafiar a elite local, o que desperta a fúria de Violante (Drica Moraes), representante de uma aristocracia racista e ressentida. Entre episódios de violência, vingança, perseguições e reviravoltas que incluem acusações, punições e separações forçadas, a obra constrói um retrato intenso da sociedade colonial brasileira, marcada pela exploração, pela cobiça em torno dos diamantes e por relações de poder profundamente desiguais, ao mesmo tempo em que transforma sua protagonista em símbolo de enfrentamento e mobilidade social dentro de um contexto historicamente opressor.
 
Cumprindo o acordo com a Record, Carrasco escreveu, em 1998, a novela “Fascinação”. A trama acompanha Clara (Regiane Alves), jovem pobre que estuda graças a uma bolsa e se apaixona por Carlos Eduardo (Marcos Damigo) após um encontro marcado por uma profecia de uma cigana, elemento que reforça o tom de destino tão caro ao gênero. O romance, porém, é sabotado por Melânia (Glauce Graieb), mãe do rapaz, cuja ambição e decadência financeira a levam a manipular o futuro do filho ao aproximá-lo da rica Berenice (Samantha Monteiro), amiga de Clara que, movida por insegurança, se deixa conduzir por esse arranjo. A relação entre os protagonistas se intensifica, mas é atravessada por violência simbólica e moral quando Clara engravida e é expulsa de casa, evidenciando a rigidez social e o peso das convenções da época. Em paralelo, Melânia articula um plano com Alexandre (Heitor Martinez Mello), que assume falsamente a paternidade da criança, levando Carlos Eduardo a desacreditar na jovem e a romper com ela, movimento que reforça o tema da manipulação como motor dramático.
 
Walcyr Carrasco foi contratado pelo SBT em 2002, após consolidar sua reputação como autor de grande apelo popular ao escrever novelas de sucesso para diferentes emissoras, destacando-se pela habilidade em transitar entre o melodrama clássico e narrativas contemporâneas, sempre com forte comunicação com o público e domínio das estruturas folhetinescas que impulsionam audiência.
 
Inspirada na peça A Megera Domada, “O Cravo e a Rosa” marcou a estreia de Walcyr Carrasco no SBT em 2003, evidenciando sua habilidade em adaptar conflitos clássicos para o contexto brasileiro ao ambientar a narrativa na São Paulo dos anos 1920, onde Catarina Batista (Adriana Esteves) se impõe como uma mulher à frente de seu tempo ao rejeitar os papéis tradicionais femininos, atitude que a faz ser conhecida como “a fera” e a coloca em choque com uma sociedade conservadora que tenta enquadrá-la. Julião Petruchio (Eduardo Moscovis), fazendeiro pragmático e machista, enxerga no casamento com Catarina uma solução financeira para salvar suas terras, estabelecendo desde o início uma relação baseada em interesse que rapidamente se transforma em um embate de personalidades fortes. A convivência entre os dois é marcada por provocações constantes e disputas de poder, revelando um jogo afetivo em que nenhum dos dois admite seus sentimentos, enquanto a governanta Mimosa (Suely Franco) tenta conter os excessos da jovem. Ao redor desse núcleo, interesses familiares e ambições sociais ampliam o conflito, com Nicanor Batista (Luís Melo) pressionando a filha a se casar para proteger sua imagem pública e viabilizar sua carreira política, ao mesmo tempo em que Bianca (Leandra Leal) vê seu próprio destino amoroso condicionado às escolhas da irmã. A trama se expande com alianças e sabotagens que tensionam ainda mais o romance, como a inveja de Lindinha (Vanessa Gerbelli), a manipulação do jornalista Serafim (João Vitti) e a vingança silenciosa de Joaquim (Carlos Vereza), cuja motivação pessoal introduz uma camada de ressentimento que ultrapassa o conflito amoroso. Nesse cenário, o relacionamento entre Catarina e Petruchio evolui entre enfrentamentos e aproximações, funcionando como eixo de uma narrativa que discute papéis de gênero, interesses econômicos e orgulho emocional, construindo o confronto inicial em um percurso de transformação mútua sem abandonar o tom crítico e bem-humorado característico da obra.
 
Três meses após o término de sua obra anterior, Carrasco retornou ao horário das 18h com “A Padroeira” (2004), reafirmando sua capacidade de dialogar com o público ao combinar romance, aventura e elementos históricos inspirados no livro As Minas de Prata, em uma narrativa ambientada no Brasil de 1717. A trama acompanha Cecília de Sá (Deborah Secco), jovem portuguesa que chega ao país e é sequestrada pelo ambicioso Molina (Luís Melo), sendo resgatada por Valentim Coimbra (Luigi Baricelli), cujo heroísmo dá início a um romance atravessado por imposições familiares e interesses políticos. Ao descobrir que está prometida a Dom Fernão de Avelar (Maurício Mattar), Cecília se vê presa a uma lógica patriarcal que transforma o casamento em instrumento de poder, enquanto Valentim enfrenta o peso de um passado marcado pela acusação injusta contra seu pai, o que o impulsiona a buscar o mapa das minas como forma de restaurar sua honra. Esse mesmo objeto de desejo movimenta outros núcleos da história, especialmente Molina, que se infiltra na vila disfarçado de religioso, evidenciando a presença constante da fraude e da ambição como forças desestabilizadoras. A relação entre os protagonistas se torna ainda mais tensa com a interferência de Blanca de Sevilha (Patrícia França), cuja aproximação de Valentim introduz um jogo emocional que amplia o conflito amoroso. Paralelamente, a narrativa incorpora a dimensão espiritual ao retratar os pescadores de Guaratinguetá e o surgimento da devoção à Nossa Senhora Aparecida, elemento que contrapõe a ganância dos poderosos à fé popular, estruturando uma história em que interesses materiais e crenças coletivas se entrelaçam na condução dos destinos dos personagens.
 
Escrita por Walcyr Carrasco em 2006, “Chocolate com Pimenta” estrutura seu melodrama na fictícia Ventura dos anos 1920, onde a fábrica Bombom concentra poder econômico e social, servindo de pano de fundo para uma narrativa de ascensão e revanche. A trama acompanha Ana Francisca (Mariana Ximenes), jovem pobre que, após perder o pai, passa a viver com parentes simples e trabalha como faxineira na fábrica administrada de forma corrupta por Jezebel (Elizabeth Savala), sem saber que o verdadeiro dono, Ludovico (Ary Fontoura), observa tudo ao se disfarçar de operário e circular anonimamente pelo local. É nesse contexto que ele conhece Ana e se comove com sua sinceridade, estabelecendo uma relação de afeto que se torna decisiva quando a jovem, apaixonada por Danilo (Murilo Benício), é cruelmente humilhada em público por Olga (Priscila Fantin), com o apoio de Bárbara (Lília Cabral), evidenciando o peso do preconceito social e da elite local. Grávida e desamparada, Ana vê sua situação se transformar quando Ludovico revela quem realmente é e decide se casar com ela, oferecendo proteção e levando-a para Buenos Aires, onde ela passa por uma profunda mudança de vida antes de ficar viúva. Anos depois, retorna a Ventura como uma mulher rica e influente, agora acionista majoritária da fábrica, determinada a confrontar aqueles que a desprezaram, usando o fechamento do negócio como forma de pressionar a cidade e expor sua dependência econômica. O reencontro com Danilo reabre mágoas alimentadas por equívocos do passado, sustentando um conflito em que orgulho e ressentimento impedem a reconciliação imediata, enquanto a narrativa articula humor e crítica social ao acompanhar a protagonista em sua tentativa de equilibrar vingança, justiça e os sentimentos que ainda a ligam ao passado.
 
Em “Alma Gêmea” (2008), Walcyr Carrasco constrói um melodrama centrado na ideia de amor que atravessa o tempo ao combinar romance, espiritualidade e elementos de reencarnação em uma narrativa ambientada entre a década de 1920 e anos posteriores. A história começa com Rafael (Eduardo Moscovis), botânico dedicado à criação de rosas, e Luna (Liliana Castro), bailarina por quem se apaixona e com quem forma uma família, tendo sua felicidade interrompida quando ela é morta ao protegê-lo de um assalto cometido por Guto (Alexandre Barilari), ligado à invejosa Cristina (Flávia Alessandra), cuja ambição já se manifesta desde o início. A tragédia estabelece o tom de perda que marca o protagonista, incapaz de seguir adiante após a morte da esposa, enquanto, paralelamente, nasce Serena (Priscila Fantin), criada em uma aldeia indígena e desde cedo conectada a visões inexplicáveis envolvendo uma rosa branca e um ambiente que não reconhece, sugerindo a continuidade espiritual de Luna. Anos depois, Serena chega à cidade de Roseiral e passa a trabalhar na casa de Rafael, provocando um reencontro carregado de estranhamento e reconhecimento intuitivo, que evidencia a proposta da narrativa de vincular memória afetiva e destino. Sua aproximação com Felipe (Sidney Sampaio), filho de Luna, reforça esse elo ao despertar nela um sentimento materno que não sabe explicar, enquanto Cristina e sua mãe Débora (Ana Lúcia Torre) percebem na jovem uma ameaça concreta a seus planos de ascensão financeira por meio do casamento com Rafael. Nesse contexto, a trama articula conflito emocional e disputa por poder ao explorar como interesses materiais, inveja e desejo de controle se contrapõem à ideia de um amor que resiste à morte, conduzindo os personagens por um percurso em que passado e presente se entrelaçam de forma constante.
 
Algumas semanas após o fim de “Alma Gêmea”, Walcyr Carrasco foi escalado para assumir a reta final de “Esperança” (2009), novela das 21h criada por Benedito Ruy Barbosa, em meio a uma crise de produção e queda de audiência que culminou no afastamento do autor original por problemas de saúde, o que exigiu uma intervenção direta para reorganizar a narrativa e normalizar a entrega de capítulos. Ambientada no início dos anos 1930, a trama acompanha o romance entre Toni (Reynaldo Gianecchini) e Maria (Priscila Fantin), separados por conflitos familiares e pelo processo de imigração para o Brasil, em um contexto marcado por tensões sociais e econômicas. Ao assumir o folhetim, Carrasco promoveu mudanças significativas, criando novos entrechos, ajustando perfis de personagens e reequilibrando o ritmo dramático, o que evidencia sua capacidade de adaptação a uma obra em andamento e de reestruturação narrativa sob pressão, contribuindo para recuperar o interesse do público e evitar que a novela consolidasse um desempenho ainda mais negativo no horário nobre.
 
Em 2010, Walcyr Carrasco assumiu a supervisão do remake de “O Profeta” para a faixa das 18h, clássico de Ivani Ribeiro originalmente exibido em 1977, acompanhando a adaptação de Duca Rachid e Thelma Guedes para uma ambientação nos anos 1950 e reforçando a condução dramática de uma história centrada no conflito entre destino e livre-arbítrio. A trama acompanha Marcos (Thiago Fragoso), um jovem com o dom de prever o futuro, habilidade que desde a infância o isola e o coloca diante de experiências traumáticas, como a incapacidade de evitar a morte do irmão Lucas (Henrique Ramiro), evento que o marca profundamente e orienta suas escolhas. Em busca de recomeço, ele se muda para São Paulo, onde conhece Sônia (Paolla Oliveira), por quem se apaixona de imediato, apesar do envolvimento dela com seu primo Camilo (Malvino Salvador), estabelecendo um triângulo que tensiona razão e sentimento. Ao mesmo tempo, Marcos se envolve com Ruth (Carol Castro) e desperta o afeto silencioso de Carola (Fernanda Souza), enquanto passa a ser alvo de interesses oportunistas que enxergam em seu dom uma ferramenta de lucro, o que introduz uma dimensão ética importante à narrativa.
 
Por conta dos grandes sucessos no horário das 18h, Carrasco foi promovido em 2010 para assumir um novo desafio às 19 horas, faixa tradicionalmente mais leve, ágil e dependente de identificação imediata com o público. A mudança exigia não apenas adaptação de tom, mas também uma reformulação de linguagem, já que suas obras anteriores estavam ancoradas em narrativas de época, menos frequentes nesse horário. Diante desse cenário, o autor dedicou mais de um ano ao desenvolvimento de um folhetim contemporâneo que equilibrasse humor, ritmo dinâmico e conflitos cotidianos.
 
Nesse contexto, estreou às 19h em 2011 com “Sete Pecados”, cuja narrativa foi estruturada a partir do contraste entre os sete pecados capitais e suas virtudes opostas, organizando os conflitos dos personagens a partir desse jogo simbólico entre falhas morais e possibilidades de redenção. No centro da história está Beatriz (Priscila Fantin), uma jovem rica, mimada e impulsiva que vive em busca de prazer imediato e tem sua rotina transformada ao conhecer o taxista Dante (Reynaldo Gianecchini), homem simples, ético e generoso que a ajuda espontaneamente em um momento difícil e desperta nela um sentimento que ela inicialmente tenta negar por orgulho, decidindo conquistá-lo mesmo sabendo que ele é casado com Clarice (Giovanna Antonelli) e pai de família. Determinada a mudar o destino do homem por quem se apaixona, Beatriz aproxima-se do enigmático guru Barão (Aílton Graça), ligado à misteriosa Ágatha (Cláudia Raia) e a uma sociedade secreta que lhe impõe a condição de levar Dante a cometer os sete pecados capitais para que ele abandone sua vida anterior e se entregue a essa paixão, ao mesmo tempo em que a própria jovem passa por um processo gradual de transformação pessoal. Paralelamente, descobre que Ágatha manipula os acontecimentos com o objetivo de se apropriar da fortuna deixada por seu pai desaparecido após um acidente aéreo, utilizando o envolvimento emocional de Beatriz como instrumento de seus interesses, o que coloca a protagonista diante de escolhas decisivas entre ambição e afeto e reforça a estrutura moral da narrativa, construída como uma reflexão dramática sobre livre-arbítrio, responsabilidade ética e possibilidade de mudança individual.
 
Um ano depois, Carrasco retornou ao horário das 19h com “Caras & Bocas” (2013), comédia romântica ambientada em São Paulo que acompanha a história de Dafne (Flávia Alessandra) e Gabriel (Malvino Salvador), apaixonados desde que se conheceram em um curso de pintura quinze anos antes, quando ele era um jovem artista talentoso de origem humilde e ela a neta rica do empresário Jacques (Ary Fontoura), que desconfiava das intenções do rapaz e, com a ajuda da esposa Léa (Maria Zilda Bethlem) e da ambiciosa enteada Judith (Deborah Evelyn), armou para que Gabriel aceitasse uma bolsa de estudos em Londres sem saber que Dafne estava grávida de Bianca (Isabelle Drummond), provocando um desencontro definitivo entre os dois. Anos depois, Dafne tornou-se uma galerista respeitada, mas emocionalmente fechada após acreditar ter sido abandonada, enquanto Jacques, arrependido pelas consequências de sua interferência e preocupado com o futuro da neta e da empresa da família, tenta aproximá-la do advogado Vicente (Henri Castelli), ao mesmo tempo em que Judith continua a tramar para assumir o controle da fortuna do padrasto. Paralelamente, o aspirante a pintor Denis (Marcos Pasquim), primo de Gabriel, tenta se firmar no mercado de arte com a ajuda involuntária do chipanzé Xico, autor das telas que ele apresenta como suas, enganando inclusive Simone (Ingrid Guimarães), sócia de Dafne na galeria, que acredita estar diante de um grande talento artístico. A reaproximação gradual entre Dafne e Gabriel reabre antigas feridas e reconfigura relações familiares e afetivas interrompidas pelo passado, estruturando uma narrativa que articula desencontros amorosos, ambição patrimonial e identidade artística como motores dramáticos de uma história centrada nas consequências das escolhas familiares e na possibilidade de reconstrução dos vínculos afetivos.
 
Em 2015, a tecnologia, os robôs e a busca por fósseis de dinossauros serviram de pano de fundo para os encontros e desencontros amorosos da comédia romântica “Morde & Assopra”, exibida às 19h, que acompanhou a trajetória da paleontóloga Júlia (Adriana Esteves), pesquisadora que, após perder sua tese em um terremoto no Japão, conhece o inventor Ícaro (Mateus Solano), obcecado em reconstruir, por meio da robótica, a imagem de sua esposa desaparecida Naomi (Flávia Alessandra), e descobre por meio dele a existência de ossadas pré-históricas na cidade fictícia de Preciosa, no interior de São Paulo, oportunidade que a leva ao local em busca de uma descoberta científica inédita. Ao chegar à cidade, Júlia entra em conflito com o fazendeiro Abner (Marcos Pasquim), viúvo e pai de Tonica (Klara Castanho), proprietário das terras onde estão os fósseis e inicialmente contrário às escavações, mas gradualmente envolvido por uma relação afetiva marcada por atritos e aproximações, enfrentando ainda a oposição de Celeste (Vanessa Giácomo), irmã de sua falecida esposa e apaixonada por ele. Em meio às pesquisas, a rotina de Preciosa é atravessada pelas interferências do prefeito Isaías (Ary Fontoura) e da primeira-dama Minerva (Elizabeth Savala), pelas manobras de Salomé (Jandira Martini), mãe de Celeste, e pelas confusões provocadas por Dulce (Cássia Kiss), vendedora de cocadas que acredita no falso prestígio profissional do filho Guilherme (Klebber Toledo), enquanto o rapaz tenta sustentar sua farsa ao se aproximar de Alice (Marina Ruy Barbosa), filha do prefeito, compondo um conjunto de histórias paralelas que ampliam o retrato social da cidade e sustentam uma narrativa construída sobre o contraste entre ciência e tradição, progresso tecnológico e relações afetivas, explorando o choque entre visões de mundo distintas como motor dramático da aproximação entre os protagonistas.
 
Dois anos depois, Walcyr Carrasco retornou às novelas em um novo horário, às 22h30, faixa inaugurada para produções mais curtas e releituras de obras já consagradas, e escreveu o remake de “Gabriela” (2018), inspirado no romance de Jorge Amado, autor por quem sempre demonstrou especial admiração, retomando uma história que já havia sido adaptada anteriormente pela emissora em 1975 por Walter George Durst com grande repercussão. Ambientada em 1925, durante uma severa seca no Nordeste, a narrativa acompanha a chegada da retirante Gabriela (Juliana Paes) a Ilhéus, na Bahia, cidade enriquecida pelas lavouras de cacau, onde passa a trabalhar como cozinheira para o comerciante Nacib (Humberto Martins), dono do bar Vesúvio, iniciando com ele uma relação afetiva marcada por tensões e diferenças de comportamento. Enquanto a cidade se mobiliza para a tradicional procissão de São Jorge dos Ilhéus como tentativa de unir ricos, pobres e boêmios diante das dificuldades provocadas pela estiagem, intensifica-se o confronto político entre o poderoso Coronel Ramiro Bastos (Antônio Fagundes), representante da velha ordem dos coronéis do cacau, e o jovem exportador Mundinho Falcão (Mateus Solano), defensor da modernização da região por meio da construção de um novo porto, disputa que ganha dimensão pessoal com o romance entre Mundinho e Jerusa (Luiza Valdetaro), neta do coronel, e se reorganiza após a morte de Ramiro, quando a ascensão do rival evidencia a permanência de estruturas tradicionais sob novas lideranças, articulando relações amorosas e conflitos políticos para retratar as tensões entre mudança social e herança coronelista no interior baiano.
 
Em 2019, Walcyr Carrasco retornou ao horário das 18h após uma década dedicado a outras faixas da emissora e apresentou “Êta Mundo Bom!”, centrada na trajetória de Candinho (Sérgio Guizé), um matuto de espírito otimista que, separado da mãe logo após o nascimento e criado pelo casal Cunegundes (Elizabeth Savala) e Quinzinho (Ary Fontoura) em uma fazenda no interior de São Paulo, acaba expulso de casa ao se apaixonar por Filomena (Débora Nascimento) e parte para a capital em busca de sua mãe biológica, Anastácia (Eliane Giardini), orientado pelo professor Pancrácio (Marco Nanini) e acompanhado de seu inseparável burro Policarpo. Ao chegar à cidade grande, Candinho descobre que Anastácia se tornou uma viúva rica que também procura pelo filho desaparecido, mas enfrenta a oposição da ambiciosa Sandra (Flávia Alessandra), sobrinha da milionária que teme perder sua posição de herdeira e passa a sabotar o reencontro, enquanto o rapaz tenta sobreviver em meio às dificuldades urbanas, constrói amizade com o menino Pirulito (JP Rufino) e procura reconquistar Filomena, agora envolvida com Ernesto (Eriberto Leão), que a enganou com promessas de casamento e a explora financeiramente em um taxi dancing. A narrativa acompanha a jornada de superação do protagonista diante de injustiças e desencontros familiares e amorosos, articulando humor, ingenuidade e conflitos sociais para valorizar a persistência, a esperança e a crença na bondade como forças transformadoras.
 
No mesmo ano, Carrasco passou a ocupar uma posição de destaque ainda maior dentro da dramaturgia do SBT ao ser solicitado simultaneamente para duas novas produções, movimento raro e indicativo da confiança da emissora em seu desempenho naquele momento. Impulsionada pelo expressivo êxito de “Êta Mundo Bom!” na faixa das 18h, que registrou os melhores índices de audiência do horário em quase uma década e recolocou o autor no centro da estratégia dramatúrgica do canal, a direção de dramaturgia decidiu promovê-lo ao seleto grupo responsável pelas novelas das 21h, com estreia prevista já para o início de 2020, consolidando sua presença também na principal vitrine de teledramaturgia da emissora. Apenas um mês após esse anúncio, Carrasco foi novamente confirmado como autor da próxima produção das 22h, faixa tradicionalmente reservada a projetos mais curtos e de perfil específico, cuja obra já se encontrava integralmente escrita e acabou aprovada para produção, evidenciando não apenas a produtividade do autor naquele período, mas também o papel estratégico que passou a exercer na reorganização das diferentes frentes narrativas do SBT.
 
Em janeiro de 2020, o SBT promoveu a estreia de “Verdades Secretas” na faixa das 22h, rompendo com a sequência de remakes e releituras adotada desde a retomada das produções do horário em 2018 e apostando em uma narrativa contemporânea centrada no triângulo formado por Carolina (Drica Moraes), sua filha Arlete (Camila Queiroz) e o empresário Alex (Rodrigo Lombardi), que se envolve simultaneamente com as duas. Vinda do interior de São Paulo para tentar a carreira de modelo e ajudar nas dificuldades financeiras da família, Arlete conhece o booker Visky (Rainer Cadete) e é encaminhada para a agência comandada por Fanny Richard (Marieta Severo), onde recebe o nome artístico Angel e passa a integrar o chamado book rosa, circuito de prostituição de luxo apresentado como oportunidade profissional, decisão que a aproxima de Alex e desencadeia uma relação intensa e perigosa, marcada pelo fato de o empresário também se aproximar de Carolina para manter o vínculo com a jovem. Ao mesmo tempo em que acompanha a ascensão da protagonista no competitivo universo da moda e suas consequências pessoais, a trama expõe as tensões familiares provocadas por escolhas difíceis e pela vulnerabilidade social que impulsiona suas decisões, utilizando o glamour das passarelas como contraponto para abordar exploração, desejo e poder nas relações contemporâneas e revelar os mecanismos ocultos que atravessam o mercado da beleza e do consumo.
 
Já em fevereiro de 2020, Walcyr Carrasco estreou na faixa das 21h com “Amor à Vida”, novela contemporânea ambientada em São Paulo que acompanha os conflitos da família Khoury a partir da rivalidade entre os irmãos Félix (Mateus Solano) e Paloma (Paolla Oliveira), herdeiros do hospital San Magno e filhos do médico César Khoury (Antônio Fagundes) com Pilar (Susana Vieira). Enquanto César deposita na filha a continuidade de seu legado profissional, Pilar protege o primogênito, cuja sensação de rejeição alimenta uma inveja persistente e o leva a conspirar contra a irmã para assumir o controle dos negócios da família. Incapaz de seguir a carreira médica, Félix investe na administração do hospital e mantém um casamento de fachada com Edith (Bárbara Paz), ao mesmo tempo em que oculta sua homossexualidade e manipula situações a seu favor. Durante uma viagem, Paloma se envolve com Ninho (Juliano Cazarré) e, meses depois, dá à luz com a ajuda de Márcia (Elizabeth Savala), mas tem a filha recém-nascida sequestrada pelo próprio irmão e abandonada em uma caçamba de lixo. A criança é encontrada por Bruno (Malvino Salvador), que havia acabado de perder a esposa e o filho no parto e decide adotá-la. Doze anos depois, Paloma reencontra Bruno no hospital sem saber que Paulinha (Klara Castanho), criada por ele, é a filha que lhe foi roubada. Quando descobre a verdade, a médica passa a lutar para recuperar a menina, enfrentando o pai de criação da criança e as novas intervenções de Félix, enquanto segredos antigos começam a emergir dentro da família, estruturando uma narrativa centrada na disputa por herança, pertencimento e reconhecimento afetivo, em que rivalidade fraterna e identidade ocultada funcionam como forças determinantes do destino dos personagens.
 
Carrasco retornou ao horário das 21h em agosto de 2024 com “O Outro Lado do Paraíso”, novela ambientada no Jalapão, no Tocantins, que acompanha a trajetória de Clara (Bianca Bin), jovem de origem simples criada pelo avô Josafá (Lima Duarte) e amiga de longa data de Renato (Rafael Cardoso), cuja vida muda ao se apaixonar por Gael (Sérgio Guizé), herdeiro de uma família influente de Palmas. Após o casamento, Clara passa a conviver com a violência do marido e com as manipulações de Sophia (Marieta Severo), sua sogra, que descobre a existência de esmeraldas nas terras da família e decide afastá-la para explorar a região. Com a ajuda do juiz Gustavo (Luís Melo), do psiquiatra Samuel (Eriberto Leão) e do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), Sophia consegue internar Clara em uma clínica psiquiátrica isolada. Dez anos depois, fortalecida pela experiência e herdeira de uma fortuna deixada por uma interna da instituição, Clara retorna determinada a recuperar sua vida e enfrentar os responsáveis por sua queda com o apoio do advogado Patrick (Thiago Fragoso), enquanto descobre que Renato se aliou à antiga inimiga. Paralelamente, Beth (Glória Pires), sua mãe biológica, vive há anos sob a identidade de Duda após ter sido afastada da família por uma armação de Natanael (Juca de Oliveira), pai de seu marido Henrique (Emílio de Mello), e encontra na filha a chance de provar sua inocência e reconstruir sua história, compondo uma narrativa centrada em injustiça, identidade e reparação moral que articula relações familiares rompidas e disputas por poder como motores da trajetória de superação da protagonista.
 
Em 2026, Walcyr Carrasco voltou a escrever para a faixa das 21h com “A Dona do Pedaço”, novela centrada na trajetória de Maria da Paz (Juliana Paes), mulher de origem simples do interior do Espírito Santo criada em uma família de justiceiros, mas que desde a infância preferiu aprender a fazer bolos com a avó em vez de seguir a tradição violenta do clã Ramirez. Ainda jovem, ela se apaixona por Amadeu (Marcos Palmeira), integrante da família rival Matheus, e os dois tentam selar a paz entre os grupos por meio do casamento, interrompido quando o noivo é baleado no altar e dado como morto, obrigando Maria a fugir para São Paulo, onde é acolhida por Marlene (Suely Franco) e reconstrói a vida vendendo bolos até se tornar, anos depois, uma empresária bem-sucedida do ramo de confeitarias. Já adulta, enfrenta o desprezo da filha Josiane (Agatha Moreira), que se alia ao playboy Régis (Reynaldo Gianecchini) para aplicar um golpe financeiro contra a própria mãe, enquanto busca aproximação com a influenciadora Vivi Guedes (Paolla Oliveira), sem saber que ela é sua prima desaparecida Virgínia, irmã de Fabiana (Nathalia Dill), criada em convento e movida pelo desejo de recuperar o passado perdido. Paralelamente, Vivi vive um conflito amoroso entre o policial Camilo (Lee Taylor) e Chiclete (Sérgio Guizé), integrante da família Matheus encarregado de matá-la, mas que acaba se apaixonando por ela, ao mesmo tempo em que Amadeu, sobrevivente do atentado e agora casado com Gilda (Heloísa Jorge), reencontra Maria e reacende o amor interrompido décadas antes, compondo uma narrativa marcada por disputas familiares, ambição e reencontros que exploram os efeitos do passado sobre identidades e vínculos afetivos ao longo do tempo.
 
TRABALHOS DE WALCYR CARRASCO NO SBT
 
Novela
Estreia
Término
Cap.
Horário
Função
22/09/2003
04/06/2004
221
18h15
Autor principal
A Padroeira
13/09/2004
20/05/2005
215
18h15
Autor principal
04/12/2006
03/08/2007
209
18h15
Autor principal
15/09/2008
05/06/2009
227
18h15
Autor principal
12/12/2011
10/08/2012
209
19h30
Autor principal
07/10/2013
04/07/2014
233
19h30
Autor principal
14/09/2015
08/04/2016
179
19h30
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